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O Twitter está desrespeitando seus clientes

Aplicativos para Twitter terão limite de usuários

SÃ?Æ?O FRANCISCO ââ?¬â?? Em uma medida para regular como os usuários acessam seu serviço de microblogs, o Twitter anunciou novas restrições que desencorajam fortemente produtores de software independentes de criar aplicativos para a plataforma.

Sob as novas regras, produtores independentes de software que criarem novos aplicativos para o Twitter terão permissão para terem um máximo de 100 mil usuários. Os atuais aplicativos com mais de 100 mil usuários poderão dobrar a base antes que o serviço imponha um limite rígido.

O trecho de notícia que citei acima, publicado na sexta-feira (17) pelo Link, do Estadão, me fez pensar em duas coisas:

  • Primeiramente que, como usuário do Tweetbot, para mim, na atualidade, o melhor cliente de Twitter da paróquia, talvez eu deva começar a me preocupar, agora que softwares como este estão literalmente na mira do Twitter.
  • Em seguida, sobre uma frase que um amigo meu sempre diz: Na briga do rochedo com o mar, quem sempre se dá mal é o marisco. Nada mais verdadeiro do que isso para expressar esta situação, e eu explico o porquê disso.

Houve um tempo em que o Twitter não tinha seus próprios aplicativos. Tratava-se do website do serviço, e olhe lá. Ao longo do tempo, isso criou um verdadeiro nicho de mercado para todo e qualquer desenvolvedor que quisesse criar mecanismos e maneiras de interagir com o Twitter, através de sua API.

De qualquer forma, o que expus acima leva ao fato de que, atualmente, é praticamente impossível dizer quantos clientes para Twitter existem — bem, pelo menos eu não conseguiria responder   esta pergunta: Se eu me basear apenas na quantidade deles que usei ao longo dos anos tanto nativamente no Windows, ou na web, e, ainda mais recentemente, no iPhone, eu diria que dezenas. Mas centenas, talvez milhares, também seria um bom chute.

A decisão do Twitter, informada pela notícia que citei no início deste meu texto, simplesmente fecha as portas do serviço para quem até hoje, a meu ver, ajudou aquele que é o serviço de microblog mais popular do mundo a, justamente, se tornar o mais popular do mundo. Na prática, é uma punhalada pelas costas.

No entanto, como não sou um desenvolvedor que depende da API do site — e sim um usuário destas ferramentas agora em check, devo dizer que o meu motivador para escrever este texto é justamente este lado da moeda. Como na frase que mencionei, dita sempre por este meu amigo, nós, usuários, somos os mariscos.

Sim, pois somos os clientes do Twitter. E, deixe-me dizer que acredito que, neste episódio, o Twitter está deixando de ouvir seus clientes.

Antes de continuar com meu raciocínio, deixe-me dizer que também é difícil dizer quantas pessoas usam clientes de Twitter que não sejam os oficiais. No entanto, em busca de uma resposta para isso, acabei me deparando com um artigo de julho de 2012 — recente, portanto,   época em que escrevo este texto —, escrito por Benjamin Mayo, de onde resolvi plotar o seguinte gráfico, baseado em observações do autor após analisar os aplicativos originadores de 1 milhão de tweets:

Como se pode ver, é fato que 71% dos usuários do Twitter atualmente usam os aplicativos e canais oferecidos pelo próprio serviço de microblog. O meu favorito, por exemplo, está apenas na décima quinta posição, usado para originar parcos 1% do volume de tweets analisados pelo Benjamin.

Ainda assim — e agora é hora de retomar o raciocínio —, porquê é que os outros 29% de usuários preferem outros aplicativos aos oferecidos pelo Twitter? A resposta é realmente muito, muito simples: estes aplicativos oferecem a esta parcela de usuários maneiras de interagir com o Twitter que o próprio Twitter ignora.

Exemplifico esta questão comigo mesmo: Eu uso o Tweetbot porquê, para mim, é o que tem a melhor e mais bonita interface gráfica. Além disso, minhas listas se transformam na própria timeline a um toque de dedo. Outras pessoas podem achar que recursos como filtros ou a capacidade de dar mute em alguém ou algum serviço é o que existe de mais importante — quem, afinal, realmente quer saber de todos aqueles check-ins no Foursquare?

A briga entre o quartel-general do Twitter e os desenvolvedores que até agora tanto haviam contribuído para que o serviço fosse enaltecido poderia ter sido evitada — poupando muito mariscos como você e e eu, se pelo menos uma destas duas coisas fosse levada em consideração:

  • Observando a proliferação cada vez maior de clientes para Twitter, a empresa de Ev Williams poderia ter encomendado uma pesquisa de satisfação de mercado, solicitando que os usuários lhe informassem porquê preferiam thrid parties ao invés do software oferecido pelo próprio Twitter. Respostas como as que citei dois parágrafos acima certamente guiariam os desenvolvedores, que, se quisessem mesmo nos agradar, incorporariam uma interface mais agradável aqui, ou um filtro diferenciado ali. Assim, os desenvolvedores terceirizados veriam suas funcionalidades mescladas  s aplicações do próprio Twitter, e estas eventualmente se fundiriam, sem prejuízo do ponto de vista dos usuários.
  • O acesso   API do Twitter poderia ser cobrado. Ao impor uma taxa para que os desenvolvedores extraíssem suas informações, o Twitter poderia continuar despreocupado, caso sua intenção não fosse incoporar ele próprio estes anseios dos usuários, descobertos através da mesma pesquisa de satisfação.

A grande questão, no final das contas, é que todos estes anseios dos usuários que hoje são capturados justamente pelos desenvolvedores que criam os clientes third party sabendo que o Twitter não lhes dá ouvidos, provavelmente deixarão de ser coletados, já que novos entrantes agora são desencorajados a entrar, e os players já existentes tendem a sofrer limitações futuras em suas bases de usuários, colocando a continuidade do negócio em check. As idéias dos usuários são combustível para inovações interessantes, mas, com o Twitter declarando com todas as letras que não precisa mais de quem um dia foi tudo o que eles precisaram, estamos mesmo correndo o risco de ficar na mão.

Se você tem uma opinião diferente, comenta aí 🙂

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