O inferno são os outros
“O inferno são os outros”
— Jean-Paul Sartre, em sua peça “Entre quatro paredes”
Esta é uma frase que já vi sendo muito usada, por muitas pessoas. E eu também já a usei com muitas pessoas. Mas a questão que sempre me ocorre é, será que estou usando a frase corretamente?
Para me ajudar a esclarecer este ponto, resolvi reunir algumas referências para consultas pelo meu eu futuro.
Sobre a peça
A peça [1], escrita por Sartre em 1945, envolve 3 personagens, que discutem como foram parar no inferno — que, diferente do que pode se pensar, não tem fogueiras escaldantes, nem calor infernal, e é, sim, uma sala decorada ao estilo do Segundo Império Francês, em que todos estão condenados a passar a eternidade, se encarando.
Joseph Garcin, jornalista que vivia em um quartel no Rio, e que morreu após se recusar a lutar em uma guerra sem nome. Sua covardia e insensibilidade fizeram com que sua jovem esposa morresse de tristeza após sua execução; Inèz Serrano, lésbica e funcionária dos correios, virou uma esposa contra seu marido, distorcendo a percepção da esposa sobre seu esposo. levando à subsequente morte do homem, que também é seu primo; e Estelle Rigault, mulher da alta sociedade, que se casou com um homem mais velho por dinheiro e teve um caso com um homem mais jovem. Para ela, o caso é apenas uma aventura insignificante, mas seu amante se apega emocionalmente a ela e ela lhe dá um filho. Ela afoga a criança jogando-a da sacada de um hotel no mar, o que leva seu amante a cometer suicídio.
Na peça, faz-se um grande alarido sobre o fato de que há duas coisas faltando no Inferno: pálpebras e espelhos. Bem, a conexão é bem direta — a única maneira de nos vermos no inferno é através dos olhos dos outros. Nosso senso de nós mesmos é sempre já mediado pelo “olhar”.
Interpretações
No vídeo “Hell is Quoting Other People”, Mike Rugnetta, do Idea Channel da PBS, faz uma ótima explicação, da qual conclui que o inferno são os outros porque estamos eternamente sujeitos às impressões que os outros têm de nós; ao que acrescento que cabe a nós mesmos fazer algo para mudar tais impressões, caso discordemos delas — e isso enquanto é tempo, enquanto estamos vivos.
Da revista Super Interessante, com destaque em negrito acrescentado por mim:
Segundo o filósofo, antes de tomar qualquer decisão, não somos nada. Vamos nos moldando a partir das nossas escolhas. Toda essa liberdade resulta em muita angústia. Essa angústia é ainda maior quando percebemos que nossas ações são um espelho para a sociedade. Estamos constantemente pintando um quadro de como deveria ser a sociedade a partir das nossas ações.
Sarah Bakewell, autora de “At The Existentialist Cafe” [2], explica muito bem a fala da peça em seu livro, de acordo com esta resposta, postada em um thread do r/askphilosophy. Eu traduzi livremente o trecho do livro incluído na resposta, para mim, a melhor referência que já encontrei até agora sobre o significado real da frase (aqui, novamente, os destaques em negrito são meus, adicionados após a tradução):
Episódios de olhar competitivo recorrem ao longo da ficção e das biografias de Sartre, o que também ocorre em sua filosofia. Em seu jornalismo, ele se lembra do desagrado, após 1940, de sentir-se avaliado por olhares, como membro de um povo derrotado. Em 1944, ele escreveu uma peça completa sobre isso: Huis clos [...]. Ela retrata três pessoas aprisionadas juntas em um quarto: um desertor militar acusado de covardia, uma lésbica cruel, e uma interesseira sedutora. Cada um deles olha com julgamento para pelo menos um dos outros, e cada um deles anseia escapar dos olhares impiedosos de seus companheiros. Mas eles não podem fazer isso, pois estão mortos e no inferno. Como a última fala da peça, citação extremamente reproduzida e frequentemente mal-interpretada, nos diz: "O inferno são os outros." Sartre mais tarde explicou que ele não quis dizer que as outras pessoas são infernais de maneira geral. Ele quis dizer que **depois de nossa morte, nos tornamos congelados frente à visão que os outros têm de nós, permanentemente incapazes de rechaçar **(ou contrapor) suas interpretações. Enquanto vivos, ainda podemos fazer algo a respeito da impressão que transmitimos; na morte, esta liberdade se vai, e somos deixados enterrados nas memórias e percepções das outras pessoas.
Ao se utilizar da fala ”o inferno são os outros”, a peça de Sartre considera que o outro, na verdade, é fundamental para o conhecimento de si mesmo: o ser humano precisa se relacionar com os outros para construir a sua identidade, e este processo nem sempre é tranqüilo e harmonioso.
Da música “O inferno são os outros”, da banda Titãs, vem esta estrofe:
O problema não é meu
O paraíso é para todos
O problema não sou eu
O inferno são os outros, o inferno são os outros
Notas
[1] O título original da peça é “Huis clos”. Em inglês, recebeu o título “No Exit”, de onde se extrai a frase “Hell is other people”. “Entre quatro paredes”, tradução brasileira, originou a frase “O inferno são os outros”, que discuto nesta página.
[2] Eu talvez venha a ler, futuramente, “At the Existentialist Café”; trata-se de uma obra sobre filosofia e existencialismo, discutindo as vidas de nomes como Kierkegaard, Nietzsche, Dostoevsky e Kafka, e as filosofias de Heidegger, Husserl, Sartre, Beauvoir, Camus, Karl Jaspers e Merleau-Ponty; neste momento, ao menos, no entanto, me parece leitura pesada, para a qual não me sinto ainda preparado.
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