Sobre vacas, uma menina e sua gentificação
As vacas não me olham mais na cara foi um livro que apareceu muito por acaso na minha lista de leitura: e mesmo assim, quando resolvi dar uma chance à essa obra de estreia de Dora Freind, não consegui parar de ler. Comecei a leitura ainda em 28 de outubro, logo depois que uma amiga do trabalho me falou dele — "estão dizendo coisas boas desse livro" e eu fiquei pensando se eu acaso tinha preconceito com autores nacionais.
A gente não deve julgar um livro pela capa, mas eu gostei da capa desse, e isso já foi um passo pra me atrair. O título, também, foi curioso: pensei, "como assim, as vacas não olham mais na cara dela?". Não precisei de muito mais pra me convencer, e li as 128 páginas do livro (curto, eu sei) em quatro dias — teria lido em menos se não fossem outros compromissos e afazeres.
A história nos apresenta a uma protagonista sem nome, tudo porque quando ela nasceu sua mãe automaticamente — e por um motivo inexplicado — perdeu sua voz. O pai a abandona em seguida, e ela fica sem saber como se chama. Morando com a mãe em uma pequena casa num lugar mais ermo do que alguém jamais soube, ela faz amizade com as vacas do curral: fala com elas através de mugidos — _MMMMMmmmMmm... — e com elas se sente protegida e se alimenta, ruminando e pastando.
Só que, sendo menina, mostra-se inevitável que ela acabe se gentificando. Isso acontece aos poucos, à medida em que uma casa ao lado de onde a menina mora é ocupada por diversos vizinhos ao longo do tempo. A primeira vizinha, dona Lurdes, ensina a menina que deve-se fazer as refeições comendo com um garfo, e não diretamente com a boca de cara na comida, por mais que seja esse o estilo das vacas.
Dona Lurdes também lhe ensina a ler— e, não por acaso, a primeira palavra que ela aprende é garfo. Nossa protagonista também aprende — e reflete — sobre o Natal:
o que complica o Natal é essa coisa de Papai Noel. acho meio assustador que um velho, para quem eu nunca fui apresentada, fique me vigiando o ano inteiro para decretar se sou ou se não sou boa menina.
Além de não gostar nada da ideia de um velho que ela nem sabe quem é agir como fiel da balança determinando se ela é ou não uma menina boa, nossa heroína não se conforma com a falta de sociabilidade do bom velhinho. Como pode ele vir até o fim de mundo onde ela mora com a mãe, e mal se dar ao trabalho de falar com ela?
e não para por aí. no fim do ano, esse velho invade a casa da Dona Lurdes atrás de mim, mas não vem falar comigo. por que alguém atravessa o mundo para chegar nesse vilarejo fantasma, mas não se dá o trabalho de me dar um oi? a história não tem pé nem cabeça.
Ainda com dona Lurdes, a menina aprende a comer e a cozinhar. Seu prato preferido se torna... carne de vaca. E ela, coitada, se desespera quando descobre que está sabe-se lá há quanto tempo mandando as vacas embora pelo próprio cocô — sem poder sequer lhes dar um enterro decente, sem direito a desculpa ou despedida.
Muitas outras pessoas, além de Dona Lurdes, ocupam a casa vizinha àquela onde a menina mora com sua mãe. Com essas outras pessoas, ela vai aprendendo cada vez mais coisas — como algumas semelhanças entre as vacas e as pessoas...
aprendi com as vacas e com a minha mãe que bicho e gente gostam de companhia sem ter que pedir.
Ela tira conclusões — se espanta ao descobrir que sótão não é exatamente como um banheiro, já que nem todo mundo usa o primeiro igual, e para fazer as mesmas necessidades.
Eu, que sou declaradamente viciado em pipoca, quase briguei com a autora quando ela fez a menina descobrir o que era isso, descrevendo-a como um troço meio esquisito, parecido com pedaços de estofado do sofá de casa, misturados com sal e manteiga.
Eu poderia citar tantos outros pontos interessantes, mas não quero ficar dando mais spoiler... acho que basta dizer duas coisas: primeiro, que a leitura foi surpreendente, mais do que eu imaginava, e eu recomendo que você experimente.
Segundo, que as experiências pelas quais a menina passa enquanto se afasta de suas amigas vacas e se torna mais gente, passam pelo luto, pelo primeiro beijo, pelo sexo, pela puberdade... por perdas e descobertas que toda pessoa passa, mas que, pela visão dela, são únicas.
Eu acho que o único ponto negativo que eu destacaria é o fato de que o livro inteiro é escrito em letra minúscula, exceto, claro, pelos nomes próprios, como Lurdes. Não me entendam mal, pode ser um pet peeve meu, porém não abro mão dele. Entendo a letra minúscula em espaços pessoais como um blog ou jardim digital, mas estamos falando de um livro... sei lá. Achei inapropriado.
Mas fora isso, se você ignorar a grafia, a história vale demais a pena ler. Fica essa dica.
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