Nexus One no Brasil
Alguns podem achar, pela quantidade de comentários que eu tenho feito com relação ao Nexus One recentemente, que eu posso estar me entusiasmando além da conta — afinal, será que ele tem cacife para suceder ou competir a altura com o iPhone? Bom… Não vai dar pra saber, até colocar as mãos em um deles por conta própria.
Felizmente para mim e outros curiosos, segundo Alexandre Hohagen, diret or-geral do Google para a América Latina, o aparelho deve aterrissar em terras nacionais a partir do segundo semestre deste ano, estando disponível tanto em versão vinculada às operadoras, quanto desbloqueado. O motivo de ele não ter sido lançado por aqui logo em janeiro, aliás, foi o preço elevado dos planos de dados das operadoras brasileiras.
Enquanto ele não vem, segue uma propaganda do aparelho. Para mim, a quantidade de funcionalidades ainda prova o porquê pelo menos um pouco de entusiasmo deve ser sentido na espera pelo superphone, como está sendo chamado por seus criadores:
(via @GoogleDiscovery)
#choramaradona: Duas vezes seguidas!!
¿Cuánta responsabilidad tiene Maradona? Muchísima. Ya cometió todos los errores que puede cometer un DT. Desde pifiar la estrategia hasta desmotivar jugadores con sus banquinazos (Otamendi, Burdisso, titulares o ni al banco), errar cambios (¿para qué sacó a Dátolo si había que tirar centros al área? ¿Para agregar barullo con Lavezzi?) y ensoberbecerse hasta desviar culpas hacia el periodismo. [via]
E enquanto promovo o #choramaradona, não poderia deixar de falar, é claro, do show de Nilmar ontem, em meio à torcida baiana: Não demos mole pro Chile, que vai ter que conquistar sua classificação em outras paragens…
Chega de Telemarketing!
No longínquo ano de 2003 eu falei por aqui do site de um serviço do governo norte-americano batizado de National Do Not Call Registry, cuja finalidade é permitir que os cidadãos do país possam escolher se desejam ou não receber ligações telefônicas de empresas de telemarketing.
Já naquela oportunidade, acometido do mal de receber quase uma dezena de ligações dessas por semana — provenientes principalmente de instituições bancárias —, desejei que um dia um serviço deste tipo começasse a ser oferecido aqui no Brasil, já que poderia atuar para os telefones como um filtro anti-spam funciona para nossas caixas de entrada. Hoje, para minha total surpresa, uma notícia divulgada pelo portal G1 me mostrou que esta realidade finalmente chegou ao Brasil, tudo graças ao PROCON paulista. Em uma cartilha de orientação publicada pela entidade em seu site está o seguinte texto:
A partir de abril/2009 o consumidor do Estado de São Paulo poderá se livrar daquelas indesejáveis ligações telefônicas oferecendo produtos ou serviços.
De acordo com a Lei 13.226/08, regulamentada pelo Decreto Estadual 53.921/08, o consumidor poderá cadastrar números de telefones fixo ou móvel, do Estado de São Paulo, que estiverem em seu nome, no “Cadastro para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Telemarketing” gerenciado pela Fundação Procon-SP. 30 dias após a inscrição, o consumidor só poderá receber ligações de entidades filantrópicas (excluídas da referida legislação) e de empresas que tenham sua autorização por escrito.
O Decreto considera telemarketing a modalidade de oferta ou publicidade comercial ou institucional, de produtos ou serviços mediante ligações telefônicas.
O serviço de bloqueio do recebimento de ligações de telemarketing é gratuito e o prazo pelo qual seus números de telefone permanecem registrados é indeterminado. Todas as informações pessoais ficam sob sigilo, sendo que as empresas — que também podem se cadastrar — podem consultar apenas os números de telefone para os quais não podem mais ligar. Uma ótima notícia neste sentido é que os infratores estarão sujeitos a multas entre R$ 212 e R$ 3,1 milhões, previstas no artigo 57 do Código de Defesa do Consumidor.
