Winnie Lim: Manter um site pessoal não é mais divertido
Me deparei recentemente com um texto da Winnie Lim que me deixou entristecido. E por isso, eu decidi fazer alguns comentários a respeito. Mas, antes de qualquer coisa, acho que preciso dizer pra você quem é Winnie Lim, inclusive para mim.
Segundo sua própria definição,1 Winnie é uma ex-designer auto-didata, que entre os anos 2000 e 2016 acumulou experiência tanto em mídia impressa quanto digital, e que nasceu e viveu em Singapura durante praticamente toda sua vida, exceto por um curto período de tempo em que morou em San Francisco, Califórnia. Após 2016, precisou deixar de trabalhar devido à saúde, sofrendo com enxaquecas crônicas e fotossensibilidade.
Embora declare que não possui hobbies porque parece não ter capacidade de sentir prazer, Winnie faz várias coisas que, segundo ela, a enriquecem como pessoa, incluindo leitura, exercícios físicos e fotografia. Em seu site (que é um mix de diário, blog e jardim digital) ela tenta publicar alguma coisa pelo menos uma vez por semana, a maioria das vezes documentando sua própria vida e os esforços em relação à saúde e existência.
Há alguns anos atrás, quando meu site estava parado e eu ainda não tinha abraçado a ideia de transformá-lo em um jardim digital, encontrei o site da Winnie e pensei, "uau! esse é o tipo de site que eu gostaria de ter quando crescer". Foi admiração à primeira vista, e eu tentei copiar o que ela estava fazendo, embora sem sucesso, porque como se aprende na indie web, cada site tem a sua própria cara, a sua própria identidade, que é o dono do site quem define. Mas a inspiração ficou, e agora, anos depois, acho que encontrei a minha própria identidade, que é o que você vê e lê aqui.
Enquanto isso, continuo seguindo a Winnie, e lendo seus posts, que são maravilhosos. Eis que, durante o feriado da independência aqui no Brasil, no último dia 06 de setembro, a Winnie publicou um texto dizendo que manter um site pessoal não era mais divertido. E eu pensei "como assim?" e então eu fui ler. E concordei. E fiquei triste.
Daí minha vontade de comentar algumas coisas:
Over the decades I’ve migrated my blogging to other hosted platforms like livejournal, vox, posterous, wordpress.com, medium, etc but in 2015 I decided I want to stop experimenting with other platforms in order to have a forever home with my writing. I started to feel the importance of permalinks – how disruptive and saddening it is when cherished posts by other people go 404.
Quando li esse trecho, pensei em duas coisas diferentes: primeiro, como eu e a Winnie pensamos da mesma forma. Quando eu busquei um endereço próprio na internet, foi exatamente pensando em fixar residência, e em encontrar um lugar permanente para os meus escritos, para os meus pensamentos, de forma que eu pudesse visitá-los sempre que eu quisesse, e também para deixá-los disponíveis para quem viesse me visitar a qualquer momento.
O que me leva ao segundo pensamento: concordo com a Winnie, porque não há nada pior do que ler o texto de alguém on-line e em seguida experimentar uma disrupção, uma quebra, quando a gente resolve visitar um link que alguém criou, e descobre que aquele link está quebrado, ficou podre. Todo texto na internet está sujeito à podridão, e eu tentei, neste meu site, contribuir para evitar que isso aconteça com os links que eu referencio.
Back then I was pro-technology and didn’t fully understand my privilege in many ways. I was always advocating for personal websites without realising how much work it is for the average person.
Acho que nunca parei para refletir, tanto quanto a Winnie, sobre o privilégio de ter conhecimento técnico. Sendo alguém que cursou um técnico em processamento de dados, e que depois fez faculdade de Ciência da Computação, seria fácil achar que criar um site próprio é fácil e, pior, que qualquer um pode fazer isso — mas eu não me deixo levar, porque não é fácil e, dependendo do conhecimento que a pessoa possui, pode ser, inclusive, frustrante. Primeiro, achar hospedagem de sites que preste, depois aprender (ou desenferrujar) conhecimentos sobre CSS, FTP, bancos de dados e uma série de pormenores.
Não é pra qualquer um, e mesmo pra quem é da área, pode ficar chato com o tempo: não seremos, amanhã, a mesma pessoa que somos hoje, tanto quanto não somos hoje o que fomos ontem. Como seres humanos, somos dinâmicos, e nossos interesses e experiências mudam, amadurecem, evoluem. E sob esse aspecto, ter e manter um site pessoal é um desafio por si só.
It was then peaceful for a while. But running wordpress on its own is also stressful, people are always seeking to exploit its vulnerabilities.
E é por isso, por concordar em gênero, número e grau, que eu não uso mais Wordpress. Parti para uma solução própria.
Mas, solução própria ou não, trata-se do mesmo princípio que faz com que as pessoas hospedem seus escritos em plataformas de terceiros: Medium, Bear Blog ou, se a pessoa realmente quiser se manter no ecossistema, no Wordpress.com. Porque assim a pessoa pode se concentrar em escrever, e não em gerenciar o backend, a "chatice técnica".
