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Será que eu tenho preconceito com autor nacional?

atualizada em blog

Hoje de manhã estava falando com uma amiga no trabalho sobre leitura e livros que andamos lendo, e ela falou sobre talvez ter preconceito com autores nacionais. Eu fiquei pensando se eu tinha esse preconceito, e fui dar uma olhadinha nos meus registros de leitura, que só passei a registrar a partir de 2010, talvez 2015, em diante.

Capa de A águia e a galinha, por Leonardo Boff Encontrei leituras que fiz de autores como Laurentino Gomes, Eduardo Bueno, Fernando Morais e Fernando Sabino (de quem eu sempre lembro por causa de "O Homem Nu", crônica que virou filme duas vezes, em 1968 e 1997). Eu também li Cortella, Karnal, Fábio de Melo, Içami Tiba, Mauricio de Sousa, Marcelo Duarte e Marcos Piangers, quando tinha acabado de virar papai.

Então acho que dá pra afirmar que continuo lendo autores nacionais.

Capa de Política: Para não ser idiota, por Mario Sergio Cortella, Renato Janine RibeiroÉ o caso de "A Águia e a Galinha", do Leonardo Boff, e de "Política: Para não ser idiota", obra conjunta do Cortella com o Renato Janine Ribeiro. Estou com as duas leituras em andamento, e ambas são obras de não-ficção, que têm certa relação com a filosofia, e que eu comecei a ler movido, como sempre, pela curiosidade que me move.

Então não tem nenhum preconceito, certo?

Certo?

Bom, fui dar uma pesquisada no meu perfil do Hardcover, onde, além de na minha página de leituras, eu guardo meu histórico de obras lidas, e descobri que apenas 6% daquilo que eu venho lendo ao longo dos anos é de autor nacional. O restante é estrangeiro. O que mostra, no mínimo, que há espaço para melhoria.

Bom, então, antes de qualquer coisa, é uma injustiça que eu não consiga me lembrar, com exatidão, das datas em que li os livros da minha infância, né?


Lá pelo final da década de 1980, quando eu estava na segunda ou terceira série, me lembro de ler "O Meu Pé de Laranja Lima", escrito pelo José Mauro de Vasconcelos. Era um livrinho não muito grosso, e pequeno — bem menor que os livros que eu lia na época e que os livros impressos atuais. Foi a primeira experiência da minha vida lendo um clássico da literatura brasileira, que virou três telenovelas, dois filmes e peças de teatro.

Ainda na escola, através das aulas de língua portuguesa e de redação, a Coleção Vaga-Lume dominava. Ela foi lançada na década de 1970, e tinha livros de aventura, mistério e histórias de detetive, tudo escrito por autores brasileiros contemporâneos.

Via Vaga-Lume, li muito livro do Marcos Rey, incluindo "O Mistério do Cinco Estrelas" — que meus dois filhos leram também, também como tarefa na escola —, "Um Cadáver Ouve Rádio" e "O Rapto do Garoto de Ouro". Conheci e li "O Escaravelho do Diabo", da Lúcia Machado de Almeida, que foi um dos best-sellers da coleção, virando filme em 2016. Foi também na Vaga-Lume que eu li "A Ilha Perdida", da Maria José Dupré, que inaugurou a coleção quando foi lançada, em 1973. Sobre este livro específico, fiquei maravilhado por saber que tudo se passou em uma ilha no rio Paraíba, que cortava uma fazenda em Taubaté, pertinho de onde eu nasci. Foi a primeira vez que me dei conta de que a leitura pode remeter a lugares conhecidos.

Conforme texto do André Bernardo, publicado na BBC News em 25 de março de 2023, por ocasião do aniversário de 50 anos do lançamento da série.

Ainda na Coleção Vaga-Lume, da Maria José Dupré eu também li "Éramos Seis". Foi com certeza a leitura mais desafiadora que fiz na época. O livro era o mais grosso da série, e sua temática, que mostrava uma matriarca tentando manter a família unida mesmo com dificuldades financeiras e dramas familiares na São Paulo das décadas de 1920 até 1940, era a mais distante do restante dos livros. Detestei na época.

Hoje, depois de ter lido novamente, eu considero esse livro da Dupré um clássico da literatura, o único que eu conheço, aliás, que foi transformado em novela na televisão cinco vezes, em 1958 (na TV Record), 1967 e 1977 (as duas vezes na TV Tupi), 1994 (no SBT, com a Irene Ravache, que eu assisti parcialmente e que justamente me levou a reler o livro) e em 2019, na Rede Globo, com a Glõria Pires.

Mas eu não posso deixar de falar dos outros livros da Maria José Dupré que eu li: os queridos livros que trazem, como personagem principal, o Cachorrinho Samba. Eu li o livro que leva o nome dele como título, li "A Mina de Ouro", li "O Cachorrinho Samba na Floresta" e li "O Cachorrinho Samba na Fazenda". E eu estava todo feliz aqui achando que tinha lido tudo do cachorrinho, quando descobri, via Wikipédia, que tem livros dele que eu não li: histórias do simpático canino entre os índios, na Bahia e até na Rússia.

