Assistimos Coyote vs. Acme
Aproveitamos o feriado de sete de setembro pra assistir "Coyote vs. Acme", muito por insistência minha. Insistência, devo dizer, fundamentada e sustentada, já que, como muita gente que eu conheço, cresci assistindo Looney Tunes, o que significa ter muita familiaridade com Piu-piu e Frajola, Ligeirinho, Pernalonga, Patolino e, é claro, o Coiote e o Papa-Léguas.
Aliás, Papa-Léguas e Coyote ganham de longe quando me perguntam sobre minha preferência pessoal por personagens de desenho dos Looney Tunes. Sempre foi o desenho da franquia com o qual eu dei mais risada. Apenas 42 desenhos dos personagens foram produzidos até o final da década de 1980, que é quando eu os assistia diariamente, no SBT: 24 deles foram dirigidos por Chuck Jones entre 1949 e 1964, outros 16 da época em que os desenhos foram terceirizados para a DePatie-Freleng, entre 1965 e 1966, e dois curtas extras dirigidos por Jones em 1979 e 1980.
Mas é engraçado como funciona cabeça de criança. Pra mim, assistindo a esses episódios em repeat mode durante anos, nunca pareceram apenas 42. Pareciam centenas, milhares de histórias diferentes... e as risadas sempre vinham da mesma forma, exatamente como acontece comigo quando assisto episódio de Chaves (me julguem).
Quando fiquei sabendo que ia ter um filme com o Coyote e o Papa-Léguas, surtei. A injeção de memória afetiva agiu constantemente na minha cabeça. Fui atrás da sinopse:
Desempregado e frustrado, Wile E. Coyote decide processar a Acme Corporation depois de décadas de falhas catastróficas e de ferimentos causados pelos produtos da empresa, sofridos durante os vários anos em que tentou capturar o Papa-Léguas.
Wile se junta a Kevin Avery, advogado especializado em danos pessoais (e em desenhos animados), que atravessa uma fase de má-sorte e a Paige, sua sobrinha e estagiária. Juntos, enfrentam o impiedoso advogado corporativo Buddy Crane, que representa o conglomerado Acme.
Li e pensei"Cara, que premissa legal! O Coiote vai à forra contra a Acme! Eu preciso muito assistir!". Já fui imaginando o filme (que é um live action, que nem as duas versões de Space Jam) lotado de piadas dos desenhos do Coiote e do Papa-Léguas. Pensei também, "Já pensou eles recriarem a cena do tunel pintado na parede?".
E foi com esse espírito que a gente começou a assistir o filme no sábado passado. Infelizmente a piada do túnel não veio, mas a sequência inicial, que mostrou a velha dupla em plena atividade, compensou. A memória afetiva vibrou e eu me preparei pra muito mais.
Mas depois disso, comecei a perceber que minhas expectativas, antes altíssimas, não seriam atendidas. Aquela expressão dos americanos, curb your enthusiasm (controla seu entusiasmo) começou a vir à mente.
Mas deixa eu separar as coisas.
Uma coisa é a qualidade do filme, e por qualidade eu quero dizer a forma como a produção do live action aconteceu. É irretocável. Acho que quanto mais a tecnologia avança, mais fácil é para quem entende do assunto mesclar desenho animado e atores de carne e osso, e isso foi muito bem feito. Então não tenho nada que possa ser dito a esse respeito: há várias sequências excelentes, inclusive uma perseguição que me arrancou algumas risadas, e nada disso seria possível se a tecnologia da animação não estivesse no ponto em que está, eu tenho certeza.
Mas outra coisa é satisfazer a minha criança interior.
Eu adoro seriados ligados ao mundo jurídico. Assisti "Suits", por exemplo, e também o mais obscuro "Harry's Law". Desejo que ambos não tivessem acabado, eram ótimos, só tenho elogios. Mas achei que o desenho, o live action, carregou demais na parte jurídica. Talvez seja apenas impressão, ou chatice minha mesmo, não sei. Mas por mais que me doa admitir isso sobre um filme repleto de personagens que alegraram minha infância, teve uns trechos bem chatinhos.
Talvez eu não devesse ter assistido esse filme esperando dar risada o tempo inteiro, mas, como não esperar isso?
Os roteiristas podiam ter feito mais piadas com os personagens do desenho... sei lá, explorar eles tendo se acidentado, que nem o coiote (o Gaguinho até sofreu um acidente, mas foi só).
O Pernalonga apareceu na tela, e daí eu pensei: "ah, agora vou vir". Então o Patolino apareceu na tela, pensei a mesma coisa. Os dois participaram do filme, mas foram papéis... burocráticos (talvez os roteiristas tenham pensado que papéis burocráticos combinassem com um filme de cunho legal, jurídico, sei lá).
Aviso
Tem uns spoilers leves no próximo parágrafo. Não revelam nada que defina a história, mas se você ainda não viu o filme e quer ver, não exiba as áreas ocultas. Se estiver no feed e seu leitor não suportar spoiler, pule o próximo parágrafo, ok?
Falando do roteiro, eles fizeram algumas escolhas que podiam ter sido exploradas melhor, também para tornar o filme mais engraçado. Por exemplo, o advogado da Acme interpretado pelo John Cena contracena com o Frangolino (eu disse, o Frangolino!) no papel do empresário inescrupuloso que é CEO da Acme. Imagina como ele podia ter protagonizado umas cenas engraçadas... Teve também uma outra coisa, colocar o Piu-Piu como agente da Acme, agindo como capanga de filme de gangster. Fiquei esperando acontecer algo que, igualmente, aprofundasse isso... mas foi só estranho, mesmo. Tudo bem, no fim a gente descobre que ele e outros personagens foram coagido a fazer isso, mas essa foi outra coisa que achei meio forçada. Podiam ter explorado mais e melhor, ainda que o filme todo tivesse cerca de 90 minutos apenas...
Acho que entre mortos e feridos, meu veredito é positivo. Eu classificaria como 7/10 estrelas, menos divertido, pra mim, que os dois "Space Jam". E se alguém me perguntar a respeito, vou responder que nem meu filho respondeu quando eu perguntei se ele tinha gostado do filme.
"É, foi legalzinho."
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