Escritórios On-line
06/06/2006
Os que me acompanham há mais tempo provavelmente se lembrem de quando eu comentei sobre um editor de textos chamado Writely, 100% desenvolvido com a utilização de tecnologia AJAX. Com características que o faziam similar a um Wiki — site colaborativo onde todos podem contribuir com conteúdo —, outro grande diferencial da ferramenta era que, além de ser totalmente on-line, ainda permitia a seus usuários que importassem conteúdo do Word, da Microsoft, além de salvá-lo de volta em suas próprias áreas de trabalho.
Mais do que isso, chamou a atenção por ser uma das prim eiras iniciativas rumo ao que podemos chamar de web office, uma tendência pela qual os aplicativos comuns de utilização em nossos trabalhos e escritórios — como planilhas eletrônicas, softwares geradores de apresentações corporativas e, é claro, os processadores como o Writely — passarão, algum dia, a ser 100% acessíveis através dos nossos navegadores favoritos, em meio a sessões de navegação na Internet.
A atenção despertada pelo Writely foi tanta, aliás, que apenas alguns meses decorridos com este blogueiro que vos fala mais afastado dos teclados foram suficientes para que eu perdesse a notícia de que a companhia, fundada dias antes de eu ter escrito o post sobre o editor, em agosto do ano passado, havia sido comprada pelo Google, em um movimento da empresa que claramente visava afrontar Bill e companhia, no último mês de março.
Agora o Google parece estar levando muito a sério a possibilidade de desbancar os fabricantes do pacote de aplicativos para escritório mais popular e difundido do mundo. Não apenas detentores do Writely, mas agora também contando com todo o expertise de Sam Schillace — CEO da Upstartle, empresa de quem eles compraram o editor de textos — e seus quatro antigos empregados, a empresa deu mais um passo esta semana e colocou à disposição da mídia, para que fosse testada em primeira mão por um número limitadíssimo de pessoas, uma planilha de cálculo nos mesmos moldes do Excel.

A Google Spreadsheets, pelo que consegui apurar através de reviews de quem — ao contrário de mim, infelizmente — já conseguiu colocar as mãos na aplicação, faz muito bonito. E isso não é apenas papo de entusiasta da empresa de Mountain View. O jornalista Michael Calore, por exemplo, através de seu blog Monkey Bites, escrito para a Wired, declara que os usuários poderão, além de abrir documentos salvos nos clássicos formatos CSV e XLS, trabalhar colaborativamente, tal como no editor que precedeu a planilha.
Também como em qualquer planilha de cálculo eletrônica que se preze, os usuários da planilha do Googleserão capazes de interagir com os dados através de seu armazenamento e da utilização de fórmulas. Mas há mais um diferencial no produto recém-lançado: Trata-se, a meu ver, da primeira planilha eletrônica em formato de wiki de que se tem notícia. Isso porquê qualquer pessoa pode ser convidada a editar um arquivo junto com seu autor original, contribuindo com informações, inclusive simultaneamente. E como se isso já não bastasse, o Google Chat aparentemente foi integrado à aplicação, fazendo com que a colaboração se torne ainda mais instantânea e produtiva.
Ainda segundo os breves comentários de Calore, os dados podem ser exportados a qualquer momento nos formatos XLS, HTML e CSV. Em resumo, portanto, parece definitivamente que o Google já tem outro componente da lista de aplicações que seriam necessárias para um pacote completo de gerenciamento de escritórios, do qual já faziam parte o próprio Writely, o GMail e o Google Calendar, entre outros.
Mas duas questões me vêm à cabeça quando penso na novíssima Google Spreadsheets.
Ok, minto. São três, na verdade. A primeira delas é que estou louco de curiosidade e já me inscrevi para receber uma senha de avaliação do novo aplicativo. O site infelizmente anuncia que first coming will be first served, e imagino que haja milhares de nerds como eu sentados com cadeiras de praia ao sol à minha frente, ansiosos por uma senha para si mesmos. Mas deixe estar, eu chego lá. E é claro, quando chegar, aviso.
A segunda questão é relacionada à privacidade. Como eu disse durante este post, esse movimento em torno de uma suíte de aplicações para escritório toda baseada na web — ao qual apelida-se por aí web office — é algo que talvez coloque este quesito, um dos mais importantes em termos da utilização da informática no nosso dia-a-dia em minha opinião, em xeque.
Que níveis de proteção realmente estariam em vigor para proteger nossos documentos, muitas vezes informações extremamente pessoais, de olhos alheios, curiosos e — algumas vezes — mal intencionados? Pode parecer paranóia, mas podem imaginar e verão que amigos seus, parentes seus e quem sabe até você mesmo, preferirão o velho hard disk para armazenamento de seus extratos bancários e planilhas de despesas pessoais, só pra citar um exemplo que atinge 10 em cada 10 pessoas.
