Daniel Santos

A história secreta do primeiro gato no espaço

Das ruas de Paris, essa gatinha de smoking apelidada de “Atrocat” alcançaria alturas jamais galgadas pela espécie felina. Em 24 de outubro de 1963, Félicette subiu 210 quilômetros acima da Terra no foguete francês Véronique AG1, voando alto no deserto do saara argelino. Ela voltou quinze minutos depois, já condecorada como heroína de sua nação.

Infelizmente, a história de Félicette se perdeu nas areias do tempo; uma vítima da nossa sociedade cãotriarcal que favorece as conquistas dos cachorros acima das outras. Mas o lugar da França na corrida espacial, ou a falta dele, pode explicar esse esquecimento.

Esqueceu de carregar o celular? Este carregador lembra você!

No mundo atual, em que já não consigo pensar em pessoas que não carreguem consigo seus celulares, certamente já aconteceu com você: sair de casa com 5% ou 10% de bateria, só para descobrir depois, enquanto está no meio da rua a caminho de algum lugar, que está incomunicável, e que muito provavelmente vai acabar ficando assim por algumas horas depois que a bateria do seu aparelho morrer.

Se você já passou por isso, vai gostar de saber que a Griffin Technology desenvolveu — e apresentou na CES (Consumer Electronics Show) deste ano — uma família de carregadores para celular que é capaz de avisar ao usuário quando estiver na hora de carregar o celular, enviando alertas. De acordo com a matéria que li, a empresa desenvolveu dois carregadores, o PowerBlock Beacon, para uso nas tomadas de nossas casas, e o PowerJolt Beacon, criado para permitir a carga de aparelhos em nossos carros.

PowerBlock Beacon contará com duas portas USB, iluminação própria e conexão bluetooth, o que permitirá ao dispositivo se conectar com qualquer aparelho móvel executando iOS ou Android, e, a partir de um app desenvolvido pela empresa, enviar notificações para os usuários sempre que o percentual de bateria restante atingir um valor limite especificado pelo usuário.

De acordo com a nota de imprensa da Griffin Technology, novidade deverá chegar ao mercado em meados de abril de 2017, vendida por cerca de 40 dólares. Não é exatamente um gênero de primeira necessidade, convenhamos — mas se alguém aí estiver disposto a me dar um de presente, aceito sem problemas.

Como você sobe uma escada rolante?

A primeira escada rolante do mundo foi criada, pelo inventor norteamericano Jesse Reno, em setembro de 1895, idealizada para ser um brinquedo de um parque de diverões de Nova Iorque, localizado em Old Iron Pier, Coney Island: tinha uma inclinação vertical de 2,1 metros e inclinação de 25 graus, e os visitantes do parque sentavam-se em placas de metal presas a um cinto móvel que alcançava a velocidade de 22,8 metros por minuto.

A primeira escada rolante do mundo

Parece incrível, mas cerca de 75.000 visitantes deram uma volta no “elevador vertical” durante o período de 15 dias em que ficou instalado no local! Entendo que seja o equivalente a uma atração de parque de diversões moderna, guardadas, evidentemente, as devidas proporções.

Mas… como subir uma escada rolante?

Tudo bem. Este pode ser um assunto polêmico, daqueles que geram horas de debates.

Para mim, o melhor é seguir uma regra de etiqueta.

Na Holanda, a ProRail, empresa governamental que cuida da manutenção da malha ferroviária do país, afixou adesivos em diversas escadas rolantes com os dizeres “links gaan, rechts staan“, algo como “ande na esquerda, pare na direita“.

Não vejo pessoas obedecerem esta máxima aqui no Brasil. Aliás, muito pelo contrário: Quase 100% das pessoas param nos degraus das escadas rolantes de qualquer um dos lados até terminarem a viagem, e eu, por mais que entenda e respeite se tratar de uma opinião pessoal e subjetiva, acho isso lamentável.

Isso porquê, além de manter “a paz e a ordem” em lugares movimentados, esta regra de etiqueta que também é seguida em países como Austrália Inglaterra, desimpede o caminho para as pessoas que queiram chegar mais rapidamente a seus destinos — pense, por exemplo, como isso pode te beneficiar a próxima vez que estiver atrasado para pegar seu trem, para chegar ao portão de embarque em um aeroporto, ou para sair do estacionamento de um shopping movimentado antes de ter que pagar a mais pelo ticket.

