Pular para o conteúdo
Tamanho do texto

Me cansa que tudo hoje exija um app de celular

atualizada em blog

Fiquei sabendo hoje que o clube do qual eu, minha esposa e meus filhos somos sócios implantou um sistema de acesso através de reconhecimento facial. Mais segurança e agilidade no acesso postas de lado, isso significará, para nós, baixar (mais) um aplicativo no celular para fazer o processo de cadastramento.

Felizmente, espero eu, esse será um processo feito uma única vez: baixo o app, sorrio pra foto (e peço pra família fazer o mesmo). Em seguida, provavelmente informo uma miríade de dados pessoais, confirmo, finalmente concluo o cadastro e pronto... acesso através de uma piscadela pra câmera da catraca na entrada.

Logo em seguida, posso apagar o app e nunca mais olhar pra ele.


Coincidentemente, ontem eu li um post do ploum — apelido do desenvolvedor de software livre francês Lionel Dricot, ao qual ele deu o título "I don't have a smartphone...".

Diz ele:

"I don’t have a smartphone," is what I tell people and professionals nowadays. This allows me to cut the crap about companies insisting that I install their app or restaurants wishing that I scan a QR code to access their menu on a small screen.

"I don’t have a smartphone" is, according to my experience, the easiest explanation, the shortest way to force people to get their shit together and take the required actions to allow me to live without being glued to a small screen dependent on a huge American megacorporation.

Eu realmente me senti representado pelo que ele escreveu. O simples ato de pegar meu carro pra levar meu filho ao colégio já me expõe aos convites para baixar apps: a rádio que eu escuto quer que eu baixe o app dela. As lanchonetes e restaurantes que anunciam na rádio, também. Por sinal, já que falei sobre a escola do meu filho, lembrei que semana passada precisei buscar ele mais cedo e a moça da recepção me perguntou se eu já tinha baixado o app da escola, que é onde eu devia preencher o formulário de saída antecipada.

Eu não tinha o app (e nem instalei): preenchi a ficha na hora, pelo tablet que a moça me deu.

Se você vai no shopping, tem o app do shopping. O app do estacionamento do shopping. O app dos grandes magazines, dos supermercados. Se você está em casa, está cada vez mais difícil ficar sem um app específico para uma coisa ou outra: desde lâmpadas inteligentes até controle do ar condicionado, de configurações do roteador e da impressora.

E, exatamente como descrito pelo ploum, os restaurantes são um caso à parte: alguns possuem um app próprio, tal como ocorre em outros comércios, mas o que eles querem mesmo, muitas vezes, é que você use a câmera do seu celular pra escanear um QR code, isso só pra saber o que você vai comer. Aliás, isso já irritou Erick Jacquin em um episódio do programa Pesadelo na Cozinha.

Mesmo que você instale um app desses, quanto tempo por dia você vai usá-lo? 3 minutos? Cinco? Essa avalanche de apps no celular, então, é mesmo necessária e, pior, justificável?


O ploum também fala que, quando alguém pede pra você ler um QR code, ou baixar um aplicativo, assume uma série de coisas como sendo verdadeiras. Só que nem sempre elas são verdade. Pode ser que, por exemplo, que eu não tenha um celular, ou que não esteja com ele naquele exato momento, ou ainda que meu aparelho não esteja funcionando adequadamente.

Se eu estiver com o celular naquela hora, pode acontecer dele estar com pouca bateria, com pouco sinal (ainda mais considerando a excelente (só que não) qualidade da conexão no Brasil), sem créditos de internet no plano, ou sem espaço suficiente pra instalar alguma coisa, incluindo aquele app, naquele momento (eu tenho certeza que você, ou alguém que você conhece, armazena 100% de suas fotos no celular).

Pode ser também que eu não tenha uma conta do Google, ou da Apple para entrar na loja de aplicativos e baixar o app.

Mas há os pontos mais importantes, aqueles que mais me cansam ao observar que praticamente tudo hoje em dia exija um app de celular: pode ser que eu não esteja com vontade de tirar meu celular do bolso justamente naquela hora, muito menos pra dedicar tempo preenchendo dados que certamente me serão solicitados, sobretudo dados pessoais, isso depois que eu aceitar os famigerados termos e condições que vou ter que ler (ou não) em uma tela enorme e cheia de texto, antes.

Conclusão: talvez eu faça como o ploum, e adote a estratégia de dizer que eu não tenho um celular, também, em alguns casos...

Gostar desta nota

Responder

Me escreva em particular, ou responda numa das redes:

Nenhuma nota visível cita esta ainda.

Fontes citadas