O Paradoxo de Stockdale

James Stockdale

Um colega de trabalho me apresentou hoje ao Paradoxo de Stockdale. Estávamos discutindo sobre as chances de um dado projeto que temos em mente para a empresa ser aprovado ou não por nosso departamento financeiro para execução ao longo do ano que vem, e ele citou a história, que, no final das contas se aplica não apenas aos ambientes corporativos, mas também à nossa vida pessoal.

termo paradoxo de Stockdale foi citado no livro Good to Great: Why Some Companies Make the Leap and Others Don’t, escrito por Jim Collins. A obra retrata a pesquisa que o autor e sua equipe fizeram ao longo de cinco anos tentando identificar os principais fatores que separam as boas empresas — ou aquelas que se tornaram brevemente grandiosas das empresas que conseguiram não apenas alcançar, mas também sustentar a excelência por 15 anos consecutivos ou mais.

O paradoxo se refere ao Almirante James “Jim” Stockdale, oficial militar de mais alta patente a permanecer recluso na prisão de Hoa Lo, instalação utilizada para manter os prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra do Vietnã. Stockdale foi torturado mais de 20 vezes durante os 8 anos que passou aprisionado, entre 1965 e 1973, não tendo direito a qualquer regalia supostamente oferecida a outros prisioneiros, não sabendo qual seria sua data de soltura daquela instalação ou se ele de fato sobreviveria para ver sua família novamente.

A situação crítica a que Stockdale estava submetido foi exatamente o ponto a que meu colega de trabalho se referiu. No capítulo 4 de Good to Great, o autor Jim Collins relata sua ansiedade ao se ver diante da chance de passar uma parte de uma tarde ao lado de Stockdale, após convite do próprio para almoçarem juntos, uma vez que se descobriram colegas de pesquisa na Hoover Institution da Universidade de Stanford e que um dos alunos de Collins tinha escrito sua tese sobre Stockdale. Para se preparar para o encontro, Collins leu In Love and War, relato sobre o que Stockdale viveu, escrito em conjunto com sua esposa, e se sentiu deprimido com o que o oficial passou, mesmo sabendo que ele mais tarde escaparia e se salvaria, para contar sua história. Quando Collins perguntou a Stockdale como ele próprio aguentou passar por aquilo, recebeu como resposta, em tradução livre feita por mim:

 Nunca perdi a fé no final da história ,” ele disse, quando lhe fiz a pergunta. “ Nunca duvidei de que não apenas eu sairia [da prisão] mas também de que eu prevaleceria no final e transformaria toda aquela experiência no evento que definiria a minha vida , o que, olhando para trás, eu não trocaria por nada.”

Eis o que meu colega de trabalho me perguntou quando mencionou o paradoxo de Stockdale: “Passando pelo que esse cara passou, por tanto tempo, quem você acha que não conseguiu sobreviver? Os prisioneiros otimistas ou os pessimistas?”. Eu confesso que errei a resposta. E Jim Collins ficou igualmente perplexo quando recebeu a resposta do próprio Stockdale:

“Quem não conseguiu sobreviver?”
“Ah, isso é fácil,” ele disse. “Os otimistas.”
“Os otimistas? Eu não entendo,” respondi, agora completamente confuso, dado o que ele havia dito [antes].

Segundo Stockdale, os otimistas se deram mal porquê eram eles quem ficavam dizendo coisas como “Nós vamos sair até o Natal“. Aí eis que chegava o Natal, e o Natal ia embora, e nada desses prisioneiros otimistas saírem da prisão. Mas eternos otimistas, eles diriam “Nós vamos sair até a Páscoa“, mas a Páscoa chegaria e iria embora sem que ninguém saísse de lá. Depois o Dia de Ação de Graças, e depois o Natal, de novo. E esses caras, muito otimistas, morreriam deprimidos.

A questão aqui, a meu ver, é de resiliência: Recobrar-se facilmente ou adaptar-se à quaisquer intempéries ou mudanças: Stockdale fez o que pôde para ajudar o maior número de prisioneiros que dividiam aquele dia-a-dia com ele a saírem de lá ilesos, criando um sistema de comunicação por batidas que eles podiam usar durante o silêncio obrigatório durante a noite, inflingindo a si próprio diversas torturas e desfigurações, para evitar que seus captores pudessem usar sua imagem como propaganda militar, escreveu cartas para sua esposa ocultando nas entrelinhas diversos segredos de estado, entre outras coisas. Na prática, com os diversos limões que a vida lhe apresentou, tomou o máximo de limonada que pôde.

Reprodução do livro “Good to Great”, capítulo 4

Assim, a grande lição deste paradoxo é que nunca devemos deixar de ser otimistas, até porquê otimismo é muito bom.  Mas, nosso otimismo tem que ser realista . Nunca devemos confundir a fé na vitória, no final, com a disciplina de enfrentar a realidade atual, ainda que ela possa parecer muito dura. Na prática, haverão algumas vezes na vida em que nós simplesmente não vamos sair quando o Natal chegar, e vamos ter que viver com isso.