Quando você se sentir burro, vá ler um livro infantil
Como ninguém é de ferro, muito menos eu, achei esse domingo em meio ao feriado prolongado de finados bem preguiçoso, e acabei me rendendo a um bocadinho de doomscrolling pelo Instagram.
Acabei me deparando com uma postagem bem interessante do @coletivolirico, que eu não sigo, e que provavelmente só apareceu pra mim porque minha irmã tinha curtido antes. Era um carrossel de texto, e o primeiro trecho começava assim:
Um velho dono de livraria me falou: "quando você se sentir burro, vá ler um livro infantil."
A história é contada em primeira pessoa. Depois de meses lendo filosofia e economia e terminando cada livro com a sensação de ter entendido só metade, uma pessoa toma como piada a sugestão de um dono de livraria: quando se sentir burra, ler um livro infantil.
Ela leva um para casa. Era sobre um urso que perdeu um amigo, falava de saudade em umas quarenta palavras e, em dez minutos, chegou mais perto do luto do que ensaios inteiros que ela lera antes. A tese do livreiro é que livro infantil não tem onde esconder ideia fraca, e que muito texto difícil complica de propósito para parecer profundo. No fim, a pessoa passa o conselho adiante: todo mundo ri, até passar dez minutos com o livro.
Eu li esse carrossel do Instagram umas duas ou três vezes. Foi como se a história estivesse conversando comigo, e eu pensei imediatamente em compartilhar aqui, pra que outras pessoas — e você — pudessem ler também.
Eu já li muita coisa ao longo do tempo. Prefiro ler ficção a não-ficção, porque é uma das válvulas de escape mais simples que existem para aliviar o estresse. Ficção diverte e te transporta do mundo em que a gente vive pra um mundo imaginário, ao alcance da mão.
Mas, como lifelong learner, eu também sempre estou lendo não-ficção. E acho que eu tenho que confessar que, às vezes, me sinto meio burro, igual à pessoa que foi conversar com o dono da livraria.
Talvez seja isso o que me prendeu nessa história: a frase do dono da livraria cabe numa linha, e por isso atravessou um carrossel, a curtida da minha irmã e chegou até aqui. Ideia curta viaja.
Me lembrei de Pascal, que, na décima sexta das suas Cartas Provinciais, explicou que só tinha escrito a carta mais longa por não ter tido tempo de escrevê-la mais curta. Escrever curto dá trabalho, e o trabalho é de quem escreve; o texto comprido, muitas vezes, só passa a conta de ler e compreender para o leitor.
Não é a primeira vez que essa ideia me persegue: em 2019 traduzi uma passagem de Toyota by Toyota que cita o mesmo Pascal para explicar por que um A3 bom leva tempo para ficar curto.
Agora... não acho que todo texto difícil seja ruim, porque tem assunto que é difícil mesmo. Mas vou guardar a parte mais gentil do conselho: sentir-se burro diante de um texto não prova que o problema seja só meu. E olha só: mesmo não sendo nenhum Pascal, consegui encurtar esta nota. Não ficou curtinha, mas deu trabalho, e o trabalho foi meu...
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