Eu, que já não aguentava mais receber ligações aos finais de semana, à noite logo depois de chegar do trabalho e até mesmo enquanto eu estava trabalhando, já providenciei o meu cadastro e tenho tudo pra ver, finalmente, essa novela chegar ao fim.
RIC: Finalmente um único documento para nós, brasileiros!
Você sabia que quando não leva o título de eleitor à seção em que vota — seja por esquecimento, ou qualquer outro motivo —, pode apresentar ao mesário um documento com foto que permita sua identificação, e assim votar normalmente?
Pois bem, é verdade. Essa orientação que os mesários recebem — e que eu, esse ano, por mais uma vez ter sido convocado para prestar meus serviços de cidadania ao País, ouvi de novo no treinamento — sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha: Porquê apresentar um documento com foto na impossibilidade de apresentação de outro — neste caso, o título —, sem foto? Não parece lógico, vocês concordam?
Para mim, essa questão — que levantei semana passada durante um almoço com amigos, no trabalho — reflete a desorganização de nosso país no que diz respeito à documentos. Vocês já pararam pra pensar que um cidadão brasileiro em idade produtiva, além do título de eleitor, possui uma boa leva de documentos adicionais? CPF, RG, PIS, Carteira de Trabalho, Certificado de Reservista (para os homens) e Carteira de Habilitação são só alguns exemplos dos quais me recordo agora, e olha que só esses já são muitos.
Já faz algum tempo agora que eu, incomodado com essa diversidade toda, tenho andado apenas com a CNH. Nela, afinal, constam os números de RG e CPF, que são os mais corriqueiramente solicitados no dia-a-dia, sobretudo no comércio. Até hoje, assim, isso me faz pensar na boa e velha carteira de motorista como o documento mais completo com o qual nós, brasileiros, podemos contar até o momento.
Digo até o momento porquê está em vias de ser implantado um novo documento. Denominado RIC, ou Registro de Identidade Civil, ele foi criado pela Lei 9.454, de 7 de abril de 1997, e ainda depende de aprovação de um decreto para sua oficialização. Caso tudo corra bem, deve passar a vigorar já em 2009 e terá tudo para trazer nosso país para o primeiro mundo da identificação de pessoas.
A principal motivação para a criação do RIC é unificar os cadastros de identificação estaduais e federal. Assim será garantido a cada cidadão brasileiro um número único que o identificará, evitando problemas corriqueiros com homônimos e pessoas que possuem os mesmos nomes de pai e mãe. Na prática, basta imaginar o número de fraudes — pessoas se passando por outras, ou tirando o mesmo documento em vários estados do Brasil — e de crimes que essa medida evitará.
Além da já tradicional marca d’água, o novo RIC deverá ser impresso em seis camadas, com palavras escritas com tinta invisível e utilização de efeitos óticos especiais. O cartão também terá um chip, que armanezará os diversos números de documentos dos cidadãos. Assim, como eu mencionei no começo do texto, os números de CPF, RG, PIS/PASEP e Título de Eleitor poderão todos ficar concentrados em um único documento, que, aliás, será do tamanho de um cartão de crédito comum.
Mas a coisa não pára por aí: Graças ao chamado AFIS, ou Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais — que foi comprado pelo Governo Federal em 2004 e custou cerca de US$ 35 milhões aos cofres públicos —, as impressões digitais e assinatura do portador também poderão ser coletadas digitalmente, ficando armazenadas no chip do cartão1.
Se o decreto que falta para oficializar o RIC não demorar a sair, vejo ser esta, finalmente, a resposta positiva à uma indagação feita pelo Émerson no Infowester tempos atrás: Será que o Brasil um dia se igualaria à países como a Espanha, onde o DNI, ou Documento Nacional de Identidad, já é realidade para muitos cidadãos, contando com tecnologia muito similar à proposta para o padrão brasileiro, e facilitando o acesso aos serviços públicos, compras, e muitas outras tarefas cotidianas?
Eu realmente espero que isso ocorra rapidamente.
