Os Jorges
18/09/2006
Vocês definitivamente não conhecem o Jorge.
Mas eis que um belo dia, despertado por seu rádio-relógio para mais um dia de trabalho, Jorge reconhece o som da música que lhe acordou: Trata-se de Sweet Child O’ Mine, um dos grandes sucessos dos Guns and Roses na década de 80. Ao ouvir o hit, Jorge também se lembra de que Appetite for Destruction, o álbum onde esta música foi lançada, em 1987, foi um de seus favoritos naquela época.
Naquele mesmo dia, ainda com a música na cabeça, ele pega seu velho LP e pensa consigo mesmo que bem que ele poderia ouvir aquelas músicas novamente, visto que elas lhe trariam boas recordações. Mas Jorge também se lembra de que os tempos mudaram, e que, como não tem o CD do álbum, o som de seu carro, um MP3 Player de última geração, não será capaz de tocá-lo. Nem tampouco o iPod que ganhou de aniversário no mês passado, visto que as músicas nem sequer são digitais.
Acontece que Jorge é um cara antenado com o mundo moderno. E voltando do trabalho, trata de abrir o Shareaza, ávido que está por buscar seu velho LP junto a alguém que, numa rede P2P lotada de usuários dispostos a compartilhar de tudo, tenha um arquivo compactado com as músicas em formato MP3. E olha que o bitrate nem é problema pra ele. Em instantes ele encontra diversas fontes para as músicas e, naquela mesma noite, finaliza a gravação de um CD do Guns and Roses feito em casa, que no dia seguinte já está girando em seu carro, trazendo-lhe as tão desejadas recordações das quais queria se fartar.
Jorge — aliás, um nome fictício que escolhi para ilustrar esta pequena história — é apenas mais uma entre as 2,9 milhões de pessoas que, no ano passado, ajudaram a engordar as estatísticas de uma pesquisa encomendada pela ABPD — Associação Brasileira dos Produtores de Discos, sobre o universo musical brasileiro. Segundo esta pesquisa, cada uma destas pessoas baixou pelo menos uma música da internet em 2005, totalizando mais de um bilhão delas. No entanto, 98% destes downloads foram feitos de forma ilegal, ou seja, através de redes de P2P ou outros meios similares.
Se pensarmos bem, Jorge poderia ter comprado o CD em uma loja, é verdade. Mas três excelentes motivos levaram-no a fazer o que fez: O primeiro deles tem a ver com rapidez, ainda mais porquê Jorge conta com uma conexão de banda larga que acabou de adquirir. O segundo motivo encontrado por nosso amigo foi a praticidade: Afinal de contas, ele não precisou se preocupar em comprar um CD inteiro só pra ouvir Sweet Child O’ Mine e, quem sabe, mais duas ou três músicas das quais sentiu uma vontade incontrolável de lembrar.
Coroando a lista de suas motivações, Jorge ainda pensou que, ao utilizar o Shareaza, estaria cercado de comodidade. Isto porquê ele não precisaria sair de casa só pra ir a uma loja, e poderia fazer quantos downloads desejasse diretamente do conforto de seu lar.
No final da história, quantos de nós somos Jorges? Quantos de nós também ajudamos a contribuir com as estatísticas da pesquisa? Acho que será difícil alguém passar por aqui e deixar de admitir que também já fez pelo menos um download de MP3 através da grande rede de computadores.
A ABPD, ainda segundo a reportagem que li, fala em “intensificar o apoio para que a indústria fonográfica licencie seu repertório para os serviços digitais”, já que os dados mostram o quanto o brasileiro aprecia a modalidade. Acho uma idéia mais do que interessante, porquê finalmente parece que as grandes gravadoras entenderam que é hora de distribuir mídia pela internet, e que aquela era de se comprar CD com capinha e encarte já ficou há muito tempo no passado. O que precisa ser feito é realmente investir no mercado digital.