No caso da Winnie, ela diz que começaram a questionar por que ela simplesmente não usava um SSG, um gerador de sites estáticos, como o Hugo, ou o Jekyll. Mas ela é taxativa nesse ponto: os recursos que ela desejava, sobretudo a possibilidade de mostrar os relacionamentos entre seus escritos, a fizeram escolher — e lidar, da melhor forma possível com — o Wordpress.
This site is over 10 years old and this is the first time attacks are happening consecutively. Why? AI, obviously. I feel dirty even typing the word out. It is being used to find vulnerabilities at a speed and depth that didn’t occur before.
So I patched the site again, and the next thing I know is that bots are clogging up matomo, which I use to view referral traffic etc. I’ve used robots.txt and .htaccess to block them but most of them are masquerading as humans. I look at the site’s access logs and it is just bots, bots, bots everywhere.
Winnie fala sobre seu site ter mais de 10 anos no ar e sobre ter sido recentemente hackeado, duas vezes através do Wordpress, e uma vez através do Matomo, ferramenta de analytics que ela usa para saber de onde seus visitantes estão vindo. E a culpa disso? Inteligência artificial. Sendo usada para encontrar vulnerabilidades com velocidade e profundidade nunca antes vistas. Quando ela olha para seus logs, tudo o que consegue ver são bots de IA — it is just bots, bots, bots everywhere —, disfarçando-se como gente de verdade, mas aproveitando a visita pra copiar os dados — os textos, as criações dela. E ela (com razão) se sente violada.
I’m spiritually exhausted with these bots. If I’m having so much frustration as a former technically-inclined person, I can’t imagine the average person trying to run a self-hosted personal website. Sadly platforms are the way to go for the average person.
Logo depois de dizer que se sente violada com tantos ataques de IA, esse trecho mencionando a "exaustão espiritual" me fez pensar sobre como lidar com IA, que de fato promove esse verdadeiro assédio sobre nossos dados e criações nos dias atuais, pode ser de fato frustrante: se alguém com conhecimento pregresso em tecnologia se cansa de lidar com o tequiniquês de um site pessoal, que dirá a pessoa sem essa base? Por isso tenho que concordar que, pra maioria das pessoas, se "proteger" atrás dos muros das grandes plataformas parece ser a melhor solução — embora isso não vá livrar ninguém das garras das inteligências artificiais das próprias plataformas.
I’ve personally argued that we are probably living in the dark times but dark times are only obvious when viewed with the lens of history.
Existem muitas notícias recentes sobre inteligência artificial. O tema não deve ir embora tão cedo, e a preocupação tem se intensificado em relação a controle, uso justo e em medidas paliativas para evitar que uma superinteligência nos domine e acabe com a humanidade. Mas a discussão precisa, antes disso, também levar em conta problemas como os que a Winnie tem passado. Também pelo fato de que todos nós, que temos sites independentes, parte da small web, passamos pelo mesmo.
Eu considero, sinceramente, que o grito que a Winnie deu, ela deu por todos nós. E os tempos são negros, de fato. E a tendência é que isso piore exponencialmente.
I write because I believe someone out there resonates with my experiences. But when everything starts to be about speed, utility and power, life becomes a dehumanising experience.
Aqui, uma pequena observação: por trás da minha vontade de fixar residência na internet, e uma residência própria, está o fato de poder ter liberdade, e de poder compartilhar o que eu quero, com quem quero, no formato que eu quero. Não posso admitir — nem concordar — que por conta de empresas grandes quererem scrapear meu conteúdo em nome de velocidade, utilidade e poder, eu seja obrigado a passar por isso.
Why should I take the time and effort – the deep meditative state I need to reach to translate my inner experiences into coherent words – when AI bots just scrape everything? And someone out there is probably typing a prompt and getting responses in 0.001 seconds without giving a single thought about the human energy that is powering that response.
E este comentário da Winnie, mais para o final do texto, é onde ela está mais coberta de razão: onde está a graça, de que vale o esforço de se concentrar e traduzir suas vivências, combinar seu conhecimento, criar um fluxo consciente de palavras, só pra depois um bot de IA vir e copiar tudo, pra depois responder, em um milésimo de segundo, alguém que tenha digitado um prompt?
A energia que ela dispendeu, onde fica? A energia que todos dispendemos, tendo sites na web pessoal. É uma grande reflexão, e uma reflexão que realmente me entristeceu, porque às vezes pensar sobre isso parece levar a crer que não há saída, não há proteção. Parece como tapar o sol com a peneira, ou rolar a pedra de Sísifo.
Eu queria terminar falando com a Winnie: pedir pra ela permanecer firme, porque a gente tem que tentar permanecer firme. Pedir pra ela ser forte, porque os textos que ela escreve são ótimos, são inspiradores, e pra mim, por mais de uma vez, foram a diferença entre um dia ruim e um dia bom.
Queria que ela soubesse disso. E que estou com ela, na mesma linha de pensamento.
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