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A história do “deixa que eu deixo”

Esta semana estava me lembrando de uma historinha que ouvi há muito tempo, quando comecei a trabalhar com gestão de processos, e que passei a contar às pessoas, em geral para ilustrar uma das situações mais corriqueiras que existem, o famoso “deixa que eu deixo”.

Trata-se do seguinte:

Havia quatro funcionários que trabalhavam em uma empresa. Seus nomes eram Todo Mundo, Alguém, **Qualquer Um **e Ninguém.

Nesta empresa existia uma tarefa muito importante, que precisava ser executada o mais rapidamente possível. Todo Mundo tinha certeza absoluta de que Algúem executaria a tarefa. Qualquer Um poderia ter executado, mas Ninguém executou. E acontece que Alguém ficou muito aborrecido: Afinal de contas, era obrigação de Todo Mundo.

Todo Mundo pensou que Alguém ia executar a tarefa, mas Ninguém percebeu que Todo Mundo deixaria de executá-la. No final das contas, Todo Mundo acabou culpando Alguém quando Ninguém executou a tarefa que Qualquer Um poderia ter executado.

É triste, mas muito mais comum do que se imagina. E você, tanto quanto tanta gente que você conhece, pode já ter sido vítima desses quatro.

O cavalo de Schilda

Existe uma velha história do folclore alemão que foi recontada por Sigmund Freud ao final de sua palestra “Cinco Lições de Psicanálise“, na Clark University, em Worcester, Massachusetts, no mês de setembro de 1909, que é assim:

A literatura alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as ‘espertezas‘ possíveis. Dizem que possuíam eles um cavalo com cuja força e trabalho estavam satisfeitíssimos. Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diariamente, até acostumá-lo à abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo já estava comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê.

Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum.”

Apesar da história original se referir a psicanálise, gosto de adaptar esta situação que viveram os habitantes de Schilda aos conceitos da melhoria contínua e do kaizen.

Como sabemos, a filosofia e as práticas de kaizen consideram que sempre é possível tornar qualquer atividade melhor, não importando a qual processo de negócios ela pertença. Assim, é extremamente natural — e, sem dúvida, correto — acreditar que nenhum dia deva se passar sem que alguma melhoria tenha sido implantada, por menor que seja.

Agora pensem na força e no trabalho do cavalo que existia em Schilda, e em como seus habitantes estavam satisfeitos com estas características: era a combinação de ambas que os deixava em uma situação muito boa, e, sendo assim, porquê não aplicar melhoria contínua e tornar algo bom ainda melhor, não é mesmo?

Para melhorarem a situação que já possuíam, os habitantes de Schilda pensaram em otimizar um dos elementos do processo, composto, como já disse antes, da força e do trabalho realizados pelo cavalo — mas também composto pela quantidade de ração consumida pelo animal.

Mas vejam, o pobre cavalo acabou morrendo de fome depois de lhe retirarem, grão após grão, toda a ração que comia, mesmo que a ração tenha sido otimizada. Se perguntem agora, então, se o problema a ser resolvido realmente tinha qualquer coisa a ver com otimizar a ração.

Deve-se tomar cuidado com as otimizações a serem feitas.

A otimização da ração, neste caso, não tinha a ver com reduzir as porções oferecidas ao cavalo até que ele morresse. Ao invés disso, os habitantes de Schilda deveriam se perguntar: “o que poderíamos fazer para reduzir o custo da ração que damos ao cavalo e, ainda assim, mantê-lo tão forte, trabalhador, produtivo e alimentado quanto antes?“.

Com um pouco de esforço e de brainstorming, discutindo o problema de fato, eles certamente conseguiriam pensar em uma combinação de ingredientes diferentes para compor a ração oferecida ao cavalo, e, quem sabe, conseguir torná-lo ainda mais produtivo, mesmo que com um custo de ração menor, aí sim verdadeiramente exercendo aquilo que pregam os conceitos de kaizen e de melhoria contínua.

A lição aqui é sempre pensar direito no que será otimizado: Assim como sem certa quantidade de ração não se pode esperar trabalho de animal algum, não se pode esperar que um processo funcione adequadamente sem certa quantidade dos recursos e etapas que naturalmente lhe pertencem.

© 2020 Daniel Santos

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