Como se combate a desinformação no digital?
Combate à desinformação no digital é mais difícil do que parece, de Rodrigo Ghedin
Estou há exatamente uma semana tentando comentar esse texto que o Ghedin publicou no Manual do Usuário, mas eu simplesmente não estava achando tempo. No texto, ele menciona a complexidade de se combater a desinformação na internet, nesta época em que vivemos, e usa pra isso um caso que aconteceu no condomínio dele — mas que poderia ter acontecido em qualquer lugar do país. Um morador compartilhou uma imagem viral, afirmando que o voto nas eleições de 2026 serviria como prova de vida para o INSS.

Outra moradora fez o que muita gente faz hoje em dia, e jogou a informação no Google — que, muito prontamente, mandou aquela mensagem gerada por IA, formatada com toda a autoridade, dizendo que a informação era falsa, baseando-se numa verificação que o site Aos Fatos fez em 2024, e que foi reproduzida por outros grandes veículos da mídia brasileira.
Mas como em várias outras histórias de WhatApp de condomínio Brasil afora (será?), essa história aqui teve uma reviravolta. A informação que era fake news em 2024, na verdade agora é verídica. Eu sei que não é bem assim que a coisa funciona normalmente, mas nesse caso tem razão de ser, e o Ghedin explica (muito bem, como sempre) no texto dele. O que eu quero é comentar (e talvez, contribuir) em alguns pontos específicos que eu trago a seguir.
Informação tem data de validade
Afinal, a imagem viral, que em 2024 era informação falsa, tornou-se verdadeira em 2026. Falo da mesmíssima imagem. Ela teve o sentido alterado por circunstâncias alheias.
O que é compartilhado online para propagar desinformação normalmente é pontual e não reutilizável. Com isso, quero dizer que seria de se pensar que uma imagem comprovadamente falsa continua a ser sempre falsa ao longo do tempo, não importa quanto tempo se passasse. Quer um exemplo? A foto do Papa Francisco, de casaco puffer branco, publicada em 24 de março de 2023 no Reddit, depois de ter sido criada pelo artista Pablo Xavier com o Midjourney. Foi declarada falsa em 28 de março, e continua sendo falsa hoje.

Mas nessa vida, não se pode tomar nada como garantido. Eis que, em 2026, o comparecimento às urnas de fato começou a valer como prova de vida automática para os aposentados do INSS (também foi anunciado pelo próprio TSE). Então uma mentira, desmentida em 2024 pelo "Aos Fatos", agência respeitada de fact checking, passou a ser verdade.
Mas veja, como disse o Ghedin:
Ela teve o sentido alterado por circunstâncias alheias.
Uma evolução tecnológica (finalmente) permitiu criar uma solução que passou a permitir o cruzamento de dados entre o TSE e o INSS e colocar em prática algo que já era promessa desde 2022.
Pra mim, a moral da história aqui é que, para combater a desinformação no ambiente digital, precisamos estar sempre alertas, mesmo com uma imagem, e mesmo que ela pareça ser falsa.
Eles fazem um trabalho incrível e a informação da matéria segue correta, mas alguém que a lesse hoje sem se atentar à data da publicação e não tivesse a curiosidade de aprofundar a pesquisa para saber se algo mudou de dois para cá, estaria mal informado.
O comentário que sinto vontade de registrar aqui tem duas partes. Primeiro, quero concordar com o Ghedin e reconhecer que Aos Fatos faz um excelente trabalho de fact checking e, junto com a Agência Lupa, se tornou meu go to place para verificar se algo é verdade ou não, mais ainda neste período eleitoral que vivemos (e ainda viveremos em alguns dias).
O que me lembra que, comigo, aconteceu algo recente, não no grupo do condomínio como foi com o Ghedin, mas na família: quando minha mãe me disse que parecia que o Lula tinha jogado a bandeira do Brasil no chão após uma foto na seção eleitoral, eu fui verificar justamente nos dois veículos: desmentido, tanto pela Lupa, quanto pelo Aos Fatos. Minha mãe, é claro, agradeceu, e não foi mais uma vítima da desordem da informação.
Segundo, dizer que por mais que sejam fontes confiáveis, não dá pra assumir que apenas estando ali, publicado, um relato seja verdadeiro: as coisas podem ter mudado (e em alguns casos, que o digam os aposentados, pra melhor).
Na prática, combater desinformação no meio digital também requer que você abra os olhos, e que faça que nem quando a inflação era galopante no Brasil, e consulte os preços as informações em mais de um lugar antes de se posicionar.
Ruído que sufoca o que é útil
A entropia informacional da internet dificulta cada vez mais a busca pela verdade. Se em casos como este, em que a verdade é bem definida — pois questão binária (sim ou não) —, o esclarecimento é difícil, só nos resta imaginar ou relembrar o desafio em questões subjetivas, com mais nuances ou até sem resposta certa.
O Ghedin falou de "entropia informacional" para explicar como o excesso de camadas, versões velhas, checagens passadas e respostas automatizadas geram um verdadeiro caos acumulativo.
Em nossa época, gerar informação é fácil, rápido e barato, ainda mais com o advento de agentes de IA que produzem praticamente qualquer texto. A quantidade de informação produzida já supera há tempos não apenas sua qualidade, mas também a quantidade humanamente possível de ser consumida.
O fluxo constante de informações sendo produzidas é como um rio: um rio extremamente poluído, onde a navegação se torna cada dia mais impraticável. Quando a quantidade de informações disponíveis para filtrar — informações boas, informações ruins, verídicas, falsas, ultrapassadas, desatualizadas, ruído, ruído, ruído, sufocante — se torna virtualmente ilimitada, qualquer tentativa de filtrar pode gerar uma sobrecarga cognitiva.
E é aí que até mesmo responder a uma questão simples, "o voto vale como prova de vida para o aposentado em 2026?" — à qual bastaria uma resposta binária — fica difícil. Decifrar no meio do entulho de dados o que presta ou não, o que se aproveita ou não, se torna cansativo. Nossa capacidade de chegar a verdade sozinhos estraga. E acho que é aí, que acabamos cedendo, e nos rendendo as respostas automáticas geradas pelas plataformas, como o resumo gerado por inteligência artificial da busca do Google — exatamente o que levou à confusão entre informação que era mentira em 2024 e se tornou verdade dois anos depois —, ou os assistentes de qualquer outra Big Tech, que se oferecem para resumir informações, apresentando-as de maneira fidedigna, embrulhadas em papel lindo, com cara oficial e usando um tom acima de qualquer suspeita, mesmo que sejam baseadas em fontes obsoletas, ultrapassadas, e que não condiz mais com a verdade naquele momento.
É difícil, então, tentar responder a essa pergunta que fiz no título desta nota. Acho que o segredo é, primeiro, tentar não nos desesperarmos frente a um tsunami de fontes de informação de todos os tipos.
Precisamos gerar nossa própria dieta de informação e verificar, com cuidado, o que pode ser levado a sério, e o que não pode. E mesmo com toda verificação sendo realizada, ter sempre em mente que não devemos nunca confiar piamente na primeira informação que vemos.
Vivemos, de fato, tempos difíceis.
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