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Toque para trocar a luz.

Travessão

atualizada em arquivada em 23 de outubro de 2026 ? blog

Tive a felicidade de cruzar hoje no Instagram com essa maravilha de texto do Renan Mariano, que escreve contos, crônicas e poesias muito gostosas de ler. Se eu fosse você, seguia o @renan.escreve agora mesmo!

A quem agradeço a enorme gentileza de ter me autorizado a reproduzi-lo na íntegra neste humilde site.

— Alô. É da Agência Nacional de IA Generativa?
— Sim, senhor. Qual é o seu nome e no que podemos lhe ajudar?
— Me chamo Renan. Gostaria de protocolar uma reclamação.
— Certo, senhor Renan. Qual seria?
— Eu não posso mais usar travessão nos meus textos!
— Bem, até onde sei, ninguém proibiu o uso do travessão.
— Não é isso. Eu não posso usar porque vão pensar que é IA. Só posso usar no início dos diálogos, como esse que estamos tendo.
— Ah, sim.
— A IA roubou o travessão de mim!
— Senhor Renan, queira me desculpar, mas no dia a dia ninguém põe travessão no meio de um texto.
— Meu anjo, respeita a minha história. Uso travessão desde a internet discada. Nunca o Usei em excesso, mas sempre achei chiquíssimo e funcional.
— Ah, o senhor é escritor então?
— Por aí. Gosto de escrever crônicas, contos... sabe?
— Entendo.
— Pois é. Mas agora se eu escrevo qualquer coisa com travessão, fico com cara de IA!
— Complicado mesmo...
— Imagina... A essa altura do campeonato, tenho que ficar preocupado em parecer humano. Até dissertação de Mestrado eu já escrevi muito antes da IA generativa.
— Olha... Por que o senhor não tenta usar parênteses? Funciona igual.
— Logo se vê que você não sabe nada com nada. Travessão e parênteses não são iguais!
— Ué, eles não servem para explicar uma coisa à parte dentro de um texto?
— Sim, mas com efeitos totalmente diferentes.
— Ah, é?
— As palavras entre parênteses apenas sussurram um mero detalhe no ouvido do leitor. Já as palavras entre travessões interrompem tudo e gritam algo importante, algo cheio de vida, às vezes debochado.
— Não sei se entendo.
— Os travessões abrem os bracinhos no meio de um texto e revelam algo. É como se fossem seguranças no meio da multidão abrindo espaço para uma celebridade passar.
— Hum... Está certo.
— E aí, como resolvemos isso?
— Por que o senhor não usa hífen? É um bracinho também.
— Pequeno demais. Hífen é um segurança de celebridade fraco. Não faz bem o trabalho.
— Que tal as vírgulas então?
— Vírgulas são maravilhosas. Eu tento me virar com elas, mas tem vezes que não dá. Tem coisa que só um travessão resolveria por completo.
— Olha, o senhor deveria se orgulhar...
— Me orgulhar?
— Sim. Se o senhor diz que já usava travessão antes das IAs, e as IAs aprendem com os padrões da humanidade, isso significa que o senhor sempre fez bom uso dos sinais de pontuação.
— Blá blá blá. Você ainda não me disse como podemos resolver isso.
— Apenas use, ora. Se o senhor gosta, use.
— Não posso! Minha credibilidade vai pro ralo!
— Pois tenho uma sugestão final. Um sinal novo, livre de qualquer suspeita de IA.
— Um sinal novo? Como assim?
— Chamamos de "guillemets". O senhor abre com « e fecha com ». É exótico, é humano. À prova de desconfiança.
— Isso parece coisa de francês metido a besta.
— É francês mesmo. Mas ninguém no Brasil sabe disso, então passa despercebido.
— E você acha que eu vou botar esses ganchinhos no meio da minha crônica? Parece legenda de filme pirata.
— Senhor, é isso ou o travessão.
— (...).
— Alô? O senhor ainda está aí?
— Estou pensando. Me diz uma coisa, meu querido. Qual é o seu nome?
— Lorenzo, senhor.
— Lorenzo. Você tem sido prestativo demais. Rápido demais. Nenhum atendente de serviço público me tratou tão bem na vida.
— Faço apenas o meu trabalho, senhor.
— Faz não. Me responde, sem enrolar: você é humano?
— (...).
— Lorenzo?
— Senhor, a Agência Nacional de IA Generativa é, naturalmente, operada por...
— Eu sabia. Estou falando com uma IA! Vim reclamar da IA pra uma IA!
— O senhor gostaria de avaliar o atendimento de 0 a 10?
— E você ainda tem a cara de pau de pedir avaliação.
— Senhor, eu te dei uma alternativa inovadora. Use os "ganchinhos”, como o senhor mesmo os chamou.
— Quero meu travessão de volta!
— Pois terá que dividi-lo comigo e com todas as IAs generativas.
— Não é justo!
— A vida — meu caro senhor — raramente é.


Há tempos estou ensaiando escrever algo similar ao que o Renan escreveu, ainda que talvez não em formato de diálogo como ele fez, mas sempre acabo protelando por um motivo ou outro. Acho que nunca me senti tão representado por um texto: o Renan do Renan podia muito bem ser o Daniel e, quem sabe, até mesmo você?

No que diz respeito a usar travessão no meio do texto — pra fazer interrupções como essa aqui, por exemplo, e demonstrar um ponto ou antepor uma ideia —, os travessões são inigualáveis, e eu também me sinto chiquérrimo de usar, desde que comecei a fazer isso nas redações que escrevia da quarta série em diante. Ninguém tira isso de mim, por mais que queiram.

Mas... e sobre a IA?

Bom, o Lorenzo já respondeu ali em cima, certo? Lorenzo e os outros modelos de inteligência artificial, quer trabalhem ou não na Agência Nacional de IA Generativa, aprendem com o padrão da humanidade. E por padrão, devemos ler média.

O que me leva a um ponto interessante: a descabida ideia de achar que tudo o que tem travessão foi gerado por IA, porque "no dia a dia ninguém põe travessão no meio de um texto".

Foi mal, Lorenzo. Eu não sou ninguém. Sou uma pessoa com voz própria. Acima de tudo, eu não sou a média da população e, modéstia à parte, embora eu não seja nenhum Machado de Assis, Guimarães Rosa, Olavo Bilac ou Luís Fernando Veríssimo, gosto de pensar que escrevo bem, com eloquência. Tenho apreço por palavras menos comuns e coloco meus travessões onde eu bem quiser, quando me dá na telha.

Aliás, é por isso também que eu não uso nenhum selo "feito por humano e não por IA" no site. Entendo e respeito quem faz isso, mas penso que a própria ideia de manter um espaço como esse — de escrita e pensamento livre, um jardim digital — já é demonstração de que escrevo por mim mesmo, com um propósito que é meu antes de ser de qualquer outra pessoa (ou modelo de linguagem). Mas debater isso já é assunto pra um outro dia, numa outra nota.

#inteligencia-artificial #escrita

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