Admita: Faz sentido, não é mesmo?

 

Na Espanha, Papai Noel não é páreo para os Reis Magos

Gosto de ouvir a rádio espanhola Cadena Ser pelo TuneIn Radio, como parte de meus esforços para aprender espanhol: Ela é muito parecida com a Jovem Pan AM de São Paulo, com um ótimo e diversificado conteúdo jornalístico.

Ontem, véspera do Dia de Reis de 2017, os jornalistas da rádio comentavam sobre a tradição espanhola — e de alguns outros países — de encenar Los Reyes Magos.

Sinceramente, nunca tinha ouvido falar em comemorar a Noite de Reis — prova de que isso não é parte da tradição dos brasileiros: Para mim, o Dia de Reis é que é lembrado e, honestamente, muitas vezes apenas como o dia em que desmontamos as decorações natalinas.

Depois de ouvir as notícias, acabei procurando um pouco, e encontrando um texto que explica esta tradição:

La tradición más querida entre los niños durante las Navidades en España son Los Reyes Magos. Santa Claus es muy conocido por dar regalos, pero las estrellas en España son Los Reyes. Son aquellos que siguieron una estrella para conocer al Rey de Reyes (el niño Jesús) y ofrecerle tres presentes: oro, incienso, y mirra al recién nacido en Belén.

Cuando llega diciembre, todos los niños de España y Latinoamérica empiezan a escribir sus cartas a los Reyes Magos o a su Rey favorito: Gaspar, Melchor o Baltasar. Les piden las cosas que les gustaría recibir la mañana del 6 de enero (día en que se reparten los regalos) y también cuentan su comportamiento durante el año. Si los niños han sido buenos, reciben regalos, pero si han sido malos reciben un trozo de carbón.

Sus Majestades viajan en camellos y debido a esto cuando vienen del este, tardan en llegar a España. Una vez aquí, visitan todas las ciudades y pueblos, y escuchan las peticiones de los niños, después de la Cabalgata. En la noche del día 5, los niños ponen sus zapatos en la puerta antes de ir a dormir, así los Reyes saben cuantos niños viven allí. También ponen algo para que los Reyes coman y beban, así como agua y hierba para los camellos (es verdad, pueden pasar un mes o más sin beber agua, pero esa noche tienen mucho que hacer, así que necesitan un extra).

La mañana del 6 de enero, Día de Reyes, los niños encuentran sus regalos dentro y fuera de sus zapatos (no es habitual que sus Majestades dejen carbón, porque ningún niño se porta tan mal, y mucha gente dice que no es verdad que los niños traviesos reciban sólo carbón. La comida y la bebida de los platos ha desaparecido. Los niños comienzan a jugar, y a esperar a que el próximo 5 de enero vuelva.

O que achei interessantíssimo foi o fato das crianças espanholas entenderem que os Reis Magos são os heróis da vez, pedindo a eles os brinquedos que desejam ganhar. E também como outros pontos — pendurar sapatinhos na lareira ou deixar comida para o bom velhinho, e até mesmo a história de presentear com carvão as crianças mal comportadas — normalmente associados a Papai Noel são característica destes personagens mencionados na Bíblia.

Parece que Papai Noel não é mesmo páreo para Baltazar, Melchior e Gaspar.

Na China fala-se inglês melhor do que no Brasil!

Hoje me deparei com uma pergunta no Quora sobre as áreas do mundo em que o conhecimento de inglês é mais inútil.

Embora esta seja uma pergunta cuja resposta é extremamente subjetiva, devo dizer que sempre ouvi falar de lugares em que falar inglês realmente não te ajuda em muita coisa, notadamente a França, que já tive a oportunidade de visitar por duas vezes e onde, efetivamente, entendo que o inglês não é muito útil, a menos que você esteja em aeroportos ou grandes centros como a capital, Paris. Além disso, embora eu nunca tenha estado em países como a China, amigos que conheço me contam que o inglês por lá é muito, muito, muito ruim.

Mas é aí que a coisa fica interessante: Uma das respostas à pergunta no site do Quora cita o EF EPI, ou English Proficiency Index, indíce que busca classificar os países do mundo conforme o nível médio de habilidade no idioma inglês entre suas populações adultas. O índice é uma criação da EF Education First, e seus resultados têm como base dados coletados a partir de testes de inglês disponíveis gratuitamente na internet. Eu fiz um teste destes, em 15 minutos, por curiosidade, e falo sobre isso logo mais.