Infelizmente, me atrevo a dizer, ainda parafraseando o Émerson, que o sucesso ou não do Registro de Identificação Civil dependerá — e muito —, de uma administração pública séria e organizada em nosso país. Por ora, vejo que existem dois fatores de risco pelo caminho. O primeiro deles é o tempo de implantação da novidade: Para que o RIC se espalhe serão necessários cerca de nove anos, durante os quais devem ser devidamente equipados os 4.375 postos de identificação que existem atualmente em nosso país.
O outro fator de risco, que na minha opinião é muito mais grave, é a afirmação da Polícia Civil de que tirar o RIC não será obrigatório. A meu ver isso pode ser um risco à integração que está se almejando, pois, se assim for, acabaremos na verdade por criar mais um documento entre muitos, e conviveremos num cenário em que a vanguarda tecnológica da identificação de cidadãos estará lado a lado com RGs batidos à máquina e com fotos do tempo do onça.
Espero que, nesse aspecto, o Brasil demonstre estar à altura de nossos hermanos espanhóis, e realmente leve à sério a implantação de um registro que será precursor na conquista de uma série de facilidades para a nossa população.
- Em tempo, para obter mais informações sobre o RIC, assista ao vídeo institucional apresentado em 8 de julho deste ano em Brasília, durante o I Encontro Nacional de Identificação [↩]
O papel da Internet na democracia brasileira precisa mudar
Não sei quantos de vocês já sabiam disso, mas foi comentado pela mídia recentemente que, na corrida rumo à Casa Branca, Barack Obama anunciou o nome do candidato a vice-presidente de sua chapa, Joseph Biden, através de mensagens enviadas por email e SMS para interessados que se pré-cadastraram. Só neste único movimento, o alcance foi de 2,9 milhões de eleitores.
Além disso, a Technology Review Maganize, revista editada pelo MIT, publicou recentemente em seu site um artigo de seis páginas que achei bastante informativo, com o sugestivo título How Obama really did it, ou Como Obama realmente chegou lá. No texto, os passos por detrás da criação do MyBO, a rede social que certamente contribuiu para a escolha do candidato dos democratas às eleições presidenciais norte-americanas.
O MyBO é um conglomerado de ferramentas sociais desenvolvidas, entre outras pessoas, por Chris Hughes, co-fundador do Facebook, que permitiram aos voluntários do candidato, entre outras coisas, realizarem doações, imprimir panfletos baixados diretamente do site e distribui-los na vizinhança aos indecisos, acompanhar eventos, recrutarem outros voluntários e se organizarem em grupos de discussão para debaterem propostas e pontos de vista comuns.
Outro aspecto interessante que alavancou a campanha de Barack Obama foi o que o artigo considera marketing viral da internet: A divulgação, através do YouTube, de vídeos dos discursos do candidato, e de um clipe entitulado Yes, we can, em que um desses discursos foi sincronizado a uma música de Will.i.am renderam-lhe milhões e milhões de visitas, somadas à mais de 69 mil seguidores de seu perfil no Twitter.
Arrematando meu comentário sobre o candidato americano, uma visita a seu site mostra que há uma preocupação muito grande com a comunicação: Propostas de governo para muitas questões, como a educação, por exemplo, são amplamente detalhadas. Blog e outras ferramentas permitem o envio de dúvidas e a capacidade de seguir o candidato onde ele estiver.
Toda essa exposição de argumentos que fiz até agora tem uma única finalidade: Comparar o cenário americano com o brasileiro — mesmo que lá eles estejam para eleger um novo presidente, e nós, prefeitos e vereadores. Quando olho para nosso país, percebo que é ainda muito pequeno o número de candidatos que faz uso de qualquer um dos recursos que citei acima para alavancarem suas campanhas utilizando a internet.
Em parte, a culpa é de duas legislações brasileiras: A primeira, a Lei 9.504, de setembro de 1997. Essa lei impede “…veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes“, bem como “…veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos“.
A segunda, a resolução 22718 do TSE. Em seu capítulo IV, a resolução, criada especialmente para as Eleições de 2008, limita a propaganda eleitoral dos candidatos, que “…somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral“. Para mim, essas duas resoluções em conjunto inviabilizam a utilização do mesmo sistema empregado por Barack Obama nos EUA por aqui. Em tese, não são permitidas as criações, quer por parte do eleitorado ou dos candidatos, de blogs, vídeos no YouTube, podcasts ou perfis no Orkut e Twitter. Os infratores podem ser multados e até presos.
