O cavalo de Schilda
Conteúdo com IA
Eu pedi ajuda da inteligência artificial para criar parte desta nota. Veja como eu uso IA aqui no site.
Em setembro de 1909, Sigmund Freud realizou sua quinta palestra na Clark University, em Worcester, Massachusetts. Em "Cinco Lições de Psicanálise", o psicanalista austríaco discutiu os limites da sublimação e os efeitos da repressão excessiva das pulsões.
Freud afirmou que parte da energia sexual pode ser desviada para atividades culturais e criativas. Mas alertou que esse desvio é limitado: do mesmo jeito que uma máquina não converte toda a energia que recebe em trabalho útil, não seria possível transformar toda a energia sexual em atividade cultural.
E é quando ele fala sobre uma velha história do folclore alemão, sobre os habitantes de Schilda e um cavalo muito bom de trampo que os Schildbürger possuíam.12
Os habitantes do lugar estavam satisfeitíssimos com a força e o trabalho do cavalo. A única coisa que eles lamentavam era que ele consumia aveia demais, e aveia era cara.
Resolveram tirá-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a ração aos poucos. Todo dia removiam alguns talos, com o objetivo de que, por fim, o cavalo se acostumasse à abstinência completa.
Durante certo tempo tudo correu magnificamente. Chegaram ao ponto em que o cavalo já estava comendo apenas um único talo de aveia, e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum.

No outro dia, os habitantes de Schilda tiveram uma surpresa desagradável: o pérfido cavalo tinha amanhecido morto — e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê.
Freud arremata sua anedota, dizendo:
Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum.3
Sigmund Freud, Cinco lições de psicanálise, São Paulo: Abril Cultural, 1978 (quinta lição).
Eu amo essa história. Em 2016, eu estava trabalhando com lean manufacturing e o diretor de TI da empresa, para quem eu respondia diretamente, foi quem me contou, enquanto falávamos sobre o fato de que toda otimização tem limite.
É verdade. Você pode otimizar recursos pra economizar dinheiro. Pode otimizar processos pra que se tornem mais rápidos ou para que a qualidade do que é produzido aumente. Você pode até mesmo aplicar otimização nos textos que você escreve — talvez a tal brevidade inteligente? — pra torná-los mais claros e legíveis, transmitindo melhor uma mensagem.
Mas exagere um pouco que seja e isso pode levar à falta de um recurso essencial. Exceda-se só um pouquinho e o processo trava, ou defeitos começam a aparecer. Otimize o texto exageradamente e de repente ele perde completamente o sentido, levando a mensagem diretamente pro beleléu.
E esse é o motivo pelo qual eu amo essa história: ela trata de qualquer coisa que corre o risco de ser otimizada até o colapso — ou, se você pensar bem, sobre a falácia que é interpretar a ausência de consequências imediatas como evidência de que um corte é sustentável, e que tudo bem fazer uma redução (ou aumento, dependendo da lente).
Freud usou a história de Schilda para ilustrar seu argumento para a psicanálise, enquanto meu ex-diretor contou a mesma história e a aplicou à nossa conversa sobre otimização.
Mas ela se estende infinitamente: tem sistemas que operam cada vez mais perto do limite? Schilda. Aumento de austeridade? Schilda. Burnout? Você já sabe a resposta.
Como usei IA nesta nota
Eu queria ilustrar essa nota com uma gravura dos Schildbürger, que nem essa aqui, que está hospedada no Commons da Wikipédia (e ilustra a história da vaca içada pelo pescoço, outro clássico dos habitantes de Schilda).
Porém, não achei nenhuma ilustração da história do cavalo e da aveia, e não sei se Freud adaptou esse conto, ou algo parecido. Ainda assim, queria uma imagem no estilo das gravuras da época, estampas satíricas muito bem desenhadas.
Então, recorri ao ChatGPT, e expliquei como queria fazer minha imagem, usando o seguinte prompt:
Uma gravura monocromática, ricamente detalhada e densamente hachurada, inspirada nas estampas satíricas alemãs dos séculos XVII e XVIII. A cena mostra uma praça de uma vila alemã, cercada por casas enxaimel, uma torre com portão, uma árvore e pequenas figuras ao fundo, tudo emoldurado por uma ornamentada decoração barroca em forma de arabescos. Em primeiro plano, um cavalo exausto, ainda com seu arreio, está morto no chão junto a uma manjedoura vazia. Ao seu redor, cinco cidadãos de Schilda, os Schildbürger, discutem e gesticulam com expressões de perplexidade: um deles examina um único talo de aveia, enquanto os demais tentam compreender o que aconteceu. Na parte inferior da gravura, inserir um cartucho ornamental contendo, em alemão e com tipografia gótica que pareça gravada na própria chapa: “Das Pferd der Schildbürger, nachdem sie ihm den Haber gänzlich erspart hatten.” A composição deve ter o aspecto de uma antiga gravura satírica alemã, com hachuras finas, textura de impressão e composição teatral. A imagem deve evocar uma estampa histórica sem reproduzir nenhuma obra específica existente. A legenda deve funcionar como uma ironia visual: os Schildbürger economizaram completamente a aveia do cavalo, com o resultado evidente diante deles.
Isso gerou essa gravura apócrifa, que não é obra histórica, mas que me deixou satisfeito. ↑
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