Resenha: A enxadrista de Auschwitz
Terminei de ler "A Enxadrista de Auschwitz" neste final de semana. Conforme eu esperava, a combinação entre dois temas dos quais eu gosto — o xadrez e a história do período relativo à Segunda Guerra Mundial — associada à fluidez da escrita do texto da autora, Gabriella Saab, fez com que a leitura fosse fluída e prazerosa. Eu só não consegui concluí-la antes porque entre minhas sessões de leitura a vida aconteceu: compromissos, trabalho, etc.
Meu primeiro nome era Maria. Meu nome de guerra era Helena. Meu novo nome é Prisioneira 16671.
O livro acompanha Maria Florkowska, jovem de 14 anos que faz parte da resistência clandestina polonesa na Varsóvia ocupada. Ela acaba capturada pela Gestapo e enviada para o campo de concentração de Auschwitz. Ali, ela encontra Karl Fritzsch, o sub-comandante do campo, uma criatura vil e sádica que, percebendo o talento de Maria para o xadrez, poupa sua vida fazendo com que ela jogue xadrez para sobreviver — e para seu entretenimento particular e o dos soldados do lugar.
Sem saber, ao fazer isso, Fritzsch entrega à Maria, ainda que envolta em um sofrimento inigualável, a receita da qual ela precisa para sobreviver e buscar justiça.
A certa altura do livro uma das detentas do campo declara que em um lugar como Auschwitz, é fácil esquecer que pessoas decentes ainda existem. Mas Maria é uma dessas pessoas, e embora amargue anos ali naquele inferno, ela faz amizade com Hania, uma judia que, como ela, sobrevive à vida que lhe foi imposta graças a seu talento para falar idiomas, o que lhe rende certa liberdade de andar pela prisão e prestar serviços de tradução. Juntas, elas se fortalecem e enfrentam as piores situações.
Uma coisa que me chamou atenção nesse livro foi a capacidade da autora de misturar personagens fictícios com personalidades reais. Fritzsch, o sub-comandante da prisão, existiu na vida real, assim como o religioso padre Maximiliano Kolbe, missionário franciscano polonês que, na vida real, morreu como mártir ao se oferecer para morrer de fome no lugar de outro preso, Franciszek Gajowniczek, depois da fuga de um terceiro prisioneiro. Na ficção, os caminhos de Maria e Kolbe se cruzam, e ele passa a ser uma figura decisiva para despertar e fortalecer na menina a vontade de lutar e sobreviver mais um dia.
O talento de Maria no xadrez é notável, fruto daquilo que o pai, principalmente, lhe ensinou. Mas se a história fosse puramente focada no esporte e nas partidas, a leitura teria sido mais sem-graça. Ao invés disso, a autora traz uma série de pequenas reviravoltas na história que são muito bem-vindas, e que eu não citarei aqui para que você não receba de mim nenhum spoiler, caso decida ler a obra.
Em resumo, eu gostei — e se você, assim como eu, se interessa pelos dois assuntos, então é uma garantia de que você vai gostar do que vai ler.
Deixo, em seguida, algumas passagens que marquei durante a leitura:
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Meu corpo estava faminto, mas minha alma, ainda mais. Faminta de bondade, compaixão, amor, de tudo que eu costumava subestimar. A fome física nunca deixava de me atormentar, mas a fome por afeição humana era uma dor aguda que perfurava as profundezas do meu ser. Um simples gesto foi o suficiente para aliviar a agonia. E neste momento, neste único momento, a fome dentro da minha alma foi saciada.
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A verdadeira liberdade vem da bravura, da força e da bondade. A única pessoa que pode tirar isso de você é você mesma.
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O que é a vida depois da guerra? Retornar às vidas que deixamos é impossível, mas criar uma vida nova parece quase tão intransponível quanto. Vivemos, lutamos e sobrevivemos enquanto as memórias — e o passado — perduram.
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Outra realidade da guerra: aqueles que sobreviveram juntos a ela podem ser forçados a se separar no final. Essa guerra já tinha levado a minha família e eu me recusaria a aceitar outras perdas, a despeito do que o futuro reservasse para mim. Se algo surgir entre nós, encontraremos uma forma de voltar umas para as outras.
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Alguns dizem que a vida que eu tive por quase quatro anos não foi uma vida, mas eu não acredito nisso. Não foi uma vida que eu desejasse para alguém, mas, ainda assim, foi uma vida. Minha vida. E por minha vida valeu a pena lutar.
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