Eles mudaram o (meu) mundo

Lá pelos idos de 1996, quando conheci o mundo da internet, um dos passatempos com os quais eu mais ocupava meu tempo — além das intermináveis sessões de bate-papo via IRC e da leitura de e-mails com um software clássico, era a navegação em sites web.

Quando vejo que, em termos atuais, existem mais de 92 milhões de sites espalhados pelo mundo inteiro, chego à conclusão de que, já naquela época, devo ter adotado o mesmo comportamento de 100% dos usuários recém-chegados ao mundo on-line, ou seja, acessar todo e qualquer site que eu visse pela frente durante um certo tempo — basicamente enquanto tudo era uma novidade muito grande e eu ainda estava às voltas com meu Netscape dos mais antigos — e então reduzir bastante o escopo dos meus passeios a algumas dezenas de sites.

Muitos destes sites se tornaram meus favoritos ao longo do tempo. Seja porquê me permitam encontrar diversas informações, seja porquê o serviço que oferecem tenha características — pelo menos em algum momento — que considero únicas. De fato, não é exagero nenhum dizer que, entre as dezenas de sites que visito regularmente, alguns foram responsáveis por verdadeiras mudanças em meu mundo. Tal assunto, aliás, foi abordado pelo jornal britânico The Observer, que publicou no domingo passado uma interessante reportagem onde figuram os 15 websites que, na opinião dos editores, mudaram o mundo.

O jornal procura, com a lista, fazer um retrato do começo da vida na internet de forma a comemorar este mês os 15 anos de existência da World Wide Web. A reportagem cita, como os sites que mais influenciaram pessoas e mudaram o mundo de alguma forma:

  1. eBay
  2. Wikipedia
  3. Napster
  4. YouTube
  5. Blogger
  6. Friends Reunited, um site de reencontros de turmas de escola.
  7. Drudge Report, um site americano de notícias políticas.
  8. MySpace
  9. Amazon.com
  10. Slashdot
  11. Salon, uma das revistas on-line mais visitadas do mundo.
  12. Craig’s List, uma comunidade centralizadora de outras comunidades urbanas.
  13. Google
  14. Yahoo!
  15. EasyJet, a primeira companhia aérea low-cost da Inglaterra.

Não é preciso que eu discuta a inclusão de certos sites nesta lista, obviamente. Mas o que dizer dos tantos outros sites que mereceriam ao menos uma menção na lista, mas não alcançaram ali um lugar? Resolvi, por conta deste pequeno problema, organizar eu mesmo uma lista, que lhes apresento acreditando ser composta por sites que são merecedores de lembrança em meio à World Wide Web. Me acompanhem.

Flickr

O melhor site para armazenamento de fotos de toda a grande rede, na minha opinião, é o primeiro da lista entre os meus sites revolucionários: não apenas pelo fato de permitir a seus usuários que armazenem uma quantidade ilimitada de imagens em suas photo streams, mas também por permitir um limite mensal renovável de 2Gb de transferência para usuários Pro, suficiente para o mais exigente dos fotógrafos.

Além disso, o Flickr também permite que os usuários acrescentem comentários a cada imagem, seja no estilo blog, seja dentro da própria imagem, o que dá um visual semelhante à colar aqueles velhos adesivos sobre as fotos que eu revelava quando era criança, para fazer parecer com que elas falavam, só que de maneira muito mais avançada.

Quer organizar suas fotos em álbuns? Você pode. Listá-las da forma que achar melhor? Também pode. E além disso, cada foto pode receber uma ou mais tags — etiquetas de identificação e busca — que permitem organizar as fotos por assunto ou palavras-chave, tornando mais fácil e simples encontrá-las mais tarde. Por todos estes pontos e por fazer a interação com imagens uma coisa muito mais fácil, o Flickr é, ao menos para mim, um dos sites mais revolucionários de todos os tempos.

Bloglines

Num mundo composto por mais de 92 milhões de websites, o que podemos fazer para acompanhar as atualizações de cada um que consideramos possuir conteúdo suficientemente relevante para que o visitemos regularmente? Visitá-los um a um pode ser, em muitos casos, uma tarefa humanamente impossível.

É por conta deste tipo de constatação que diversos sites noticiosos, blogs e serviços contam hoje com um padrão de distribuição de conteúdo conhecido como RSS, ou Really Simple Sindication. Tal padrão, que teve suas origens em 1999, permite que os sites distribuam seu conteúdo através do que convencionou-se chamar feed, um arquivo formatado através do padrão XML, que, por sua vez, nada mais é do que um padrão universal para a troca de informações.

