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A arma de Tchekhov

Anton Tchekhov (1860-1904) foi um dramaturgo e escritor russo que dizia que qualquer objeto apresentado ao público em uma obra de entretenimento deve ser utilizado em algum momento da trama ou descartado para não causar distrações:

Remove everything that has no relevance to the story. If you say in the first chapter that there is a rifle hanging on the wall, in the second or third chapter it absolutely must go off. If it’s not going to be fired, it shouldn’t be hanging there.

Em minha trilogia de filmes favorita, aliás, há um excelente exemplo de arma de Tchekhov: Na segunda parte de “De volta para o futuro”, o hoverboard fica dentro do Delorean depois de ser usado por Marty McFly para derrotar Griff Tannen. No terceiro filme, o mesmo hoverboard acaba sendo essencial não apenas para que Marty resgate Doc Brown e sua namorada Clara de um trem em alta velocidade, mas também para a construção do trem voador, baseado em sua tecnologia.

Aliás, como assisto a muitas séries e filmes e também leio bastante, tive oportunidade de encontrar muitos outros exemplos da arma de Tchekhov em ação: nem sempre é um objeto — pode também ser uma pessoa, um local, uma magia. Mas o fato é que toda vez que percebo algum elemento que pode vir a ser uma arma, já fico desconfiado e, se constato que era isso mesmo, fico bastante satisfeito.

Só que também gosto de pensar que a arma de Tchekhov se encaixa nos contextos da filosofia lean, do storytelling e da analogia do copo com água pela metade, já que para evitar distrações e desperdícios, a criação de histórias enxutas exige pensar muito bem no porquê de apresentar um elemento e em suas causas e efeitos, tanto quanto ao invés de ver o copo meio cheio ou meio vazio deve-se na realidade questionar se o copo tem o tamanho correto.

O segredo de um A3

O segredo de um A3 é que a história nele descrita deve ser curta — e não um romance completo como “Guerra e Paz”, do grande romancista russo Leon Tolstoi.

Escrever uma história curta leva tempo: mas são exatamente as iterações que ajudam a refinar um A3 até sua essência, tornando-o fácil de comunicar.

Há uma famosa citação de Blaise Pascal, aliás, que resume o conceito por detrás de um A3:

“Eu teria escrito uma carta mais curta, mas não tive tempo”

Invista o tempo necessário para refinar a história: use diagramas simples, tópicos e imagens — uma imagem vale mais do que mil palavras.

Finalmente, não caia na armadilha de tentar espremer tanta informação quanto possível em um A3 usando fonte de tamanho 6: torne-o fácil de ler. Menos é mais! Leva-se tempo para coletar nossos pensamentos e contar uma história: a filosofia Lean trata de reduzir desperdícios e o A3 é uma peça chave para ajudar a eliminar desperdício nos processos de gestão.


*Traduzido e adaptado por mim a partir do livro “Toyota by Toyota”, de Darril Wilburn e Samuel Obara, capítulo 12 — “Hoshin Kanri”, página 203.

O avô, o neto e o burro… e as críticas

Certamente, se você vive entre os seres humanos, já deve ter recebido alguma crítica que considerou injusta, ou mesmo maldosa.

Por isso eu resolvi compartilhar esta versão1Tradução e adaptação livres que fiz a partir do texto encontrado aqui em 21/11/2019. da conhecida fábula de Esopo:

O avô e seu neto iam ao mercado para vender seu burro.

Enquanto eles andavam pela estrada, iam a pé ao lado do burro. Então um camponês passou por eles e disse: “Seus tolos, para que mais serve um burro, senão para que se ande por aí em cima dele?”.

Então o avô montou o neto no burro e eles continuaram seu caminho até o mercado. Mas não demorou muito e cruzaram o caminho de um grupo de homens, e um deles disse: “Mas vejam só que menino mais preguiçoso! Deixa seu avô caminhar enquanto ele vai montado no burro!”.

Então o avô mandou que o neto desmontasse do burro e subiu no animal ele mesmo. Só que eles não tinham ido muito mais longe quando avistaram duas mulheres, sendo que quando passaram por elas, uma comentou: “Ora! Que velho mais sem vergonha! Deixando seu pobre netinho a pé, enquanto vai por aí todo folgado, montado nesse burro!”.

Desta vez o avô não soube imediatamente o que fazer. Porém, finalmente resolveu montar o neto à sua frente, e então recomeçaram o caminho para o mercado, os dois montados no burro.

Àquela altura, os três haviam chegado à cidade, e todos os que passavam por eles gesticulavam muito e apontavam os dedos em sua direção. Tanto que o avô parou o burro e perguntou o que tanto tinham visto para apontar-lhes as mãos.

