Uni-duni-tê?
09/08/2005
“Eu devia tomar alguma atitude, qualquer uma”, pensou.
Olhava pra frente e se sentia perdido. Quase ao ponto de estar desnorteado. Imaginava que a situação pela qual estava passando agora era ridícula, mas não sabia muito bem o que fazer a respeito disso. Era muita coisa para que seu cérebro processasse imediatamente. Muita variedade. Talvez sua mente não desse conta do recado.
“Deve ser isso, meu cérebro está gasto!”.
Gasto? Com tantos cálculos realizados diariamente? Com tanta informação processada quase que de maneira initerrupta? Não. Se ele dominava programação de computadores, linguagens e códigos impensáveis para alguns mortais na face da Terra, seu cérebro não iria se gastar assim, com uma coisa tão trivial. Devia ser outra coisa.
Olhou para o lado direito. Não viu ninguém. Resolveu tentar o outro lado. Bingo! Duas mulheres estavam praticamente a centímetros de distância e — pensou ele —, se elas não se sentiam nem de longe tão desnorteadas como ele, não fariam caso em ajudá-lo num momento como aquele. Abriu a boca e pronunciou, meio que a contra-gosto, seu apelo:
— Por favor…
Uma das mulheres, mais nova, com uma expressão indiferente, virou-se para ele.
— Sim?
Certo, certo. Ele havia conseguido. A mulher parecia, à despeito da sua expressão, disposta a lhe prestar algum esclarecimento. Ela sabia, pelo olhar dele, que alguma coisa o estava incomodando. Mas parecia a pessoa certa no lugar certo. Ótimo. Era só formular sua pergunta. Mas como?
— Bem, eu… eu… não é nada, me desculpe.
Me desculpe? A chance de sua vida de fazer a pergunta de um milhão de dólares e ele se calara. O que foi aquilo? Em sua cabeça os pensamentos estavam emaranhados e talvez por isso a pergunta não atinjira a mulher em cheio. Paciência. Terminando o que ela havia de fazer onde estavam, desapareceu, levando sua companheira à tira-colo.
Olhou novamente para os lados e, à exceção de um rapaz que estava debruçado nas proximidades, parecendo rir da situação geral, estava novamente sozinho. Não ia perguntar nada ao rapaz. Primeiro, porquê ele estava parecendo se divertir com a coisa toda. Depois porquê ele era perfeitamente capaz de sair daquela situação sozinho. Era só tentar. Respirou fundo, fechou seus olhos e resignou-se. Ao abri-los, vislumbrou o que havia logo à frente.
Pacotes. Coloridos. Simpáticos. Se ele fosse uma criança, por exemplo, sua vontade seria pegar todos. Eram todos muito bonitos, atrativos. Como se fossem brinquedos reluzentes à espera de mãozinhas ansiosas que os tocassem e implorassem aos pais que os levassem pra casa. Mas ele não era criança. Aliás, isso explicava tudo. Era por isso que estava ali. Era papai há pouco, e sua esposa o enviara naquela missão ingrata. Com um fluxo inesperado, maior do que o normal, pedira a ele que se encarregasse da missão de lhe trazer aquilo.
Se ele já fizera aquilo tantas vezes, porquê se sentia perdido? Resolveu olhar os termos descritos nas embalagens, nem se dando conta de como não tinha pensado nisso antes. Ultra-fino, Noturno, Dupla Segurança e até Soft Normal. Os termos olhavam de volta pra ele, em resposta. Nada. Olhou nas prateleiras superiores, e viu alguns outros pacotes, laranjas, amarelos, azuis… Sem aba. Aquela lembrança pareceu lhe despertar algo diferente.
Se lembrou instantaneamente do porquê estava perdido! A especificação! Como num sistema de computadores a ser desenvolvido, precisava da especificação para o pedido! E ele sempre a tinha em mãos, em situações como aquela. Devia estar no bolso, claro!
