O dia em que "ganhei" um real a mais de desconto
Eu detesto ter que me relacionar com farmácias em geral. Me chame de antissocial, se quiser: eu não vou me importar. O principal motivo pra eu não gostar sequer de entrar num desses estabelecimentos está no fato de que farmácias são as maiores prostituidoras do CPF que eu conheço. Não gosto de expor meus dados, e pronto. O motivo secundário está no fato de que, perto de casa, estou cercado apenas pelas grandes redes farmacêuticas, que têm o tamanho de suas filiais muito maior que o da qualidade de atendimento de seus colaboradores — com raríssimas exceções.
De forma que eu prefiro sempre pedir meus remédios pela internet e, quando o frete é grátis (o que não ocorre quase nunca), pedir pra entregar em casa. Mas hoje foi uma exceção.
Notei, saindo de casa, que minha pobre escova de dentes já tinha dado tudo o que podia pela minha boca. E pior: notei que eu não tinha escova guardada em casa. Resultado, ia ter que passar na farmácia.
Como todo CLT que se preza, vou trabalhar de ônibus, e a primeira implicação da necessidade de passar na farmácia foi ter que sair de casa mais cedo pra não perder o horário da condução. Então fui até a farmácia mais cedo.
Graças a uma série de questões que não serão detalhadas por mim aqui, eu necessito usar uma escova específica recomendada pela minha dentista que, claro, como você deve imaginar, não é das mais baratas. Na data deste texto aqui, ela custa entre 35 e 55 reais.
Entrei na farmácia e, de olho no relógio, fui ao corredor de higiene oral. Achei a escova e peguei. Vi o preço: uma etiqueta amarela daquelas de oferta, colada por cima do preço original, anunciava que ela custava R$ 42,49 ao invés dos R$ 46,49 convencionais. Tá, vamos pagar, vou perder o ônibus.
Chego no caixa, tem aquele bom dia padrão, a pergunta se eu quero informar meu CPF (não), e o rapaz passa o código de barras da escova pelo leitor.

Imediatamente vi algo errado: o preço, com desconto, era R$ 43,49. Faltava 1 real de desconto. Assim que o rapaz recitou a próxima frase do roteiro (ficou quarenta e três reais e quarenta e nove centavos, qual a forma de pagamento?) eu disse pra ele "ué, mas a etiqueta diz 42".
— Ah, é. A etiqueta tá diferente mesmo.
— Então por favor cobra o preço que está na etiqueta.
Aos que podem estar pensando "nossa, mas é só um real de diferença, deixa quieto, você vai perder o ônibus", eu gostaria de dizer que essa escova já é cara o suficiente, então se eu posso pagar um real a menos, vou pagar umm real a menos e ponto. Tenho certeza de que muita gente nem olha o preço da prateleira duas vezes e já enriquece as farmacias com a diferença todos os dias. Eu não.
O rapaz olhou pra escova e daí se virou pra mim: "é que essa etiqueta tá com o papel meio dobrado já". Eu fiquei meio sem entender o que aquilo queria dizer. Papel dobrado quer dizer que o desconto não vale mais, é isso? Respondi "tá, peraí, pego outra escova", sentindo "sorte" porque o corredor das escovas de dente era praticamente ao lado do caixa. Quando ele viu a outra etiqueta, acho que se sentiu mais convencido e seguro. E foi então que eu "ganhei" um real a mais de desconto, conforme fiz questão de registrar em foto.
Isso tudo aconteceu hoje de manhã e esse nunca foi um texto planejado. Mas resolvi que queria escrever a respeito, justamente por conta do que eu mencionei antes: quantas pessoas não reparam nessa diferença de preço?
Eu acho que é uma questão de consciência, que eu inclusive tento passar pros meus filhos. Meu mais novo outro dia foi comprar uma caixa de leite condensado, porque queria fazer brigadeiro. Levou meu cartão. Quando chegou em casa com a compra, eu perguntei quanto ele tinha pago.
— Ah, nem olhei, pai.
Tratei de conversar com ele a respeito, e ele entendeu que precisava verificar o preço. Neste caso, que não era uma necessidade de última hora como comprar minha escova de dentes, inclusive, pra poder comparar entre lojas.
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