Minhas ideias estavam erradas!

Obviamente, fui verificar o relatório EF EPI de 2016. Este ano foi o sexto em que a publicação de resultados ocorreu, levando em conta 950.000 testes realizados em 2015. Ao todo, 69 países e 3 territórios compuseram as classificações, sendo que pelo menos 400 provas tinham que ser feitas por país para que este entrasse na conta.

Aprendi que o relatório classifica os países em faixas de proficiência, que, segundo consta no documento, servem para exemplificar tarefas cujos habitantes em média conseguem realizar com facilidade. Existem 5 faixas no total:

PROFICIÊNCIA MUITO ALTA
Usar linguagem diferenciada e apropriada em situações sociais
Ler textos complexos com facilidade
Negociar um contrato com um falante nativo do inglês
PROFICIÊNCIA ALTA
Fazer uma apresentação no trabalho
Compreender programas de TV
Ler um jornal
PROFICIÊNCIA MODERADA
Participar de reuniões em uma área de especialização
Entender letras de músicas
Escrever e-mails profissionais sobre assuntos conhecidos
PROFICIÊNCIA BAIXA
Navegar em um país de língua inglesa como turista
Envolver-se em conversas com colegas
Entender e-mails simples de colegas
PROFICIÊNCIA MUITO BAIXA
Apresentar-se com simplicidade (nome, idade, país de origem)
Compreender sinais simples
Dar instruções básicas para um visitante estrangeiro

A média mundial do índice foi, em 2016, de 52,74 pontos.

O Brasil está na quadragésima posição dentre os 72 participantes, com nota total 50,66 e classificação considerada de proficiência baixa. Em relação à comparação com a América Latina, estamos apenas na quinta posição. A Argentina é a líder e, pasmem, a República Dominicana vem em segundo!

Logo constatei que minhas ideias estavam erradas:

  • França, mesmo com minhas impressões pessoais dizendo o contrário , ocupa uma excelente vigésima nona posição geral, embora, na Europa, esteja na vigésima segunda de um total de 26 países que constaram do relatório;
  • A China foi quem me surpreendeu. Nossos amigos orientais estão uma posição na nossa frente, com nota 50,94! Isso significa que, na média, eles falam melhor do que nós… ligeiramente, mas ainda assim, melhor.

Voltando a falar do Brasil, o relatório também mostra a situação dentro do país. Neste caso, o Distrito Federal lidera, e São Paulo está na terceira posição.

A curiosidade matou o gato

Já dizia isso aquele velho ditado, não é mesmo?

Eis que ao investigar o site da EF para obter informações para este texto que escrevo, me dei conta de que eles oferecem mecanismos para testar o inglês na hora. E é claro que eu não podia deixar de fazer um teste desses…

Apesar do esquemão de prova, com contagem regressiva dos 15 minutos e tudo mais, as questões compreendem vocabulário e listening comprehension. Em ambos os casos tratam-se de itens com múltipla escolha.

Depois de decorrido o teste, que completei com cerca de 4’30” de folga, obtive a classificação que esperava, dado que fui professor de inglês:

O que achei interessante, no final das contas, é que, posteriormente, estes resultados farão parte das estatísticas que irão compor a edição 2017 do índice de proficiência. Assim, matei dois coelhos com uma única cajadada: Contribuí para a pesquisa e consegui acrescentar meus resultados ao Linked in, a partir de sugestão e link automático dentro do próprio site da EF, o que, não posso deixar de dizer, é muito legal.

Aprenda um idioma lendo o que você mais gosta

Recentemente estabeleci como meta pessoal que ia começar a aprender espanhol. Não há nenhum motivo específico para isso, a não ser minha própria vontade de tornar o idioma ibérico uma companhia para o inglês, o qual falo fluentemente, e para o francês, em que eu possuo nível básico de compreensão.

Embora, na minha opinião, um idioma se aprenda principalmente através de fortes estudos ligados à gramática, incluindo-se ai, portanto, verbos, adjetivos, conjunções, pronomes e afins, considero o acúmulo de vocabulário outra parte fundamental do aprendizado.

Eis que, justamente em busca de materiais, áudios e textos que pudessem me ajudar a aumentar o vocabulário, acabei sem querer encontrando um serviço chamado Readlang, que me espantou por sua simplicidade e elegância.

