Eu, Mesário

Obrigado (a votar), cidadão!!Ao contrário do que você possa pensar, as Eleições no Brasil são sempre um mar de rosas. De Rosas, Josés, Marias, Paulos, Cristinas, Anas, Danielas, Joaquins, todos eles perdidos em meio a dúvidas que eu sinceramente não consigo entender como é que perduram até hoje. Com vários anos de um sistema eleitoral eletrônico já implantado, as pessoas teimam em não saber como é que se vota. Tudo bem, tudo bem: Talvez não exatamente como se vota, porquê é só apertar uns númerozinhos e depois a tecla verde, CONFIRMA, não é mesmo? O que elas nunca sabem é a ordem em que devem votar. Mesmo com tantos anúncios, tanta divulgação: Propagandas eleitorais veiculadas pelo Governo Federal, em rádios, televisões (quantas nos intervalos do Fantástico, Jornal Nacional, novelas, ou de seu programa favorito?), jornais, revistas, internet, e por aí afora. É complicado pra muita gente saber que o primeiro voto deveria ser pra vereador, e não pra prefeito. Mesmo que a pessoa queira votar só pra prefeito, deve anular seu voto pra vereador antes. Não dá pra pular.

Eu, um pobre mesário convocado em meio a outros milhares para trabalhar nas eleições, rezo para que não exista desta vez um segundo turno. Espero que as minhas preces sejam ouvidas. Ao menos enquanto espero pra ver, posso me lembrar que a Eleição municipal deste ano foi de longe muito melhor do que a eleição para cargos federais, há dois anos atrás. Não houve filas. Não houve espera, nem incidentes. Só mesmo muita falta de esclarecimento, e alguns detalhes que, se melhorados, efetivamente, poderiam fazer com que a ida às urnas, já que obrigatória nesta pseudodemocracia em que vivemos, pelo menos fosse bem mais rápida… Por exemplo: Aqueles cadernos que nós, mesários, somos obrigados a ficar folheando para procurar o nome dos eleitores e seus comprovantes. Nunca achamos o nome de primeira, e, quando a pessoa assina, acaba por vezes assinando no lugar errado. O comprovante também não sai fácil: O picote das folhas nunca é perfeito. Parece algo feito às pressas.

O que eu gostaria de ver implatado seria um sistema com impressora ao lado do terminal dos mesários. O eleitor chegaria, digitaríamos o número do seu título e ele digitaria uma senha que receberia de alguma forma, como por exemplo, através do correio. Assim ele autenticaria a si mesmo, como acontece com os cartões de débito que usamos para fazer compras. Uma vez votando, seu comprovante de votação seria automaticamente impresso pelo dispositivo ao lado do terminal. Fácil e rápido. Mas essa discussão ainda pode levar anos, até que o Governo se decida por algo do gênero.

Mas mudando de assunto, não sei dizer a vocês quantos votos levou hoje, para vereador, o candidato Porrete Onça Pintada. Este candidato de nome não menos esdrúxulo do que os de Xan do Açaí, ou Carolina Costureira, pode ter sido prejudicado pelo famoso (ou não tão famoso) voto de legenda. “— Heeeeeeeein?!”, disse uma eleitora pra nós, quando mencionamos que era possível errar, ainda que não propositadamente, seu voto para vereador, digitando apenas dois dígitos e nãos os cinco esperados. A pessoa vota na legenda, elegendo, caso o partido se sobressaia, algum candidato afiliado ao mesmo. Bobagem. As pessoas não querem eleger legendas. Legenda é coisa de filme estrangeiro, pra fazer a gente entender. Se não tem foto — e os votos em legenda não têm fotos — então não é candidato. Se não tem foto o voto não vale.