A maioria das pessoas irá automaticamente pensar que licenciar repertório — e outros tipos de mídia relacionados aos artistas de uma gravadora, como vídeo clipes, making ofs, e tudo o mais — custará muito caro. “Se eu posso seguir o exemplo do Jorge e conseguir tudo de graça pela internet, pra que é que vou pagar?”. Acho que a resposta mais prática é pela segurança. A quantidade de arquivos falsos e corruptos, bem como aqueles que contêm trojans, spyware e vírus, aumenta a cada dia nas redes P2P e, possivelmente, expor seu computador a este tipo de mal é uma coisa que qualquer usuário, por menos que esteja familiarizado com a era digital em que vivemos, não quer fazer.
Pagando pelo download, as pessoas ao menos teriam a certeza de que estão recebendo exatamente o produto que compraram, e não comprando uma falsificação del Paraguai. Não seria nada diferente de comprar um livro pela Internet e esperar receber por ele, e não por uma revista ou qualquer outra coisa. Também não seria diferente de adquirir outros serviços web, tais como a assinatura de um hospedeiro para seu site na internet, ou a assinatura de uma conta para armazenamento de suas fotos digitais. Mas há ainda um ponto que talvez faça com que a maioria dos leitores que lerão este artigo até o final decidam continuar a ser como o Jorge: O preço praticado atualmente pode parecer caro. Uma faixa digital em MP3, baixada de serviços especializados, que já existem no Brasil, sai, em média, por R$ 2,49.
O fato é que o valor é realmente caro para a maior parte das pessoas — e eu me incluo neste meio. Isso faz com que os Jorges se multipliquem e que as redes de P2P ganhem cada vez mais adeptos. Acho que uma boa solução para esse problema seria tratar o download de músicas como uma assinatura de serviço, como TV a cabo. Pagaria-se um valor mensal e assim qualquer usuário teria acesso a baixar quantas músicas quisesse.
O modelo econômico de uma assinatura deste tipo precisaria ser definido corretamente, é verdade e, quem sabe, isso levasse um bom tempo pra acontecer. As gravadoras talvez não quisessem este modelo porquê muita gente abusaria da quantidade de mídia que baixasse para seus computadores. Mas ainda acho que, futuramente, tal idéia se tornará viável. Ao menos, ela me parece melhor do que outra das decisões da ABPD, a de tentar regulamentar as redes de P2P.
Ao impedir o uso de redes P2P, decisão que alguns países europeus por sinal já tomaram, o número de downloads piratas com certeza cairia drasticamente. Mas ao mesmo tempo, uma série de outros usos da rede também seriam prejudicados, tal como as pesquisas com biomedicina. Será que alguém se lembra, por exemplo, daquele protetor de tela que, enquanto seu computador está ocioso, pesquisa curas prováveis para o câncer?
De qualquer maneira, esta é uma questão séria e a verdade sobre ela é que, enquanto o preço de um download for considerado impraticável para a maioria dos brasileiros e as pessoas não se sentirem economicamente motivadas, a tendência é de que as fileiras de Jorges do país continuem a crescer. Pense bem. Neste exato momento, será que você é um Jorge ou não?
Popularity: 9% [?]

Me identifiquei com o Jorge desde o começo do texto, com a excessão de que em 1987 eu não tinha alguns favoritos
Mas uma coisa que você se esqueceu de falar é sobre o formato do arquivo dessas lojas, geralmente um WMA de qualidade questionável que vem com duzentas proteções e não toca em praticamente lugar nenhum.
Existe uma regra nos serviços da internet de que tudo o que se paga é melhor do que o que é de graça, a indústria musical foi a única a criar uma excessão para essa regra. É Lamentável.
Ops, desculpa: “não tinha álbuns favoritos”
Minha diferença com o Jorge em questão, é que na época em que ele ouvia Guns and Roses eu só tinha três anos, mas hoje sou fã deles e tenho o Appetite for Destruction (que é um clássico do hard rock mundial) em MP3 (com um bitrate ótimo), pegos não pelo Shareaza, mas sim pelo Soulseek!
Mas não contem pra ninguém.