Pra mim, essas duas leis ferem não apenas a democracia, mas também o direito à liberdade de expressão. Vejamos o lado do eleitor: Se eu gosto de um ou outro candidato, nada me impede de circular com camisetas alusivas à candidatura, ou de pendurar um cartaz com o número dele na minha casa. Também posso fazer propaganda boca-a-boca com a vizinhança, amigos e parentes e colar adesivos no meu carro. Nada mais natural seria permitir que isso ocorresse também na internet, já que muita gente, assim como eu, tem perfil em redes sociais ou mantém blogs. Ao invés de adesivos, podcasts. Ao invés de camisetas, um link ou banner num site, oras.
Vejamos, agora, o lado do candidato: A web, apesar de ainda não alcançada por parcelas significativas da população brasileira, poderia ser o canal perfeito não apenas para a realização de marketing, mas também para a apresentação de propostas detalhadas dos candidatos, e espaço aberto para o debate de suas intenções diretamente com o eleitorado. Assim, não vejo porquê não poderiam ser criados os tais perfis em redes sociais, vídeos no YouTube e travados debates nas salas de bate-papo dos sites dos próprios candidatos, principalmente os candidatos à vereador.
Falo especialmente destes últimos porquê considero que a maneira como nos são apresentadas tais candidaturas a vereador nos horários eleitorais da televisão e rádio chegam a ser surreais. Cada candidato tem menos de 10 segundos pra falar sobre si e sobre suas propostas, o que, na prática, acaba gerando aqueles estereótipos que toda cidade tem — aqui, na minha, por exemplo, um candidato de apelio Tang conclama votos da população para si, sob o pretexto de que “…os outros são todos ki-suco”.
Enfim, a livre utilização de sites, blogs, vídeos, redes sociais e demais ferramentas web por um candidato a vereador durante o período eleitoral aqui no Brasil poderia ser a via para apresentação, também por parte dele, de propostas e pontos de vista, rebatidas ou defendidas por seu eleitorado, num grande debate online. Sinceramente, é assim que eu vejo o papel da Internet na democracia brasileira.
Contra a censura ao CQC!
O meu nobre amigo Kadu nem deve saber, mas por conta dele eu me tornei um assíduo espectador do programa Custe o Que Custar — muuuuuito mais conhecido por CQC —, exibido às segundas-feiras, às 22h15 da noite e aos sábados, às 20h15, pela Rede Bandeirantes de Televisão.
Para quem ainda não o conhece, o CQC trata os principais fatos da semana — sejam eles políticos, artísticos ou esportivos — de maneira irreverente, satírica e humorística, brincando com as informações de maneira descontraída. Apresentadores e repórteres — todos vestidos de terno, gravatas pretas e óculos escuros, no melhor estilo homens de preto — comentam suas abordagens a pessoas públicas, como políticos, celebridades e jornalistas, com perguntas pouco discretas e picantes.
Para mim, trata-se de uma mistura inteligente de humor e informação.
Mesmo sendo fã de carteirinha do CQC, acabei não acompanhando o programa na última semana. Foi justamente nesse período que seus repórteres foram proibidos de obter credencial para entrar no Congresso Nacional, o que pra mim é um absurdo total para a época e o regime democrático em que vivemos, assim como diz Marcelo Tas — âncora do show — em seu blog:
Trabalho fazendo entrevistas no Congresso Nacional desde 1984, na pele do repórter Ernesto Varela, quando o Brasil vivia sob a ditadura militar do Presidente João Figueiredo, (…) 25 anos depois, por conta do mesmo tipo de pergunta, não previsível e irreverente, o eminente primeiro-secretário do Senado veta a emissão de credencial para que jornalistas do CQC, da Band, tenham acesso à Casa. Nem durante a ditadura sofri esse tipo de privação do direito da livre expressão na Casa do Povo. (…) Mais do que nunca é hora de lutar contra a censura, que bate novamente à nossa porta.
