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Ursula e seu blog

atualizada em blog

Eu nunca quis blogar antes. Nunca gostei da palavra blog — acredito que a ideia é que deva significar bio-log, ou qualquer coisa assim, mas soa como um tronco de árvore encharcado num charco, ou talvez como uma obstrução da passagem nasal (Ah, ela fala assim porque tem blogs terríveis no nariz). Também me desanimei com a ideia de que um blog tem que ser “interativo”, que o blogueiro tem que ler os comentários das pessoas pra respondê-los e começar uma conversa sem limites com estranhos. Sou introvertida demais pra querer fazer isso. Fico feliz com estranhos somente se eu puder escrever uma história ou um poema e me esconder deles atrás do que escrevi, deixando que fale por mim.

Mas ver o que o Saramago fez com esse formato foi uma revelação.

Ah! Entendi! Agora entendi! Posso tentar também?

Os meus experimentos, tentativas e esforços (isso é o que ensaio significa) até agora têm muito menos peso político e moral do que os de Saramago e são mais trivialmente pessoais. Talvez isso mude conforme pratico esse formato, talvez não. Talvez eu logo descubra que isso não é pra mim no fim das contas, e pare. Isso ainda veremos. O que eu gosto no momento é a sensação de liberdade. Saramago não interagiu diretamente com seus leitores (exceto uma vez). Essa liberdade, também, vou emprestar dele.

Ursula K. Le Guin, uma das maiores escritoras de ficção científica de quem eu preciso ler mais obras do que já li (e dela, infelizmente eu só li "O feiticeiro de Terramar") escreveu sua Note at the Beginning ao iniciar seu próprio blog, inspirada por José Saramago, em outubro de 2010.

Descobri a Note at the Beginning (cujo trecho acima traduzi de forma livre) depois de me deparar com um texto da Miss Biblioteca falando sobre "Sem tempo a perder", uma "coletânea de textos leves, afiados e cheios de humor". Aliás, quando li a descrição dada pela Miss,  eu imediatamente tive vontade de ler o livro.


Eu descobri outro dia, enquanto reconstruía meu site pessoal, que eu já escrevo coisas em blog (com certos hiatos e várias coisas que eu por enquanto deixo privadas) há pelo menos 25 anos. E lendo a postagem inaugural de Ursula, foi impossível não reparar em certas passagens.

"Também me desanimei com a ideia de que um blog tem que ser “interativo”, que o blogueiro tem que ler os comentários das pessoas pra respondê-los e começar uma conversa sem limites com estranhos. Sou introvertida demais pra querer fazer isso." 

Ah, a internet. Quando surgiu, permitiu que chegássemos, sentados nas cadeiras e sofás de nossas casas, a tantos lugares... e permitiu-nos ficar ocultos atrás dos computadores. Quando comecei a blogar, não pensava nisso. Só escrevia. Ao contrário de Ursula, achava à interatividade do blog prazeirosa, e quando comentavam alguma postagem minha, geralmente eu comentava de volta. 

Mas com o passar dos anos, vieram as redes sociais, os blogs caíram meio que em desuso e eu, que continuei escrevendo, me deparei com uma seca de interações. Como? Se antes eu escrevia e por mais bobo que fosse o que eu dizia, vinha comentário? Depois, nada, exceto pelo spam dos robôs que ficam buscando caixas de mensagens desprotegidas que possam atacar com seus anúncios verborrágicos. Eu ainda não tinha aprendido que escrever é algo que se faz antes de tudo para si mesmo, e ficava ansioso e desanimado sem receber comentários.

Anos depois, lição aprendida: meu blog não tem mais caixa de comentários, e eu deixo as interações para acontecerem livremente, se as pessoas quiserem, nas redes sociais — mas apenas Mastodon e Bluesky. Embora o que eu goste mesmo é de receber um e-mail. Penso que se a pessoa teve a paciência de me escrever é porque algo que eu publiquei mexeu com ela e, aí sim, nada mais justo do que responder. O bom disso é que nada ocorre com ansiedade ou velocidade. É mais a minha cara 25 anos depois... e eu sempre disse (embora ninguém nunca acreditasse) que me considero meio introvertido.

"Os meus experimentos, tentativas e esforços (isso é o que ensaio significa) até agora têm muito menos peso político e moral do que os de Saramago e são mais trivialmente pessoais."

Aqui, me identifico muito com a questão dos experimentos. Escrever é tentativa, é ensaio. Michel de Montaigne praticamente inventou esse termo, que virou o verbo essayer do francês, literalmente tentar ou ensaiar. Parte do processo de escrever em um blog (e em um wiki) significa isso: experimentar, ver como aquilo que pensamos sai da cabeça e vai parar no papel (ou, no caso, no editor de texto do blog).

"O que eu gosto no momento é a sensação de liberdade."

O que eu sempre gostei foi a sensação de liberdade do blog. Deste site. A possibilidade de fazer aqui o que eu bem entender. Acho que todo mundo que tem um site, um blog, um wiki... um jardim digital, tem essa liberdade. É como brincar de lego, montando e desmontando as coisas. Isso é insubstituível, terapêutico, e algo que quero continuar mantendo e experimentando.

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