Conforme definido por seu próprio criador, Steve Ridout, eis o que ele faz:

Readlang helps you learn a language by reading. It lets you:

  • Read any native content. Browser extensions allow reading or importing of almost any website. Copy and paste or file upload enables you to read almost any digital text you can get your hands on, even entire novels.
  • Rapidly translate the words and phrases you don’t know. Unlike some other websites which are full of clutter and adverts, the reading interface in Readlang is designed to be as clean and distraction free as possible. The click or swipe to translate interface is designed for you to comprehend quickly and unobtrusively, allowing you to immerse yourself in the story as much as possible.
  • Learn words in context using flashcards. From all the words and phrases you translate, Readlang picks the most useful words for you to practise based on word frequency lists. As you practise, Readlang schedules words using a spaced repetition algorithm.

A partir da página principal, você pode clicar o botão Start Learning e ir direto para o dashboard do Readlang. Ali, a primeira coisa que você deve fazer é selecionar um par de idiomas (eu sei eu estou aprendendo), como na figura abaixo:

Com sua seleção realizada, serão apresentados os textos mais populares para os que estão aprendendo o idioma desejado. Estes textos são enviados pela própria comunidade de usuários — mais de 92 mil deles, enquanto escrevo este texto.

Os textos têm sua classificação realizada automaticamente em relação ao nível de dificuldade, variando entre A1 (iniciante) e C2 (mestre) e, uma vez enviados, podem ou não ser compartilhados com a comunidade, ou seja, você pode decidir por manter algo particular para seus estudos, o que vem bem a calhar, dado que além de arquivos texto simples, você também pode enviar seus livros comprados em formato EPUB para a nuvem, desde que sejam DRM-free.

O nível dos textos que você deseja visualizar pode ser escolhido através de um seletor. Outra opção que pode ser definida é o número máximo de palavras que você deseja ler. Abaixo, como exemplo, seleciono textos com dificuldades que variam entre A2 e C1, mas não estabeleço nenhum limite para o número de palavras:

Assim que você seleciona um texto, o Readlang leva você para uma interface muito limpa, parecida com a que vemos em serviços como o Instapaper, para a qual é possível definir tamanho do texto, fonte, separação ou não das sílabas e temas. Adicionalmente, você pode paginar o texto, usando as setas nas extremidades da tela apresentada.

Ali, o texto é apresentado sem formatações, e qualquer palavra em que você clique é automaticamente traduzida e apresentada acima da original, sendo que o mesmo processo pode acontecer com frases, bastando para isso que você clique e arraste o mouse por cima das palavras em uma frase.

Estes recursos não ficam disponíveis apenas dentro do Readlang. Você também pode instalar uma extensão para Google Chrome, que adicionará um pequeno ícone na lateral direita superior do navegador, de onde se pode ativar a seleção e tradução instantânea de texto. E se você, assim como eu, está sempre no celular, outra opção é usar um bookmarklet.

Qualquer que seja o caso, o funcionamento do Readlang é impecável, como no caso deste exemplo em que capturei uma reportagem da BBC em Espanhol:

Seja através da utilização da interface interna do Readlang, seja através de sua extensão para navegadores, todos os textos lidos vão parar em sua biblioteca, que nada mais é do que uma lista de textos e palavras marcadas por você, que pode ser acessada quantas vezes você desejar, inclusive para ouvi-las.

Além disso, assim que a leitura de um texto é concluída, as palavras armazenadas podem ser acessadas para treino de vocabulário, através do uso de flashcards e de repetições espaçadas. Os flashcards têm um papel importante, pois é a partir deles que podemos realizar cloze tests, avaliações que definem nosso nível de aprendizado e retenção.

O que é mais interessante é que todos os recursos citados não estão limitados apenas ao espanhol, que resolvi começar a aprender: além dele posso escolher entre mais 45 línguas diferentes sendo que, para cada uma delas que selecionar, o número de textos, palavras traduzidas e flashcards será diferente.

A maior parte dos recursos do serviço é gratuita, e você pode escolher pagar mensalmente ou anualmente para liberar algumas funcionalidades adicionais. Tanto a versão gratuita quanto a paga permitem a tradução de um número ilimitado de palavras únicas,  mas, no caso de frases, a versão gratuita permite que apenas 10 delas sejam traduzidas por dia — o Readlang entende como “frase” qualquer seleção com mais de uma palavra, e, além disso, limita o tamanho das frases a 6 palavras em sequência.