Eu estou particularmente indignado.
Não vivemos mais no regime militar, ou em época de censura. Mesmo assim, o primeiro secretário do Senado, senador Efraim Moraes (DEM) decidiu impedir a obtenção das credenciais. No último dia 18 de junho os jornalistas da Rádio Bandeirantes e da Bandnews FM, André Giusti, Sonia Blota, José Paulo de Andrade, Salomão Ésper e Joelmir Beting comentaram a censura e se indignaram contra ela, assim como eu:
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Felizmente, um abaixo-assinado para que os repórteres do CQC possam voltar a entrar no nosso Congresso Nacional está online e, se você quiser — assim como eu já fiz — pode colaborar e fazer valer a voz do povo, cobrando a volta da permissão de acesso destes profissionais às dependências da Casa.
No fundo, acho que essas coisas acontecem porquê o nosso país ainda não está acostumado com esse tipo de jornalismo — uma vez que o CQC muitas vezes coloca o dedo na ferida sem dó nem piedade e faz essas perguntas picantes, mas que são coisas que todo brasileiro mais esclarecido já sentiu vontade de perguntar a nossos governantes. Espero que essa história mude em breve, porquê senão sentirei vergonha desse tipo de episódio na nossa história.
Unificar a língua portuguesa não vale o esforço
Eu costumo comentar com amigos, de vez em quando, que nós brasileiros podemos nos considerar pessoas abençoadas pelo simples fato de sabermos falar a língua portuguesa. Sempre digo isso porquê nunca considerei nosso idioma — falado por mais de 230 milhões de pessoas em 9 países em que é o idioma oficial — um idioma fácil de se aprender.
Não é preciso que eu diga. Por mais que eu acredite que emprego bem a escrita do português, por exemplo, há certas frases e palavras que me causam dúvidas tão grandes que muitas vezes penso em não utilizá-las. Na mesma medida, todos nós sabemos o quanto compreendemos e empregamos bem o idioma, e que para qualquer número de pessoas que consideremos que falem ou escrevam bem em nossa língua, haverá um número pelo menos três vezes maior de pessoas que a falam ou escrevem mal. Isso acontece porquê as regras são inúmeras, e nem sempre nos lembramos de todas elas.
Tendo falado sobre estes pontos, me sinto obrigado a comentar que, desde o último dia 23 de maio, quando foi ao ar a reportagem do Jornal Nacional que eu reproduzo acima, anunciando a unificação da língua portuguesa em quatro países membros da CPLP — Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe — que eu estou deveras incomodado com esta questão. Assim como citado na tal reportagem, numa língua tão rica como a nossa, em que as dúvidas são mais do que normais, qual será o impacto de termos que reaprender a escrever? Mais importante ainda, será que vale o esforço?
Segundo o meu entendimento da questão, os signatários desta unificação do idioma estão defendendo tal proposta basicamente para facilitar a compreensão do idioma de maneira global.
É realmente verdade que há diferenças entre algumas palavras do português, dependendo de onde ele é falado. Um amigo meu lá do trabalho, por exemplo, que teve a oportunidade de trabalhar para uma empresa portuguesa, sempre nos diverte citando uma série de diferenças entre as palavras lusitanas e as brasileiras. O pequeno almoço, o puto — que em Portugal designa uma criança pequena — e as letras gê e gue, que por aqui são o jota e o gê, respectivamente, são exemplos dessas diferenças entre as palavras do português falado em Portugal e o português brasileiro.
Para mim, no entanto, apesar de correr o risco de parecer simplista, estes exemplos são apenas regionalismos. O que eu quero dizer é que, para mim, o português brasileiro difere do português lusitano na mesma medida em que há diferentes palavras e expressões — menino e guri, calçada e passeio — dentro do próprio Brasil.
