em Crônicas do Cotidiano

Quanto vale a bicicleta do meu filho?

No ano passado, quando meu filho mais novo  completou 5 anos e ficou grandinho a ponto de não caber mais no seu berço, ele inevitavelmente nos pediu para comprar uma cama grande, igual à do irmão mais velho. Depois de algum tempo pesquisando, encontramos e encomendamos uma pra ele, em uma loja aqui da cidade.

O problema? Precisávamos nos desfazer do berço, pois berço e cama não caberiam no quarto. E precisava ser rápido, porquê a cama, que estava disponível praticamente a pronta entrega, chegaria em 2 dias.

Assim como muita gente antes de mim, recorri ao site do OLX, já que todo o marketing deles em cima de mim funcionou. O mote parecia uma espécie de earworm (“Desapega, desapega…“) e funcionou: Menos de 2 horas depois de colocado o anúncio, um casal veio aqui em casa para levar o berço.

Desde então, bastou encontrarmos alguma coisa sem mais serventia pra gente aqui em casa que lá vamos nós para o site. Esta semana, pelos mesmos motivos do berço, criei um anúncio para vender a bicicleta do meu filho, já que toda vez que ele a pedalava, ultimamente, batia os joelhos no guidão. E pus essa foto bonitona:

Daí pedi R$ 95,00 por ela. Uma nova está por volta de R$ 350,00, então minha esposa e eu achamos que seria um preço justo.

Dependendo da época do ano — e do mês —, além do tipo de coisa que você está oferecendo, o número de visitas pode ser considerável ou não. Para este anúncio específico, recebi um número razoável delas. Muitas pessoas demonstrando interesse: Em dois casos, inclusive, as pessoas me mandaram mensagem via WhatsApp, dizendo que “mais tarde passariam aqui em casa para pegar“, mas nunca vieram de fato.

Entre as diversas mensagens que eu recebi, uma me chamou a atenção:

— Eu tenho R$ 50. Se você fizer pra mim, vou ai buscar agora.

Agora vejam só: Um amigo de faculdade há muitos anos comentou comigo que em certos países da Ásia, África e do Oriente Médio, como Índia, Arábia Saudita, China, Turquia, Indonésia e Marrocos, é muito comum que existam negociações — às vezes longas, às vezes demoradas, para que vendedor e comprador cheguem a um acordo. Chega a ser, segundo a experiência dele, uma afronta que quem está comprando não faça contra-ofertas.

Loja de tapeçarias, no Marrocos

Mas não estamos em um desses países. E, por R$ 50? Eu não estava desesperado para vender nada, então resolvi esperar. Mais mensagens chegaram, mais pessoas prometeram passar por aqui. Passado mais algum tempo, eis que a mesma pessoa me mandou uma mensagem parecida:

— Olha, eu tenho R$ 70. Posso ir buscar com você?

Vejam só. Uma oferta de maior valor.

Mas as ofertas chegavam e, entre elas, muitas pessoas me pedindo para comprar, pelo valor originalmente pedido pela bicicleta. Então, mais uma vez, decidimos não arredar o pé. Teimosos, mantivemos o preço inicial. E mais uma vez as pessoas não chegavam ao finalmente.

Finalmente, depois de passado mais algum tempo, esta mesma pessoa manda sua última mensagem. Usou sua última cartada, seu último recurso. E me perguntou:

— Você faz por R$ 90? É o que eu tenho.

Então concordei.

Cerca de 16 horas após a publicação do anúncio da bicicleta do meu filho, nós a vendemos por R$ 5 menos do que o preço original. Para mim, foi uma forma de recompensar a insistência do camarada, e também, de passar adiante um brinquedo que, como disse, não tinha mais serventia ao meu filho. Em poucas horas tínhamos tanto comprador quanto vendedor satisfeitos.

Essa história me fez pensar.

A situação, embora transcorrida quase que exclusivamente de forma eletrônica, me lembrou de quando eu era pequeno e íamos à praia, em Ubatuba: Meus pais ficavam sempre em suas cadeiras debaixo de um guarda-sol e, quase que invariavelmente, vinha um vendedor de redes negociar com meu pai para que ele comprasse uma delas.

Eu admirava aquele bate-papo entre o vendedor e o meu pai: Como algumas pessoas sentem prazer em negociar, mesmo que no final talvez não concretizem uma venda. Meu pai levou algumas redes pra casa ao longo dos anos. Outras vezes, não levou nada. E seja como for, essa história de vender a bicicleta do meu filho me trouxe esta lembrança.

No meu caso, embora não tenha feito grande concessão de valor, senti-me, de certa forma, transportado à lembrança do meu amigo de faculdade anos atrás: A de estar em um mercado a céu aberto, num país do Oriente Médio.

Curti.

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