em Crônicas do Cotidiano

Se você não sabe o que fazer com a cebola, jogue-a fora

Primo Levi

Primo Levi, químico e escritor italiano que sobreviveu ao Holocausto após ter sido prisioneiro em Auschwitz-Birkenau, escreveu em seu livro A Tabela Periódica uma história sobre a época em que trabalhou em uma fábrica de verniz.

Como ele era químico, ficou fascinado pelo fato de que a receita do verniz solicitava que, além da inclusão dos diversos elementos químicos já esperados, fosse também acrescentada uma cebola crua.

Para que serviria ela? Ninguém soube lhe responder. Só sabiam que era parte da receita.

Então ele resolveu investigar, e eventualmente descobriu que alguém tinha acrescentado a cebola anos antes, para verificar a temperatura do verniz — se estivesse quente o suficiente, a cebola fritaria.

Na época em que ele se deu conta disso, tecnologias mais avançadas — como os termômetros — fizeram com que jogar a cebola no verniz se tornasse desnecessário. Mesmo assim, as pessoas seguiram fazendo isso, pois se habituaram ao ingrediente, e deixaram de questionar.

Se está ali, é porquê deve estar certo.

Ao tomar conhecimento, quase que por acaso, da história contada por Primo, me pus a refletir. A primeira reflexão se deu no âmbito profissional — eu trabalho atualmente, de certa forma e em grande parte, com mapeamento e otimização de processos. Vejo as pessoas lidando com cebolas em seus vernizes o tempo todo, e o que é pior: Elas não se dão conta de que as cebolas podem não ser mais necessárias, e que, eventualmente, podem — e devem — ser substituídas.

Experimente olhar para um fluxograma. Observe as etapas ali descritas. Questione-se se ali, por acaso, não existem cebolas no verniz. Garanto que o exercício valerá   pena.

Finalmente, o texto de Primo Levi também é válido para o âmbito pessoal. Quantas não são as cebolas nos vernizes da vida? Quanto bem nos faria nos livrarmos delas, não é mesmo? E não se engane: Todos nós temos pelo menos uma cebola em nossas receitas de verniz. Eu garanto.

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