E como unificar estes regionalismos para facilitar a compreensão universal do português será impossível, o foco da medida que foi aprovada e deve entrar em vigor por aqui a partir de 2009 é nas diferenças de fonética e léxico das palavras. Com relação às mudanças no Brasil eu acho que já passava da hora dessas:
- Cai o trema. Que bom, já vai tarde. O que eu já vi de gente que escreve tranquilo e linguiça ao invés de tranqüilo e lingüiça garantirá que a regra seja cumprida por uma grande parcela da nossa população que, no final das contas, agradece pela oficialização do desuso de um sinal gráfico desses, que está na berlinda há tempos.
- Passam a fazer parte oficialmente do alfabeto as letras K, W e Y. O alfabeto passa a ter 26 letras. Essa também é uma regra, para mim, criada com a finalidade de cumprir tabela. Já temos nomes próprios com essas letras, e gente usando K, W e Y adoidado.
No entanto, me incomodam o fim do acento agudo nos ditongos abertos oi e ei — idéia e heróico viram ideia e heroico —, o fim do acento circunflexo em palavras com duplo o e e — vôo e vêem viram voo e veem — e até mesmo a mexida nos acentos diferenciais — aqueles que servem para mostrar que para e pára são coisas distintas — e nos hífens.
Esse meu incômodo parte principalmente do fato de que já usamos grafias diferentes há praticamente cinco séculos, e, se a questão é unificar, deveriam ser aceitas todas as formas de se escrever em português já existentes. Parece bobagem, porquê na prática ficaria tudo igual, mas basta pensar que hoje, apesar das pequenas diferenças, qualquer brasileiro consegue pegar um livro escrito em Portugal, lê-lo e entender o que se passa, e vice-versa.
Me senti mais tranqüilo ao ouvir ontem, enquanto ia para o trabalho de carro, que o escritor Ruy Castro, jornalista que colabora como colunista da Band News FM de São Paulo, vai ao encontro de alguns desses pontos que eu citei, e ainda por cima compartilha de outro incômodo que tenho. A seguir eu disponibilizo esta coluna dele.
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Já que é inevitável, Portugal — onde apenas 1,6% das palavras devem ser alteradas — pediu vários anos para se adaptar à unificação, enquanto que, por aqui, pedimos apenas um ano e meio. Isso significa, como diz o Ruy, que alguém deve estar pensando em faturar em cima dos montes e montes de dicionários e livros que deverão ser inutilizados para que as novas regras possam começar a valer, pelo menos por escrito.
O fato é que, mesmo que alguém queria relevar essa minha última colocação porquê pode parecer muito com uma teoria da conspiração, continuo achando essa unificação uma coisa desnecessária. Talvez não para as gerações futuras, mas, por ora, para a média da população brasileira, já tão carente de cultura em geral, será um obstáculo a mais a ser superado na comunicação, representado nesta medida que necessitará de investimentos que poderiam estar sendo realizados em outras carências que bem sabemos serem bem mais importantes do que esta.
IRPF: Tão maduro quanto nossas urnas eletrônicas
Hoje pela manhã, quando ouvi no rádio a caminho do trabalho que haviam identificado um bug no programa IRPF 2008, me espantei.
Está certo que o problema encontrado não afetava o valor a ser pago, ou restituído, para os contribuintes, e era muito específico: Para os casos em que as pessoas têm mais de um dependente menor de 18 anos, ele repetia a data de nascimento do primeiro que fosse declarado. Mesmo assim, nunca antes eu tinha ouvido falar de um problema com o software desde a sua implantação, no já longínquo ano de 1991.
Felizmente, ao meio-dia de 3 de março, poucas horas após a disponibilização do software para os internautas, a versão 1.0 original já tinha sido substituída pela versão 1.0A, que já corrigia a falha. Segundo a Receita Federal, aliás, o incidente foi tão pequeno que as pessoas que já entregaram a declaração deste ano não precisam sequer se preocupar em corrigi-la ou reenviá-la.
Era uma falha boba, mas reconheço o bom trabalho da equipe que detectou e corrigiu a falha no IRPF 2008 tão rapidamente: Pra mim, isso demonstra que a atenção com um eventual problema mais grave num programa que afeta diretamente milhões de brasileiros seria a mesma — senão, maior.