“Vocês dois não tem vergonha de sobrecarregar com tanto peso um pobre burro como esse?”, responderam alguns deles.

O avô e seu neto então desmontaram do burro, e tentaram pra valer pensar no que podiam fazer. Depois de muito tempo tiveram a ideia de cortar uma vara, amarraram as patas do burro nela e ergueram a vara até seus ombros para carregar o animal.

Enquanto andavam, não puderam deixar de perceber as gargalhadas de todos que encontravam. Até que finalmente chegaram até a Ponte do Mercado, onde uma das patas do burro acabou se soltando da amarração na vara, e o animal, livre para tentar dar um coice, fez com que o neto derrubasse seu lado da vara.

Com todo o esforço feito, o pobre burro caiu da ponte dentro do rio e, com suas patas amarradas como estavam, o animal acabou se afogando.

A moral da história? Aquele que tenta agradar a todos, acaba não agradando ninguém.

Seja com a finalidade de seguir seus pares, buscar uma melhoria na carreira ou agir dessa ou daquela maneira, que atire a primeira pedra quem nunca tentou ganhar a aprovação dos outros: como eu disse, se você vive entre os seres humanos, de certa forma implora por aceitação social para se assegurar de que está fazendo a coisa certa.

Só que não importa a decisão que você tome, sempre haverá alguém em algum lugar, com uma opinião a respeito: podem questionar seus motivos, seu raciocínio ou se prenderem em um detalhezinho aqui ou ali. Pode ser até que elevem esse detalhezinho a um patamar fora de proporção!

Se você não estiver pronto para lidar com as críticas, elas vão minar você pouco a pouco. É por isso que precisamos saber como lidar com elas. A seguir, compartilho alguns pontos que podem ajudar, baseados em leituras e aprendizados pessoais:

Filtre o barulho

Separe o que diz alguém que você mal conhece daquilo que dizem as pessoas que são próximas de você, quer no âmbito familiar ou profissional.

Quem não conhece você pode estar fazendo uma crítica porque isso faz com que essa pessoa simplesmente se sinta melhor, ou porque ela simplesmente não entende o que você faz, qual seu trabalho ou objetivo.

Agora, pense que quem conhece e convive com você pode estar querendo te dar um feedback por estar preocupado pelo seu bem estar. Mesmo que o feedback ou a sugestão não seja aplicável, sempre vale a pena ouvir o que a pessoa tem a dizer, pois seus conhecimentos e experiências são valiosas e podem simplesmente trazer boas sacadas.

Pare de levar para o pessoal

Não importa de onde venha, algumas pessoas têm o hábito de levar toda crítica que escutam para o lado pessoal: mesmo que esteja ouvindo só elogios e feedbacks positivos, estas pessoas só precisam de um comentário negativo para ficarem em dúvida.

Pergunte a si mesmo: A pessoa é relevante dentro do contexto do que eu estou tentando fazer? Será que está mesmo preocupada e sabe do que estou fazendo ou é só alguém com uma opinião?

Responda às críticas adequadamente

Existem chances bem grandes de que, se você tentar convencer alguém de que a pessoa está errada, mesmo que mostre as evidências por trás do seu argumento, não vai conseguir nada, exceto cansaço e frustração.

Ao invés disso, agradeça a pessoa por compartilhar sua opinião e peça a ela para explicar seu ponto de vista, se desejar. Ou, se for alguém que não seja familiar, ignore.

Pode não ter a ver com você

Já passou pela sua cabeça que a pessoa que está criticando você pode não estar num dia bom, ou pode estar passando por dificuldades com algum aspecto em que considera que você seja melhor?

Pode até ser que essa pessoa seja uma daquelas que adoram ser do contra simplesmente por gostarem de ser do contra, e até mesmo que tenha te escolhido como alvo para liberar as emoções.

Veja o todo, o cenário mais amplo. Quem sabe vocês conversem um pouco melhor e acabem falando de carreira ou planos futuros, e até se aproximem depois disso.

E mantenha o olho na estrada

Mantenha-se focado na estrada, como o avô e seu neto estavam, no começo da fábula. Assim como eles, vamos encontrar muita gente pelo caminho – alguns te incentivam, outros não dizem nada e outros, ainda, vão tentar te colocar pra baixo.

Só que as pessoas prestam atenção no que você está fazendo só por uma fração de segundo: afinal, precisam continuar seu próprio caminho, e não terão que enfrentar as consequências do que disseram, deixando essa parte toda pra você.

Da próxima vez que estiver indo ao mercado caminhando na estrada, pense se vai querer ouvir todo mundo que estiver passando, ou se vai dar ouvidos apenas àquilo que for razoável e te fizer crescer.

Torne o trabalho de TI visível com Kanban

Este artigo foi publicado originalmente no meu perfil do Linkedin.