Uma pequena confusão se formou por conta de voto de legenda em minha seção, faltando menos de uma hora pro término do pleito, hoje. Uma mulher votou primeiro para prefeito na sua vez, ou seja, acabou votando numa legenda. Depois queria votar para vereador e não conseguia. “— Vocês manipularam o meu voto! Esta urna está errada e eu me senti prejudicada! Vou falar com o Juiz Eleitoral!”. A mulher saiu gritando pelos corredores, dizendo que a foto do candidato dela não apareceu e que a urna da seção estava com sérios problemas, que ela se sentiu lesada e que ia fazer de tudo pra impugnar os votos de todo mundo que já havia votado até então, não só na seção onde eu fiquei, mas na escola como um todo.

Para não me aprofundar muito no caso, aconteceu que ela caiu em descrédito. Quis nos acusar de forçá-la a votar num candidato que não era o dela (vê se pode?!?) e, quando explicou a história ao Coordenador da Eleição na escola onde eu estive, acabou dando o braço a torcer e admitiu que votou em seus candidatos na ordem errada. Mas levou quase 1 hora pra sair da seção, e nesse meio tempo entrou e saiu muitas vezes. Na última delas, até o marido trouxe, pra poder fiscalizar o voto dos outros eleitores. Mas ninguém reclamou de qualquer problema na urna. A nosso pedido, na presença de 5 fiscais de partidos mais o Coordenador, solicitamos a 15 eleitores em sequência que, ao votarem, nos dissessem apenas se as fotos de seus candidatos estavam nítidas e aparecendo. Nenhuma reclamação. Talvez apenas uma tentativa da tal mulher — que alcunhamos de Maria Dedinho, pois negava que tivesse feito qualquer coisa errada sempre com os dedos: “— Eu não fui, eu não fiz nada, a máquina é que está errada!” — de ganhar seus 15 minutos de fama.

Fora esse incidente, a eleição foi mesmo melhor que a outra em que eu participei. Desta vez ganhamos ticket refeição, de R$ 8,00 (ganhar esse valor por dia é que desmerece qualquer trabalho, mas tudo bem), ao contrário de dois anos atrás, quando tive que engolir um macarrão com frango gelado a contragosto. Um filé de frango a milanesa com fritas e creme de milho, regado a suco de maracujá (lei seca, gente!) me caiu muito melhor agora. Também não precisamos montar a urna: Quando chegamos ela já estava prontinha, e quando fomos embora, bastou fechar tudo e deixar na diretoria da escola. Na última eleição os Presidentes de mesa eram obrigados a levar a urna pro ginásio da Associação Esportiva, onde é realizada a apuração.

Pessoas com mais de 70 anos foram até a seção mesmo sem qualquer obrigação legal ainda presente para que votassem: Queriam exercer a paixão pela democracia. E eu não estou dizendo isso só porquê é um post que estou escrevendo: Estou falando isso porquê ouvi da boca de uma eleitora, uma senhora que disse: “— Eu amo meu Brasil e amo ajudá-lo assim, votando”. É com esta paixão que eu digo que as pessoas devem votar, e não obrigadas, por mera força maior. Voto facultativo é que seria bom. Mas disso já falei antes, em outro post. Outros eleitores, com deficiências em maior ou menor grau, foram ajudados por parentes para que pudessem fazer prevalescer suas escolhas. Ponto pra Democracia de verdade, que aí sim vigorou bonita.

Por fim: Me perguntem se eu quero novamente ser mesário e a resposta que ouvirão será automaticamente não, de forma bastante sonora. Mas me alegra ver que as pessoas estão, ainda que muito devagar, tomando consciência das coisas. Uma das encarregadas da eleição escreveu na lousa de todas as classes da escola onde fui mesário: “Bom dia com alegria! Votar é exercer a cidadania”. Apesar da rima soar infantil, traduz bem o sentimento que pude extrair deste meu trabalho forçado. E este, em contra-partida, se junta à outra frase escrita pela mesma pessoa, logo abaixo: “Obrigado, cidadão”. Obrigado, como agradecimento, sim. Mas obrigado, no sentido de forçado a fazer, ainda, infelizmente.

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