Ao pagar pelo serviço, mensal ou anualmente, o número de frases diárias passa a ser ilimitado e o limite da sequencia aumenta para 12 palavras: É mais do que suficiente em 99% dos casos, em minha opinião — o autor, inclusive, menciona em seu blog que não aumenta este número porquê o Readlang não é um tradutor de texto completo, e também para manter os gastos com o Google Translate sob controle.

Pagar pelo serviço também permite que você ouça as palavras enquanto clica em cada uma delas, através da interface do Google Tradutor. Na prática, é como no título que dei a este texto: posso aprender um idioma — ou, como se vê, vários idiomas, apenas lendo aquilo que eu mais gosto.

A menina russa de 4 anos que fala 7 idiomas

Neste vídeo que se tornou viral na internet, a menina Bella Devyatkina, de Moscou, de apenas 4 anos de idade, demonstrou suas habilidades durante o programa “Amazing People”, exibido na  televisão russa em outubro de 2016. Ela fala fluentemente inglês, espanho, chinês, russo, francês, alemão e árabe.

O espaço cheira a bife queimado!

E a muitas outras coisas, aparentemente. E é tudo culpa dos próprios seres humanos.

When astronauts return from space walks and remove their helmets, they are welcomed back with a peculiar smell. An odor that is distinct and weird: something, astronauts have described it, like “seared steak.” And also: “hot metal.” And also: “welding fumes.”

O cavalo de Schilda

Existe uma velha história do folclore alemão que foi recontada por Sigmund Freud ao final de sua palestra “Cinco Lições de Psicanálise“,  na Clark University, em Worcester, Massachusetts, no mês de setembro de 1909, que é assim:

“A literatura alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as ‘espertezas‘ possíveis. Dizem que possuíam eles um cavalo com cuja força e trabalho estavam satisfeitíssimos. Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diariamente, até acostumá-lo à abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo já estava comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê.

Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum.”

 

Eu, apesar de nada entender a respeito de psicanálise, gosto muito de fazer uma analogia desta situação que viveram os habitantes da fictícia cidade de Schilda, tão “espertos”, mas na verdade fazendo as coisas das maneiras mais irracionais possíveis, com melhorias “burras” em processos de negócio nas empresas.

Explico.

Para que melhorias em processos possam gerar o que as empresas esperam, ou seja, mais produtividade, mais velocidade, melhor qualidade desempenho e maior lucratividade satisfação dos clientes, devem ser bem pensadas.

Problemas devem ter causas raiz bem definidas para que os esforços de melhoria sejam feitos nos momentos e pontos corretos, e isso leva um tempo razoável, com levantamentos de dados e análises, que nem todo mundo, em todas as empresas, está disposto a esperar.

Isso leva algumas delas a pegar atalhos. Um fenômeno muito comum, assim, acaba sendo assumir de imediato que já se sabe exatamente o que precisa ser feito: reduzir as rações de aveia periodicamente, esperando, ainda assim, que a força de trabalho renda tanto quanto antes, e que entregas e níveis de serviço não apenas se mantenham, mas melhorem.

Esta conta, é claro, não fecha, e o cavalo acaba morrendo.

 

Quantas pessoas no mundo todo já voaram de avião alguma vez na vida?

Ah, voar.

A primeira vez em que pisei num avião foi já crescido, em julho de 1997, quando peguei um vôo rumo a Salvador, na Bahia. Passados todos estes anos, confesso que nunca deixei de adorar a sensação de estar no ar, eu não vou mentir.

ICAO (International Civil Aviation Organization), agência das Nações Unidas especializada em aviação, reportava, em notícia de dezembro de 2015, o crescimento do tráfego aéreo em termos de número de passageiros transportados em vôos agendados ou comerciais, chegando a 3,5 bilhões de passageiros transportados, um aumento de 6,4% em relação a 2014. Um dado interessante: A América do Sul apresentou o segundo maior crescimento percentual, em relação às regiões de todo o mundo, com aumento de 7,9%, como mostra o gráfico a seguir:

Crescimento % do tráfego de passageiros em vôos comerciais ou agendados, em 2015 (fonte: ICAO)

A questão é que ainda que o número de 3,5 bilhões de passageiros transportados durante 2015 seja praticamente metade dos aproximadamente 7,4 bilhões de habitantes do mundo enquanto escrevo este texto, não dá pra assumir que 1 em cada 2 seres humanos já pisou num avião, mesmo que em 2015 existissem cerca de 1400 companhias aéreas e 4.130 aeroportos.