No final das contas, embora sejam empregados em nosso país diversos sistemas tecnológicos desintegrados e com necessidades de melhoria evidentes na tentativa de automatizar certos processos do governo, há o outro lado da moeda, em que o grau de maturidade é enorme. Nesta categoria, além do próprio sistema empregado já há 18 anos pela Receita Federal, outro que me vem à cabeça é o exemplo das urnas eletrônicas, pelas quais, aliás, como já afirmei aqui antes, somos reconhecidos inclusive internacionalmente. Acho que estamos na direção certa.
Democracia na validade dos créditos de celular
É fato que, dentre as novas regras de telefonia celular da Anatel, que passaram a vigorar em 15 de fevereiro último, uma delas de longe parece beneficiar um maior número de donos de aparelhos móveis, os que, assim como eu, usam seus telefones em modalidade pré-paga.
Ocorre que a interpretação mais comum da tal regra que tenho ouvido por aí é a de que os créditos adquiridos passam a ter validade de 180 dias corridos. Isso seria extremamente interessante se não houvesse um pequeno detalhe envolvido: Nem todos os créditos adquiridos a partir das novas regras terão esta validade.
É importante dizer que a verdadeira regra diz que as empresas são obrigadas a oferecerem recargas que valham por 180 dias. Para saber o que isso quer dizer na prática, basta observar a recarga que fiz esta semana em meu pré-pago, um número da Claro. Conforme ilustro neste artigo, acrescentei R$ 20 ao meu saldo, e isso fez com que a validade dos meus créditos se prolongasse por mais 60 dias, e não 180. E as empresas estão agindo dentro da nova regra ao fazerem isso.
Validade dos Créditos
A Claro passa a oferecer a recarga de R$ 150,00 com validade de 180 dias. As recargas de outros valores continuam com as validades atuais. Quando houver uma nova recarga, os créditos antigos passarão a ter a validade desta última recarga.
Isso significa que R$ 15 em recarga na operadora estenderiam a validade dos créditos por apenas 30 dias, e, caso eu realmente quisesse os 180 dias de prazo, precisaria adquirir R$ 150 em créditos.
Acontece que nem todo mundo que é dono de um pré-pago pode ou deseja adquirir um valor tão exorbitante assim em créditos de telefone, mesmo que seja para que o valor dure meio ano. O grande cerne da questão é que muita gente alega usar o celular para fazer, como se diz popularmente, as vezes de pai-de-santo, ou seja, só para receber ligações, e assim a validade dos créditos — seja ela por qual período for — acaba sendo vista como injusta por muita gente.
Como melhorar essa questão?
Preciso dizer que não acho que uma melhoria estaria em medidas radicais como a que propõe o deputado Moreira Mendes, do PPS de Rondônia, que apresentou projeto de lei para ampliar a validade dos créditos pré-pagos para dois anos. As operadoras fatalmente alegariam que sem a compra de créditos pelos usuários seu modelo de negócio não funcionaria graças aos altos custos de manutenção da rede, etc e tal.
Na verdade acho que o modelo dos créditos celulares pré-pagos deveria se igular àquele aplicado na telefonia VoIP. Mais especificamente o do Skype — que não deve ser o único a fazer isso, é claro, mas que é o que conheço bem. No SkypeOut, por exemplo, os créditos, independente do valor carregado, valem por 180 dias e, para renová-los por um período igual, basta fazer pelo menos uma ligação a cada seis meses.
Vejam que isso endereçaria os dois principais interessados no modelo: Os consumidores ficariam satisfeitos, pois mesmo um celular pai-de-santo de vez em quando também é usado para fazer uma ligação, mesmo que curta. Se você acrescenta um intervalo de seis meses para que uma chamada originada de um pré-pago ocorra, então, aumenta as chances de manutenção da linha.
As empresas também poderiam se satisfazer. Com a origem de chamadas a partir destes aparelhos, poderiam tarifar as ligações normalmente, mantendo seu modelo de negócio intacto, já que diariamente milhares e milhares de usuários pré-pagos estariam fazendo suas chamadas eventuais. Seria perfeito, e acrescentaria, como cito no título deste artigo, um quê de democracia à validade de créditos de celulares.















