em Crônicas do Cotidiano

Au revoir, sacolas plásticas

Uma das lembranças mais vivas que eu tenho dos tempos em que eu era criança é que, quando ia   feira ou ao mercado, minha avó levava consigo pelo menos um de seus fiéis escudeiros — o carrinho de compras ou a sacola de feira, feita de nylon xadrez e com alça revestida de borracha em forma de tubo.

Nas vezes em que eu a acompanhava, aliás, me lembro de ajudar a colocar frutas, verduras e legumes no carrinho, sempre tomando o cuidado de deixar as coisas mais pesadas, como laranjas, limões e melancia, na divisória inferior. Se era com a sacola que ela ia, eu me oferecia para carregá-la se estivesse muito pesada.

A lembrança que eu tenho é de uma época já mais de 20 anos distante, uma época em que ir ao supermercado significava encontrar empacotadores trabalhando, sempre a postos para nos ajudar a guardar as compras em sacos de papel marrom timbrados com o logotipo das lojas — particularmente, achava o máximo os sacos do Jumbo Eletro, com seus elefantinhos azuis.

Com o passar dos anos, sacos de papel marrom, carrinhos de feira e também as sacolas de nylon como as que a minha avó costumava usar foram substituídas por sacos plásticos, sobretudo em supermercados. Não só os sacos plásticos foram deixando seus antepassados para trás, como também passaram a ser utilizados de maneira alternativa quem nunca usou um saco de supermercado como saco de lixo que atire a primeira pedra.

Deste ponto até chegar  s cenas que muitas vezes vemos nos telejornais e outras mídias, em que ambientalistas alertam que as sacolas de plástico são prejudiciais ao meio ambiente, é apenas um pequeno passo. Aliás, não é novidade que, movidas por esta questão, diversas cidades brasileiras passaram a criar legislações proibindo o uso das sacolas plásticas em supermercados, sempre esbarrando no fato de que tais leis são atualmente consideradas inconstitucionais em nosso país, ainda que se esteja pensando no bem estar da humanidade e do mundo como um todo.

Mas, como também bem dizia minha avó, quando uma coisa tem que ser, ela será.  A partir da quarta-feira que vem, dia 25 de janeiro, cerca de 80% dos supermercados do estado de São Paulo deixarão de oferecer sacolas plásticas como alternativa a quem visita suas lojas. Consumidores precisarão trazer caixas de papelão e sacolas retornáveis  s compras, e, porquê não, carrinhos e sacolas de feira exatamente iguais  s que a minha avó usava. A diferença é que a iniciativa não será desencadeada por uma lei, e sim, por um acordo feito entre o governo do estado e a Associação Paulista dos Supermercados (APAS), sendo assim, voluntária a adoção da medida pelas lojas.

Graças a essa adoção voluntária, por sinal, uma das coisas que deve passar a acontecer é a cobrança de um valor de cerca de R$ 0,20 por sacolinha plástica que alguém ainda queira levar para casa. Por mais estranho que isso possa parecer, a coisa não é novidade. Me lembro de visitar uma das lojas do Carrefour quando estive na França, em 2010, e por lá ver exatamente isso acontecendo — quem não tinha sacola retornável, ou levava as compras na mão, ou pagava por elas. Nem mesmo no Brasil isso é novo: O modelo é empregado há anos nas lojas do Sam’s Club, cadeia de atacado da mesma rede do Walmart.

Podem até dizer — como já dizem — que iniciativas como esta não são nada perto do problema geral, da situação como um todo. Pode bem ser verdade, mas o que foi que já mudou sem que ninguém fizesse nada? Anos atrás, também na época em que minha avó fazia compras, o cinto de segurança não era obrigatório e as mortes no trânsito atingiam números muito maiores do que hoje em dia. Apenas após muita conscientização a coisa mudou. Pode ser assim também no caso das sacolas de plástico.

O que é certo é que grandes redes de supermercado como Pão de Açúcar, Extra, Carrefour e Walmart farão sua adesão   iniciativa. Aqui em São José dos Campos, aliás, a coisa tem sido anunciada não apenas em suas lojas, mas também através de campanha publicitária realizada no rádio, com o slogan Vamos Tirar o Planeta do Sufoco. Para mim, toda essa movimentação traz justamente esse saudosismo, essa lembrança da época em que ia  s compras quando criança, e já me faz, também, levar ao supermercado minhas caixas de papelão e sacolas retornáveis. Quem sabe assim eu contribuo para mudar o mundo, um pouquinho de cada vez?

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