Dado que não existe nenhuma base de dados oficial que registre o número de passageiros diferentes que já voaram alguma vez na vida, e que uma pessoa, se pegar mais de um vôo por dia — como é comum em alguns casos e algumas profissões, entra para esta estatística tantas vezes quantos forem suas viagens de avião, é muito complicado responder à pergunta que fiz no título deste texto.

Mas afinal… quantas pessoas no mundo todo já voaram de avião alguma vez na vida?

Estima-se que apenas 5% da população mundial.

Fazendo as devidas contas e levando em conta os 7,4 bilhões de habitantes, isso é aproximadamente 370 milhões de pessoas. Para efeitos de comparação, considere que a população do Brasil é de aproximadamente 210 milhões de habitantes, enquanto escrevo.

É pouco, não é mesmo? Vejam: Poder voar é tão legal que nunca parei pra pensar nisso. E quanto penso, vejo que, ao menos sob certa perspectiva, a chance de voar em um avião, guardadas as devidas proporções, é como, para muita gente, a chance de ir ao cinema pela primeira vez, ou a chance de conhecer o mar.

Já vista sob outra perspectiva, a razão pela qual as pessoas não aproveitam o que chamei de chance de voar se resume em 3 palavras: motivomeio oportunidade.

Muita gente em todo o mundo não tem razão nenhuma para embarcar em um avião e voar pra qualquer lugar que seja. Um outro motivo para que as pessoas não voem é que há muita gente, realmente, sem condição financeira para fazer isso — e, falando francamente, a julgar pelo preço das passagens aéreas no Brasil ultimamente, cada vez menos gente tem condição de voar.

Já outras pessoas estão em regiões mal servidas em termos de aviação comercial. Se considerarmos a África, por exemplo, um continente formado por 54 países, com cerca de 1,1 bilhão de habitantes, veremos que a aviação comercial do continente é um mercado inexplorado: As 230 companhias aéreas presentes no espaço aéreo africano operam apenas 5,5% da frota mundial de aeronaves comerciais e de carga. Além disso, muitas regiões africanas são carentes em relação a serviços e instalações consideradas vitais para vôos seguros, como radares, cobertura de telecomunicações e até mesmo pistas iluminadas e instrumentação. Assim, embora vôos diários aconteçam na África todos os dias, são usadas aeronaves pequenas, que nem sequer entram na estatística básica da ICAO sobre o número de passageiros transportados anualmente, que mencionei antes.

No final das contas, a questão dos 5% é, na melhor das hipóteses, uma aproximação. Assim como expus estes dados para seguir pela linha de motivos, meios e oportunidades, existem outras inúmeras variáveis que poderiam ser levadas em consideração, inclusive em fatias de mercado específicas. Assim, embora a resposta esteja aí, é como se ela, também, não estivesse.

A história do “Deixa que eu deixo”

Esta semana estava me lembrando de uma historinha que ouvi há muito tempo, quando comecei a trabalhar com gestão de processos, e que passei a contar às pessoas, em geral para ilustrar uma das situações mais corriqueiras que existem, o famoso “deixa que eu deixo”.

Trata-se do seguinte:

Havia quatro funcionários que trabalhavam em uma empresa. Seus nomes eram Todo MundoAlguémQualquer Um Ninguém.

Nesta empresa existia uma tarefa muito importante, que precisava ser executada o mais rapidamente possível. Todo Mundo tinha certeza absoluta de que Algúem executaria a tarefa. Qualquer Um poderia ter executado, mas Ninguém executou. E acontece que Alguém ficou muito aborrecido: Afinal de contas, era obrigação de Todo Mundo.

Todo Mundo pensou que Alguém ia executar a tarefa, mas Ninguém percebeu que Todo Mundo deixaria de executá-la. No final das contas, Todo Mundo acabou culpando Alguém quando Ninguém executou a tarefa que Qualquer Um poderia ter executado.

É triste, mas muito mais comum do que se imagina. E você pode já ter sido vítima desses quatro.