Cada arquivo RSS que desejamos receber pode ser comparado à uma assinatura de revista que fazemos. Para organizar todas estas assinaturas, foram criados os agregadores de conteúdo. Úteis para centralizar o conteúdo disponibilizado por diversos sites, alguns deles são proprietários, desenvolvidos especificamente para as plataformas Windows ou Linux, por exemplo. Mas muitos deles são serviços disponibilizados na própria internet: Entre eles está o melhor agregador de conteúdo de todos os tempos, o Bloglines.

Talvez seja seu pioneirismo, talvez seja sua simplicidade até hoje inigualável. De qualquer forma, o fato é que, mesmo tendo arduamente procurado alternativas para o serviço — e até encontrado sites interessantes, como o NewsAlloy — o fato é que ninguém até hoje foi páreo suficientemente grande para o Bloglines. E é por isso que, além de continuar sendo meu agregador favorito, ele deve sem dúvida fazer parte desta lista.

del.icio.us

Joshua Schachter talvez não tivesse noção do tamanho do sucesso que teria quando, no final de 2003 disponibilizou para o mundo inteiro seu serviço de bookmarking social. Com um simpático nome, o del.icio.us se tornou uma verdadeira febre entre a parcela mais cult da internet e logo teve sua base de usuários multiplicada de uma forma talvez nunca imaginada.

A idéia do serviço, caso alguém ainda não o conheça, é terrivelmente simples: Descubra um site que você gostaria de visitar mais tarde, ou regularmente, e crie para ele um marcador, ou bookmark. É possível fazer isso dentro do seu navegador web favorito, qualquer que ele seja. Mas experimente difundir esse achado, guardando a referência para ele on-line, dividindo a experiência com milhares de outras pessoas. Esse é o del.icio.us. E se você duvida que a fórmula dê certo, pense de novo: Com cada dia mais usuários, não foi à toa que, no começo de dezembro de 2005, ele foi arrematado por ninguém menos que o Yahoo!.

Orkut

Rever amigos, reencontrar velhos conhecidos da faculdade, da escola, do curso de inglês. Seus vizinhos que você nunca mais viu porquê mudou de cidade. Seus parentes em outro país, comunicando-se facilmente com todos eles. Essas são apenas algumas das possibilidades que o Orkut permite a seus usuários. Entre os brasileiros, aliás, este site virou uma mania tão grande que o Google chegou a procurar funcionários brasileiros para ajudar na rápida tradução de sua interface, já à época de seu lançamento.

Mas que a verdade seja dita: Não se trata mais, atualmente, de um de meus sites favoritos. De qualquer forma, em termos de sites revolucionários, como não incluir o Orkut nesta lista? Como não lembrar da febre que foi — e que, para algumas pessoas, ainda é — desejar mais do que qualquer coisa no mundo um convite para ter a oportunidade de entrar no primeiro site de redes sociais da história?

Descontados os problemas com spam em scraps — recentemente resolvidos pela obrigatoriedade de preenchimento de um código antes de enviá-los — e de contatos falsos, do vazamento de informações sensíveis dos perfis de seus usuários, acho que ainda assim o Orkut merece um lugar nesta lista.

Netvibes

Num mundo tão orientado à concentração de aplicações na web como o atual, nada melhor do que reproduzir na internet um desktop virtual, de onde se possa acessar, facilmente, diversas funcionalidades muito úteis. Esta é a idéia geral do Netvibes, um site que, logo que surgiu, tive a oportunidade de conhecer através de um convite enviado para mim ainda quando o site estava fechado ao público em geral. Na época, inclusive, fiz uma resenha sobre o serviço.

Quando eu conheci este serviço, ele permitia acessar apenas alguns poucos itens, dentre os quais previsão do tempo, busca em sites como o Google, suas mensagens de e-mail — desde que você tivesse uma conta no GMail — e alguns sites através de um leitor RSS embutido. Hoje, com muito mais funcionalidades à mão, o Netvibes continua sendo, sem sombra alguma de dúvida, um site revolucionaríssimo, e ainda por cima, todo desenvolvido com tecnologia AJAX!