Você sabia que o trabalho em um departamento de TI é essencialmente invisível?

Ao contrário do que pode ser encontrado no chão de fábrica — pilhas de produtos não concluídos espalhados pela linha de produção —, as informações e os conhecimentos aplicados na execução das atividades de Tecnologia da Informação para a entrega de projetos estão registrados em documentos sistemas.

É aí que entra o Kanban, técnica trazida para o mundo dos projetos de TI por David Anderson, que em 2003 publicou o livro “Agile Management for Software Engineering — Applying the Theory of Constraints for Software Projects”, onde adaptou os conceitos de sistema puxado ao desenvolvimento de software.

O emprego do Kanban expõe o fluxo de trabalho (ou a falta dele), e ser capaz de enxergar o fluxo é essencial para gerenciar um projeto de software! Afinal, sem um entendimento claro do que uma equipe precisa fazer, a gestão eficiente do seu fluxo de atividades é praticamente impossível.

O desenvolvimento de software com emprego do Kanban envolve a utilização de quatro práticas:

  1. Visualizar o fluxo de trabalho, usando um quadro Kanban para que o time de projeto possa conversar sobre o que efetivamente importa no momento correto, e com isso criar oportunidades de melhoria.
  2. Limitar as atividades em andamento, o trabalho em andamento (WIP), ou seja, aquilo que o time de projeto ainda não concluiu, através de uma técnica que permite avaliar o máximo de trabalho exequível pelo time, por vez.
  3. Gerenciar as atividades efetivamente em andamento, visando evitar o “envelhecimento” dos itens de trabalho e sua conclusão dentro das expectativas de prazo definidas.
  4. Personalizar adaptar uma definição de “*fluxo de trabalho*” que seja compreendida pelos membros da equipe do projeto de software. Com um entendimento mutuo, documentar políticas e indicadores que possam ser usados para melhorar o desempenho do time a cada projeto desenvolvido.

Não é algo fácil de aplicar: o Kanban requer engajamento, disciplina e, sobretudo, patrocínio da direção, mas é uma receita vencedora nos projetos de TI, e certamente pode fazer com que seu departamento contribua mais ativamente para os resultados da empresa.

O modelo ADKAR e o respeito à faixa de pedestres

Este artigo foi publicado originalmente no meu perfil do Linkedin.

Recebi por WhatsApp nesta semana um vídeo muito interessante: trata-se de uma campanha de conscientização idealizada pela Société de l’assurance automobile du Québec (SAAQ), órgão canadense equivalente ao Detran brasileiro para os habitantes da província do Quebec.

O vídeo, publicado pela SAAQ em seu canal do YouTube no último dia 30 de outubro, mostra a dificuldade que os pedestres têm em atravessar a rua utilizando a faixa apropriada para isso.

Acontece que, a exemplo do que ocorre num certo país da América do Sul, os motoristas quebequenses não são exatamente os mais amigáveis e compreensivos, e não param para deixar as pessoas atravessarem – até que são surpreendidos:

A surpresa, inevitável, congela os desavisados. Afinal de contas, ninguém esperaria por isso, não é mesmo? Mas o que efetivamente me chamou a atenção foi exatamente o choque frente a uma situação inusitada.

Às vezes estas situações inusitadas são justamente o que precisamos para provocar um exame de consciência, uma reflexão, que pode, por sua vez, estimular uma mudança de cultura. E eu não pude deixar de associar o pensamento sobre mudança cultural à metodologia ADKAR, cujas etapas também podem ser aplicadas no âmbito pessoal. Vejamos, na prática:

  • O motorista, neste caso, se torna consciente (awareness) de sua situação atual, e assim reconhece que deveria mudar seu comportamento e forma de condução;
  • Em seguida, desenvolve o desejo (desire) de se comportar diferente, normalmente com base em um forte porquê – por exemplo: e se a pessoa que estivesse atravessando a rua fosse um amigo ou familiar dele? Provavelmente ele não gostaria que algo de ruim acontecesse a um semelhante atravessando a rua;
  • Após o despertar do desejo, o motorista se dá conta de que já tem à sua disposição o conhecimento (knowldege) para mudar: sabe as normas de trânsito, sabe o que é certo, apenas talvez tenha se esquecido… e foi lembrado, pela situação, de como deve fazer para agir corretamente;
  • Como sabe o que deve fazer, nosso amigo motorista coloca em prática suas habilidades (ability, ou, para ser justo neste caso, abilities), treinando e se policiando continuamente para que as habilidades se tornem hábitos;
  • Finalmente ele passa a sentir impulsos naturais por reforço do (novo e relembrado) comportamento (reinforcement): conversa com amigos, parentes, conhecidos… e divulga o bom comportamento, a boa prática.

