Sobre batatas quentes e desafios

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Escrito em 07/11/2018 4 minutos de leitura

Dinâmicas em grupo não são exatamente as atividades favoritas de muita gente que eu conheço. No entanto, devo reconhecer que, em algumas situações elas não apenas vêm bem a calhar, como também nos trazem algum tipo de ensinamento valioso, e é justamente sobre uma destas ocasiões que eu quero falar.

Participei recentemente de um evento organizado por meu gerente, com a presença de todo o seu time. O evento contou com apoio do RH e, quando todas as atividades propostas foram concluídas, pediram que nos organizássemos para formar um grande círculo.

Uma das moças do RH, então, apresentou um “desafio rápido“: Segurando um pequeno embrulho fechado com fita, como se fosse um presente, explicou que aquilo que segurava em suas mãos era uma “batata quente”. Esta “batata quente” representava um desafio, uma tarefa que exigira de quem a recebesse um certo grau de esforço para execução.

Batata quente!

Não nos foi explicado exatamente que desafio a “batata quente” representava, nem que tarefa precisaria ser realizada na frente de todo o grupo: após colocar uma música para tocar, ela nos pediu que fossemos passando o pacote de uma mão para a outra, até que a música parasse. Neste momento, quem estivesse com a “batata” nas mãos cumpriria o desafio, executando sua tarefa.

A “batata” começou a circular: o clima na sala em que estávamos oscilava entre desconfiança, receio e ansiedade, e nenhum participante estava livre de tais sentimentos. O comportamento geral era ficar com o pacote nas mãos o menor tempo possível, já que ninguém tinha certeza do que esperar como resultado daquilo.

Depois de um tempo a música parou. Um de nossos colegas de time ficou com o pacote nas mãos e, quando tentou argumentar que “não tinha terminado de recebe-lo” ou que “já tinha começado a passa-lo adiante”, de nada adiantou. O clima geral se transformou, transbordando o alívio daqueles que se viram “livres” do desafio.

Eis que, já resignado a cumprir a tal tarefa, nosso colega de repente recebe do RH a oferta de uma escolha: se assim quisesse, ele poderia passar a “batata” para quem estava antes dele, ou para o próximo da fila – uma daquelas situações típicas em que alguém diria “parece que o jogo virou, não é mesmo?”. Ele cogitou aquilo por um momento, em que todos ficaram com a respiração suspensa.

“Não, pode deixar comigo. Eu faço a tarefa. Eu cumpro o desafio” – respondeu, para alívio daqueles que estavam imediatamente antes e depois dele naquele círculo, e para espanto de todos os demais. Imediatamente, começou a desembrulhar o pacote. Dentro do pacote, havia uma caixinha pequena. Sem que ninguém mais visse o conteúdo, declarou: “Este é um desafio que cumpro sem problemas: já pedalei bastante neste final de semana, mas ganhei tudo que perdi no domingo, então não é isso que vai fazer diferença”.

Quando ele mostrou o conteúdo da caixa a todos, vimos que o desafio era um bombom.

tarefa era comê-lo.

Se considerarmos o número de vezes nesta vida em que nos deparamos com desafios –impostos por nós mesmos, ou, mais frequentemente, apresentados por outras pessoas ou situações –, o ideal é sempre encará-los com naturalidade.

Em minha carreira me deparei com muitos desafios que inicialmente fizeram com que eu me sentisse pouco corajoso; mas foi justamente quando olhei uma segunda vez, quando vi não apenas o desafio em si, mas as oportunidades de aprendizagem que o acompanhavam, que eu mais cresci profissionalmente.

A história da “batata quente” não levou mais do que 2 ou 3 minutos para acontecer, mas eis aqui o ensinamento valioso que dela tirei: mesmo quando nos sentimos receosos diante de situações que nos tiram da zona de conforto, que representam mudança, perigo ou até mesmo vergonha para nós mesmos, devemos ter em mente que nem sempre encarar um desafio é algo ruim: por vezes você descobrirá seus próprios bombons ocultos, que lhe trarão satisfação, alegria e realização pessoal e profissional enquanto os degusta.

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