Propaganda do Mal

Apesar de fazer já algum tempo, acredito que todo mundo — ainda — deva se lembrar do caso da vendedora Simone Cassiano da Silva. Esta cidadã cometeu, no último dia 28 de janeiro, um dos atos mais criminosos em que se pode pensar contra a vida de uma criança. Jogou sua filha recém-nascida na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, dentro de um saco plástico ao qual estava amarrado um pedaço de pau. Sua intenção era clara e, felizmente, para a criança, seu choro foi ouvido por um casal que passava próximo ao local, que chamou ajuda e assim acabou providenciando seu salvamento.

Tenho um amigo que me diz sempre que utiliza a TV, ou a mídia em geral, para se distrair dos problemas. Sua escolha é a mesma de muitos outros amigos que tenho, e também de milhões de brasileiros que têm o direito de — como meu amigo diz — assistirem apenas à coisas divertidas, pois o mundo já é cheio demais de problemas para que agüentemos sofrimento via satélite tal qual os transmitidos por certos programas sensacionalistas que não preciso citar aqui. Mas é bom lembrarmos, vez em quando, que somos humanos e que, como tais, não podemos deixar coisas assim ocorrerem com nossos semelhantes. Depois que me tornei pai, por sinal, este sentmento se tornou ainda mais forte em mim do que já era.

Citei Simone e seu bebê descartado porquê uma notícia que li esta semana me deixou igualmente indignado. Na Tailândia, a empresa farmacêutica Schering, uma grande multinacional responsável inclusive pela fabricação de remédios no Brasil, propôs uma campanha publicitária no mínimo de gosto duvidoso: Colocará “bebês” em lixeiras próximas às universidades e determinados outros locais no país, de forma a anunciar um de seus produtos: um anti-concepcional.

A idéia dos publicitários foi espalhar pelas ruas da capital Banckok diversas lixeiras equipadas com sensores. Ao detectar a passagem dos pedestres, o dispositivo emite o som de um choro de criança, simulando o abandono que acontece dia-a-dia no país e fazendo referência à gravidez indesejada.

Ora, que me perdoem. Sou o primeiro a erguer a bandeira da liberdade de expressão e incentivo muito a criatividade, pois acho que ela é uma das molas que impulsiona a humanidade adiante. Mas este tipo de coisa me dá nojo. Ainda mais se você lê um pouco mais sobre a Tailândia e descobre que, por lá, três bebês reais são realmente jogados nas lixeiras todos os dias. Essa nova propaganda só pode ser prejudicial a todos. Principalmente às mães, que logo que engravidem, se sentirão, ao menos em minha opinião, mais incentivadas a se desfazerem de seus bebês, as maiores vítimas — e as que nenhuma culpa têm — desta situação. É uma vergonha.

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