É evidente que está associação que realizei entre a (provável) mudança de cultura dos motoristas do vídeo canadense e o emprego do modelo ADKAR foi meramente ilustrativa – a maioria dos motoristas não se depararia com algo tão inesperado assim.

Ainda assim, minha intenção foi nos fazer pensar sobre nossos hábitos diários, sobre as mudanças, muitas vezes simples, que podemos começar a aplicar. Mesmo que sejamos o tipo de motorista que espera até que os pedestres atravessem a rua, há sempre espaço para mudanças positivas, não é mesmo?

Sobre batatas quentes e desafios

Texto publicado originalmente no meu perfil do Linkedin.

Dinâmicas em grupo não são exatamente as atividades favoritas de muita gente que eu conheço. No entanto, devo reconhecer que, em algumas situações elas não apenas vêm bem a calhar, como também nos trazem algum tipo de ensinamento valioso, e é justamente sobre uma destas ocasiões que eu quero falar.

Participei recentemente de um evento organizado por meu gerente, com a presença de todo o seu time. O evento contou com apoio do RH e, quando todas as atividades propostas foram concluídas, pediram que nos organizássemos para formar um grande círculo.

Uma das moças do RH, então, apresentou um “desafio rápido“: Segurando um pequeno embrulho fechado com fita, como se fosse um presente, explicou que aquilo que segurava em suas mãos era uma “batata quente“. Esta “batata quente” representava um desafio, uma tarefa que exigira de quem a recebesse um certo grau de esforço para execução.

Batata quente!

Não nos foi explicado exatamente que desafio a “batata quente” representava, nem que tarefa precisaria ser realizada na frente de todo o grupo: após colocar uma música para tocar, ela nos pediu que fossemos passando o pacote de uma mão para a outra, até que a música parasse. Neste momento, quem estivesse com a “batata” nas mãos cumpriria o desafio, executando sua tarefa.

A “batata” começou a circular: o clima na sala em que estávamos oscilava entre desconfiança, receio e ansiedade, e nenhum participante estava livre de tais sentimentos. O comportamento geral era ficar com o pacote nas mãos o menor tempo possível, já que ninguém tinha certeza do que esperar como resultado daquilo.

Depois de um tempo a música parou. Um de nossos colegas de time ficou com o pacote nas mãos e, quando tentou argumentar que “não tinha terminado de recebe-lo” ou que “já tinha começado a passa-lo adiante“, de nada adiantou. O clima geral se transformou, transbordando o alívio daqueles que se viram “livres” do desafio.

Eis que, já resignado a cumprir a tal tarefa, nosso colega de repente recebe do RH a oferta de uma escolha: se assim quisesse, ele poderia passar a “batata” para quem estava antes dele, ou para o próximo da fila — uma daquelas situações típicas em que alguém diria “parece que o jogo virou, não é mesmo?“. Ele cogitou aquilo por um momento, em que todos ficaram com a respiração suspensa.

“Não, pode deixar comigo. Eu faço a tarefa. Eu cumpro o desafio” — respondeu, para alívio daqueles que estavam imediatamente antes e depois dele naquele círculo, e para espanto de todos os demais. Imediatamente, começou a desembrulhar o pacote. Dentro do pacote, havia uma caixinha pequena. Sem que ninguém mais visse o conteúdo, declarou: “Este é um desafio que cumpro sem problemas: já pedalei bastante neste final de semana, mas ganhei tudo que perdi no domingo, então não é isso que vai fazer diferença”.

Quando ele mostrou o conteúdo da caixa a todos, vimos que o desafio era um bombom.

tarefa era comê-lo.

Se considerarmos o número de vezes nesta vida em que nos deparamos com desafios –impostos por nós mesmos, ou, mais frequentemente, apresentados por outras pessoas ou situações –, o ideal é sempre encará-los com naturalidade.

Em minha carreira me deparei com muitos desafios que inicialmente fizeram com que eu me sentisse pouco corajoso; mas foi justamente quando olhei uma segunda vez, quando vi não apenas o desafio em si, mas as oportunidades de aprendizagem que o acompanhavam, que eu mais cresci profissionalmente.

A história da “batata quente” não levou mais do que 2 ou 3 minutos para acontecer, mas eis aqui o ensinamento valioso que dela tirei: mesmo quando nos sentimos receosos diante de situações que nos tiram da zona de conforto, que representam mudança, perigo ou até mesmo vergonha para nós mesmos, devemos ter em mente que nem sempre encarar um desafio é algo ruim: por vezes você descobrirá seus próprios bombons ocultos, que lhe trarão satisfação, alegria e realização pessoal e profissional enquanto os degusta.

© 2020 Daniel Santos

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