Isso merece um projeto de releitura do que li e adição desses livros.


Eu não sei quantas leituras nacionais adicionais eu acrescentaria se fosse possível lembrar de cada data em que li a Coleção Vaga-Lume, os livros do Samba ou mesmo "A droga da obediência" ou "Pântano de sangue", obras do fantástico Pedro Bandeira. Mas seriam números para somar ao "O Xangô de Baker Street", do Jô Soares, e de outro livro dele, "O Homem que Matou Getúlio Vargas", ambos sensacionais, e a várias outras leituras.

Eu tenho muita convicção de que não tenho preconceito com autor nacional. Nunca falei, nem senti, aquela desvalorização automática que as pessoas aplicam às obras criadas pelos autores brasileiros, porque pensam que o que vem de fora, só porque vem de fora é automaticamente melhor.

O que acontece comigo tem muito mais a ver por desconhecimento e "falta de oportunidade", por assim dizer. Eu já mencionei acima que é a curiosidade que acaba me levando a selecionar essa ou aquela leitura. É assim que eu funciono: não pela nacionalidade da obra, ou do autor, mas pelo nível de interesse que aquela obra me desperta.

Capa de Porteira 9, por Rodrigo PontesPor exemplo: se eu olhar pra minha leitura de 2026, a primeira coisa que vou perceber é que ela anda mais devagar do que nos outros anos: no momento em que escrevo essa nota, li apenas 9 livros (dos 15 que gostaria em 2026, o que já é um número 5 livros mais baixo do que eu consigo estipular). Mas... a segunda coisa que vou perceber é que um desses livros, vejam, foi justamente um livro nacional, "Porteira 9", obra escrita pelo Rodrigo Pontes, cuja dica de leitura, aliás, peguei via Manual do Usuário, do Rodrigo Ghedin.

Então, foi justamente um momento em que, movido pelo fato de estar ouvindo falar sobre "Porteira 9" pela primeira vez, minha curiosidade foi acionada e eu tive (mais um contato) com literatura nacional. E graças a esse fato, dentre as minhas leituras de 2026, 11% são de livros nacionais.

Capa de O Alienista, por Machado de Assis, Candido Portinari, Luisa Clasen, Rogério Fernandes dos Santos, Daniela LimaAlém disso, há dois livros nacionais que atualmente estão na minha fila de próximas leituras: e um deles é justamente um clássico da literatura brasileira,

Estou falando de "O Alienista", de Machado de Assis. E eu separei logo pra ler a edição ilustrada pelo Cândido Portinari! Então, é pra acabar de vez com essa ideia (que eu mesmo ventilei) de que eu tenho qualquer preconceito com autor (e artista) nacional. Eu vi essa edição em um reel do Instagram publicado pelo Stéfano Dal Pozzo, onde, ao citar dois livros para falar sobre fanatismo, ele cita a obra de Machado de Assis (o outro livro é outro clássico, só não nacional: "Fahrenheit 451", do Ray Bradbury).

No livro de Machado de Assis, o médico Simão Bacarmarte quer estudar a loucura. Pra isso ele abre um hospício na cidade e começa a internar todo mundo que ele acha que é louco. Com o passar do tempo, ele vai mudando os critérios de "loucura", até que acaba internando uns 80% dos habitantes. Depois acha que exagerou e inverte tudo, começando a internar quem é sensato e equilibrado. Mas nunca abre mão de uma coisa: ele é quem deve decidir quem internar.

Foi impossível não ouvir o Stéfano falando sobre o livro no reels e não sentir curiosidade de saber como essa história vai terminar, e onde tudo vai parar.

Capa de As vacas não me olham mais na cara, por Dora FreindO outro livro que me interessei por ler — veja como é bom atiçar a curiosidade — tem um nome doido: "As vacas não me olham mais na cara", que é o livro de estreia da carioca Dora Freind, cujo nome surgiu justamente durante a conversa que tive hoje cedo com a minha amiga. Ela me disse, "olha, estão dizendo que esse livro é muito bom", e então me mostrou uma avaliação de 4,7 estrelas na Amazon.

Pedi pra ela ler a sinopse. Descobrimos que se trata de uma história narrada por uma menina sem nome, criada em um ambiente rural pobre e isolado. A mãe dela vive mergulhada em um silêncio misterioso, o que leva a protagonista a escolher as vacas do pasto como principais companheiras. Depois, vai descobrindo o mundo por meio da linguagem e das pessoas que aparecem ao seu redor, mudando (e se mudando) da casa ao lado.

O título, que primeiro pareceu meio besta, tem uma mensagem escondida: se as vacas deixam de olhar para ela, talvez seja justamente porque ela já não pertence inteiramente àquele mundo silencioso que compartilhava com elas? Fiquei com vontade de ler.


Você tem dicas de livros nacionais que são muito bons na sua opinião? Me manda um recado clicando no botão aqui embaixo, ou me escreve via e-mail. Também vale sugerir livros pelo Mastodon e pelo Bluesky, por favor.

#leitura

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