Afinal de contas, se alguém pode levar anos para migrar de um controle em papel, feito em cadernos, para um disquete, e apenas mais uma série de anos mais tarde aceitar transportar o que antes ficava no mesmo disquete em um flash disk, quantos anos levará até que todas essas notícias de fraudes virtuais diminuam e efetivamente se encontre algo teoricamente à prova de falhas robusto o suficiente para agregar até o internauta recém-iniciado que tem não apenas uma pulga, mas todo um circo delas, atrás de sua orelha? Imagino que, ainda que a Spreadsheets se mostre a melhor das aplicações de cálculo eletrônico on-line — e ela provavelmente tem tudo pra isso —, não será tão já que dados muito sensíveis trafegarão por aí. É claro.
Além disso, haverá sempre uma ou outra pessoa que — talvez com razão, ainda não se sabe — dirá sempre que aquilo que é offline nunca será superado por um parente conectado à Grande Rede. As pessoas, ainda não acostumadas a uma série de termos que lhes inundou a cabeça com o advento da Internet, ainda que ele já tenha ocorrido há vários anos, provavelmente levarão um tempo ainda longo o suficiente para se acostumarem com a idéia de um clone do Microsoft Office totalmente acessível através de um browser.
Essa questão offline x on-line, por sinal, me remete à minha derradeira dúvida. Diz-se da Google Spreadsheets que ela será capaz de permitir a utilização de fórmulas para cálculos com os dados de todos os usuários, como qualquer planilha que se preze. Afinal de contas, os usuários esperam realizar somas, obter médias e até procurar valores em tabelas através de métodos mais sofisticados do que a pura interação manual, ou repetições infindáveis de parcelas, umas atrás das outras. Mas e o algo mais?
Estou me referindo a um trunfo da Microsoft. A essa altura, com a tendência de lançamento de mais aplicativos web aumentando dia após dia, pode parecer estranho falar nisso. Mas trata-se de um trunfo presente não apenas no Excel, mas também no Word, PowerPoint, Access e qualquer outro aplicativo da empresa. Um trunfo que movimenta comunidades on-line, e que permite a integração não apenas entre os aplicativos Office, mas também entre estes e qualquer software desenvolvido por terceiros que possua suporte a este mesmo trunfo.
Estou falando do VBA, ou Visual Basic for Applications, uma variação da linguagem de programação Visual Basic original que permite a automatização de aplicativos e a troca de dados entre eles. Embora um usuário convencional talvez só venha a ter contato com tal linguagem através da criação de macros simples, muitos usuários mais avançados — como eu, que já usei o VBA em diversas situações, seja sozinho, seja em conjunto com outras linguagens de programação — sentiriam falta de algo do gênero em um pacote Office on-line.
Mas isso, obviamente, talvez seja transitório. Eles já criaram o site de busca mais visitado do mundo. Bancos de dados. Programas de e-mail. Compraram editores de texto. Além do lançamento de sua nova planilha eletrônica, é claro. O que impediria o Google de lançar, mais dia menos dia, uma linguagem de programação própria? Nada, é claro. Mas isso ainda estará muito adiante, provavelmente.
Por hora, basta que nos perguntemos: Com todas essas iniciativas — sejam elas do Google ou não — visando a concentração de escritórios on-line, será que eles se tornarão viáveis? Ou será que as questões que levantei — e talvez, é claro, uma série de outras — realmente se interporão entre o que temos hoje e um futuro cuja distância pode estar mais ou menos próxima de nós? Vamos ver, pois apenas o tempo dirá.
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No. 1 — 12/06/2006 @ 02:16
Todas estas ações do google voltadas para pacotes de escritório são esperadas, afinal de contas eles ja estão investindo em OS livres baseados em linux, mas ainda não admitiram nada por aí… Eu estou louco para ver o GLinux ou Google Linux em ação… Tenho a impressão que o Google conseguirá associar toda a facilidade do Windows com a segurança do Unix, coisa que o Ubuntu quase conseguiu…
Para nós, basta esperar! []’s Daniel
No. 2 — 20/06/2006 @ 17:30
É como digo: o Google vai dominar o mundo, e o mundo será um lugar melhor para se viver. É, sou mesmo apaixonada pela empresa.
A questão da segurança realmente preocupa. Talvez o mais provável seja a utilização dos aplicativos web para coisas menos significativas, ou então o uso em intranets, de acesso restrito aos funcionários de determinada empresa.