Condomínio Brasil

Se eu em algum momento cheguei a pensar que só nas grandes votações populares poderia haver discórdia entre as propostas dos diversos candidatos a algum cargo, foi porquê nunca tinha pensado antes em uma eleição de condomínio.

Onde eu moro foi feita uma eleição para escolha do novo síndico do condomínio no sábado passado. Nenhum dos candidatos agradava a gregos e troianos, mas o que eu — que aliás acabei nem votando porquê fui pra São Paulo neste dia — ouvi de reclamações de grande parte dos moradores com relação ao vencedor não estava no gibi.

A maior parte destas reclamações tem a ver com o medo que as pessoas têm de que aquele que foi escolhido para um cargo representativo — neste caso, um simples cargo de síndico — não defenda necessariamente os interesses que elas julgam importantes. Trocando em miúdos, temem que a sardinha seja puxada para o lado que não lhes convém.

Já não vivemos mais nos tempos das primeiras democracias, na Grécia e Roma Antigas, onde as decisões eram tomadas diretamente pela população, o que quer dizer que não dá mais para simplesmente colocar todo mundo em praça pública e sair votando a pauta do dia. É por isso que foram instituídas as democracias representativas, como as que escolhem vereadores, prefeitos, deputados, senadores, presidentes… e síndicos.

Daí vem que talvez as pessoas se foquem muito no síndico do condomínio porquê sentem que têm mais poder de decisão e controle neste tipo de cenário. No âmbito municipal, estadual ou federal, estes nossos representantes é que, eleitos por nós mesmos, tomam as decisões, e a opinião da gente mesmo muitas vezes não é sequer defendida.

Como então, aproximar as decisões diárias que nossos representantes tomam de um modelo mais parecido com o de um condomínio? Bem, penso eu que para implementarmos um Condomínio Brasil, deveríamos usar a Internet como ferramenta.

A Estônia saiu na frente neste quesito, entrando para a história como o primeiro país no mundo a promover eleições parlamentares através da grande rede de computadores, em março deste ano. Para votar neste sistema, que deve continuar a ser empregado por lá daqui por diante, os cidadãos estonianos só precisam utilizar suas cédulas de identidade, que já contam com um smart card integrado para autenticação on-line.

Estonian IDPor lá, as eleições eletrônicas estonianas ocorrem de 4 a 6 dias antes das eleições feitas da maneira convencional, e durante o período de votação a pessoa pode acessar seu voto e mudá-lo até a última hora quantas vezes quiser. Também lhe é permitido ir a um local de votação físico mais tarde e invalidar seu voto on-line, substituindo-o pelo convencional, se assim quiser. Neste pleito de março, dos quase 1 milhão de eleitores daquele país, cerca de 30 mil optaram por registrar suas preferências pela web.

Além da implantação de uma eleição 100% eletrônica no Brasil, acredito que poderíamos rever o modelo representativo: Neste novo cenário, os nossos representantes continuariam a apresentar suas pautas e propostas através de projetos de lei, mas estes passariam não apenas a serem votados pela Câmara e pelo Senado, mas também pelos cidadãos comuns como eu e você que, de posse de uma cédula de identidade como a estoniana, poderiam ter facultado o direito a votar ou não em um ou outro assunto que julgasse mais pertinente.

Claro que há uma série de implicações nesse modelo: Inclusão digital talvez seja uma das primeiras preocupações, pois não há muita gente ainda hoje com acesso a um computador. Há também questões como o peso que um voto direto de um cidadão comum teria em relação ao voto de um parlamentar constituído através de um processo de eleições diretas como o brasileiro. Seria maior? Menor? Por quanto tempo a votação ficaria aberta? Isso tudo sem contar com o grande esforço que deve ser pensado para evitar fraudes no processo.

Por outro lado, superadas as dificuldades iniciais, se um dia chegarmos sequer próximos de algo assim, estaríamos exercendo o poder de decisão através de referendos, que, no fundo, são grandes consultas governamentais para saber a opinião dos cidadãos sobre questões de interesse da Nação. A única grande mudança seria fazer isso através de um meio digital, que se torna cada dia mais popular.

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