Digg

O jornal The Observer lista entre seus escolhidos o afamado — e excelente — portal de tecnologia para nerds, Slashdot. Realmente, trata-se de uma bela lembrança, pois é uma das fontes de informação tecnológica mais respeitáveis do mundo, editada exclusivamente por seus leitores e contribuintes.

Mas em paralelo, um site muito mais recente — o Slashdot é de 1997 — tem roubado a cena na minha opinião. Trata-se do Digg, outra bela fonte de informações para nerds, criada em novembro de 2004. Combinando séries de artigos sobre tecnologia e ciência, também contém uma série de recursos de social bookmarking, se assemelha a um blog e se promove auto-afirmando-se como um site que pratica o controle editorial democrático.

O sistema do site é simples: Histórias mais interessantes ganham destaque na primeira página. Histórias antigas, repetidas ou sem sal são enterradas pelos próprios leitores, que podem criar uma conta no serviço para que eles mesmos enviem conteúdo. Pelo seu dinamismo e pelo crescimento enorme da sua popularidade, que apresenta desde a sua criação, este é mais um site que vai para a minha lista de destaques.

IMDb

Cinéfilos de plantão: Alguém me diga se há referência melhor para vocês — e todos nós — do que o Internet Movie Database. Com nomes de atores, roteiros de filmes e todo tipo de informação relevante para quem curte um filme — seja no cinema, seja em vídeo, na sua própria casa — esta enciclopédia cinematográfica foi, até onde eu sei, a precursora de seu gênero, oferecendo informações de primeira linha não apenas sobre o que já foi lançado na indústria do cinema, mas também sobre os lançamentos ainda por chegar às telas da sétima arte.

O site, que passou por uma ligeira reformulação em seu design recentemente, contava, até 24 de julho de 2006, segundo informações que coletei na Wikipedia, com 832.370 títulos — entre jogos, video-games, filmes e shows de televisão — e 2.158.286 pessoas cadastradas, entre diretores, atores, produtores, dubladores e outros profissionais da mídia. Se você ainda não conhece este site, vale uma visita agora mesmo!

Blogdex (in memorian)

E se você, blogueiro ou apenas curioso, quisesse saber quais eram os assuntos mais populares do momento nos weblogs do mundo inteiro? Até maio deste ano podia-se contar com o precursor de todos os serviços deste tipo, chamado Blogdex. O site apresentava, em formato de ranking, os assuntos mais comentados nas páginas de pessoas comuns, jornalistas e demais profissionais, desde que estes mantivessem um weblog pessoal.

O ranking tinha altos e baixos e, conforme a popularidade de um ou outro assunto, via-se como sua posição no mesmo variava. Diversos spin-offs foram gerados a partir da idéia de Cameron Marlow, estudante do MIT hoje trabalhando para o Yahoo. Entre eles, um site brasileiro, o Toplinks, mantido pelo Cristiano Dias, e um outro, que também é visto pipocando nos blogs por aí: O famoso Technorati.

Todos estes serviços sucessores valem a visita, é verdade. Mas aquele pioneirismo do Blogdex, ainda que ele não esteja mais on-line, sempre vai lhe render um lugar na minha lista de sites inovadores.

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4 pensamentos sobre “Eles mudaram o (meu) mundo”

  1. Glacial writes:

    Um que eu ainda acho que falta aí é o Geocities. Quem nunca criou uma página pessoal com endereço gigante na mais famosa hospedagem do mundo? :)

  2. Rafael Fischmann writes:

    Adorei o artigo, Daniel. Concordo e apóio a lista por completo, e agradeço as dicas do Bloglines e Netvibes. Bloglines eu já sou cadastrado, mas ainda não havia parado para explorar. Netvibes eu já ouvi falar zilhões de vezes, mas seu artigo me deu um empurrãozinho pra lá. :) E concordo com o(a) Glacial, acima: Geocities nele! E mais: archive.org, o próprio Yahoo!, além do Flickr por que não também o Fotolog e diria também o download.com.

  3. Lu writes:

    Destes, não vivo sem o Bloglines e o IMDB - que tem um primo pobre brasileiro, o Adoro Cinema, de ótima qualidade mas com uma base de informações muito menor. Ninguém barra mesmo o IMDB que, além de tudo, traz citações dos filmes - ótimo para uma viciada!

  4. Fernando Meyer writes:

    Você vendeu este artigo para a revista cartacapital ? hehehe

    de uma olhada na edicao de 30 de agosto de 2006