Pôs as mãos no bolso. Chave do carro. Chave da casa. Um clipe de papel. Mas nada de especificação. Sua esposa, na pressa em que estava e, pela urgência do horário, visto que ele entrara no supermercado quando faltavam-lhe apenas 10 minutos para que fechasse as portas até o dia seguinte, deve ter se esquecido. Mas, como num milagre, lembrou-se do nome do dito cujo e junto veio a especificação de outros carnavais. Intimus Gel sem Abas, pacote cor-de-rosa. Pronto!
Olhou em todas as direções à procura do tal pacote cor-de-rosa. Trivial. Agora era só pegar um deles e pronto. Mas algo não se encaixava. Encontrou todas as marcas e modelos de absorventes em sua frente mas não aquele. Como num complô das forças da natureza — mais parecido na verdade com uma peça pregada pelas Leis de Murphy —, nosso herói deu com os burros n’água. Nada de pacotes cor-de-rosa com a inscrição sem abas, chamados Intimus Gel.
— Senhores clientes, fecharemos nossas portas em 5 minutos.
O alto-falante lhe dispertara. Com cinco minutos pela frente, cansado como estava e à mercê total do destino, que lhe pusera às frentes de uma prateleira com 5000 tipos de pacotinhos coloridos com todas as inscrições possíveis, exceto o que precisava, revisou suas opções, nenhuma lhe parecendo mais lógica do que aquela. Tentando se apegar ao fato mais relevante, “sem abas”, não hesitou.
— Uni-duni-tê, salamê minguê… — dizia-se, mentalmente.
Puxou um pacote. Compacto. Amarelo. Simpático como os demais e até atraente, com aquela cor viva piscando pra ele. A embalagem dizia, cheia de si, que aquele era um absorvente da marca Always. Que fosse. Em sua mente ele sabia que estava mais pra Eventually, mas que importava aquilo? às pressas, dirigiu-se para o caixa, onde pagou sua compra, ainda com o tal homem debruçado sobre um carrinho lhe dando risada às costas, quando passou.
Instantes mais tarde, abriu a porta de casa e topou com sua esposa.
— Trouxe o que eu lhe pedi?
— Bem, é… não…
Ela esperou explicação. E esta, em seguida, veio:
— Não achei o que você sempre pede. E trouxe um outro, que também é sem abas. Espero que sirva.
Ela puxou a sacola das mãos dele. Por instantes ele achou que fosse receber uma bronca, que aquele pacote não servia por um motivo ou outro. No entanto, ela assentiu com a cabeça e lhe confirmou que — na falta do seu habitual produto — aquele também lhe serviria.
Ele respirou aliviado. Além de ter anotado as especificações em um papel, que guardou em sua carteira, para garantir que jamais se esqueceria novamente, lembrou que solicitara à menina do caixa que providenciasse o tal Intimus Gel sem abas cor-de-rosa para as próximas compras.
Olhando meio torto pra ele, ela assentiu. Anotou qualquer coisa em um papel e entregou-lhe o ticket. Ao final, despediu-se com um Boa-noite cortês.
Aquela havia se mostrado, no final, uma boa-noite. Vitória. E se ocupou de outras coisas.
Nota: Este post foi baseado na batalha travada entre Homens e Absorventes, descrita pelo Marcelo, de quem, aliás, emprestei a foto que ilustra a história. Mas também é baseado na luta que é comprarmos algo com o qual não estamos habituados. Todas as vezes é uma luta, e a minha última, descrevi neste conto.
Popularity: 6% [?]

No. 1 — 09/08/2005 @ 16:02
Hehehehe…
Não é fácil o drama… hehe
No. 2 — 10/08/2005 @ 22:11
Por essa e mais outras, você é meu herói.

Sorte da Girl… aliás, como está a Mamãe mais fresca do nosso picadeiro? Mande beijos.
No. 3 — 11/08/2005 @ 16:48
hahahaha ainda ontem nas minhas compras, quando olhei para a gôndola, carregada dos mais diversos e coloridos absorventes, lemrei-me do artigo do marcelo…rs
Abração