em Couch potato

Você não entendeu “A Origem”?

Há alguns minutos terminei de assistir “A Origem” (Inception, 2010), filme dirigido, produzido e escrito por Christopher Nolan, que, caso você não saiba, é a mesma mente por trás dos filmes Batman Begins e The Dark Knight, ambos sobre o homem morcego. Sei que o filme já está por aí há um certo tempo agora — estreiou em julho do ano passado, mas resolvi escrever este texto não exatamente para fazer uma review a respeito, mas sim para registrar pensamentos próprios que não quero que se percam.

Porque?

Meus pais, que viram o filme há poucos dias em casa, acreditem, simplesmente dormiram durante a exibição — e não quiseram saber mais dos acontecimentos, depois, porquê classificaram a história como sendo chata. Para tentar provar o contrário, e visando (tentar) auxiliar quem também tenha a mesma opinião, ou tenha ficado perdido no meio do caminho, criarei, baseado em meu próprio entendimento da história, este texto.

E agora, vamos ao que interessa.

— IMPORTANTE: Não leia se você ainda não viu o filme.

Todo mundo sabe que existe o mundo real — este, em que você está lendo este texto, e o mundo dos sonhos. O mundo real é o que conhecemos, regido por muitas leis naturais que, por exemplo, nos impedem de sair voando por aí como se fôssemos o Superman, coisa que seria completamente plausível no mundo dos sonhos. Ou seja, o mundo dos sonhos é aquele em que podemos ser, como já dizia o sábio Peter Collins, presidentes de nossas vidas, sendo livres para criar e imaginar coisas a nosso bel prazer, tendo ideias mirabolantes e fantásticas, ideias que eventualmente podem acabar nos levando longe na vida quando falarmos delas para nosso chefe, amanhã, no trabalho.

Pois bem. Imaginem que você tem uma ideia destas, chega no trabalho no dia seguinte, e encontra Dom Cobb (interpretado por Leonardo DiCaprio), o protagonista do filme. Imagine que Dom Cobb é seu colega de trabalho. Você comenta com ele sobre a ideia que teve, e ele é o primeiro a dizer que ela não é boa, que não presta, e que, aliás, é melhor você parar de sonhar e voltar ao trabalho, porquê o chefe te mataria só em começar a ouvir o que você teria a dizer, de tão ruim que a coisa é. Depois de muito ouvi-lo, você se convence, e volta para a sua mesa. Mas ele pega sua ideia, e, no primeiro momento em que tem oportunidade, vai ele   mesa do chefe, e diz que a ideia é dele. Ele é promovido, e você não.

A Origem tem esta premissa inicial. Com a diferença de que Dom Cobb não é seu colega de trabalho. Ele é um ladrão, contratado por grandes corporações mundo afora, e, também, ele não espera que você diga a sua ideia para roubá-la. Ele simplesmente desenvolveu um método para entrar no seus sonhos, encontrar a ideia, e pegá-la. Para isso, ele primeiro te nocauteia, com algum sedativo fortíssimo, e te faz dormir. Depois, usa alguns dispositivo tecnológico altamente complexo, e faz com que você comece a sonhar. Aliás, este dispositivo é tão bacana que permite que ele entre no seu sonho — na prática, ele pode dar uma voltinha no seu subconsciente, pegando a sua ideia e entregando para seu competidor — avez-vous compris?

Acontece que um empresário poderosíssimo, o Senhor Sato (interpretado por Ken Watanabe), procura por Dom Cobb. Querendo acabar com seu principal rival no mundo dos negócios, Maurice Fischer (o ator Pete Postlethwaite), Sato pede a Cobb que trabalhe pra ele, mas fazendo algo diferente do que vinha fazendo até então. Ao invés de extrair ideias da cabeça das pessoas, ele quer que o moço implante uma ideia na cabeça do filho de Maurice, Robert Fischer (papel de Cillian Murphy) — fazendo com que ele se convença a desmantelar completamente o império do pai, que está para morrer de uma doença grave, a qualquer momento.

Cobb reluta inicialmente, mas acaba sendo convencido a tentar fazer o implante, porquê Sato, um homem muito influente nos Estados Unidos, promete   Cobb que, se ele tiver sucesso em implantar a ideia, usará suas conexões para livrá-lo das acusações que pairam sobre ele quanto ao assassinato de sua esposa, Mal Cobb (interpretada pela atriz Marion Cotillard), fazendo com que ele possa voltar ao seu país, de onde fugiu, para rever seus filhos, que deixou para trás ainda pequenos.

Ocorre que Dom não matou sua esposa, afinal — já hábil na prática de manipular sonhos, ele na verdade criou para si e para a esposa um mundo perfeito, um mundo dos sonhos. Os dois passam a ficar cada vez mais tempo sonhando, e Mal se convence, erroneamente, de que o mundo dos sonhos, criado por Dom, é na verdade o mundo real. Ela não quer voltar para a realidade. Dom então implanta na esposa a ideia de que o mundo em que os dois estão vivendo não é mundo real, e que a única forma de saírem dali e voltarem para seus filhos é morrendo. Eles se deitam juntos na linha do trem, e quando o trem passa por cima deles, eles acordam do sonho. Mas Mal acorda e continua achando, graças   ideia implantada pelo marido, que aquele não é o mundo real: Ela acaba se suicidando, ao se jogar da janela de um prédio, e a culpa do acontecido acaba recaindo sobre Dom.

Ou seja: A motivação de Dom para fazer o serviço é dupla — voltar para seus filhos depois de tanto tempo, e saber que a coisa pode ser feita, porquê usou a própria esposa como cobaia anteriormente.

Dom monta uma equipe para realizar o serviço, que é praticamente impossível, porquê implantar uma ideia no subconsciente de alguém significa ter que realizar três níveis compartilhados de sonho. Para obter sucesso ele monta uma equipe em que estão Arthur (Joseph Gordon-Levitt), seu braço direito e armador, Eames (o ator Tom Hardy), um falsificador capaz de mudar a aparência dentro dos sonhos, Yusuf (interpretado por Dileep Rao), um químico que formula sedativos, e Ariadne (a atriz Ellen Page, que também foi a Kitty em X-Men), uma estudante que ele e Arthur treinam para criar os cenários dos sonhos. Ariadne aprende com Cobb, entre outras coisas, que quando se manipulam sonhos, é necessário ter consigo um totem — objeto pessoal que apenas o dono conheça, e que possa ser usado para diferenciar entre o que é realidade e o que é sonho. O totem de Cobb é um pequeno pião dourado, que pertenceu   sua esposa: Quando ele gira sem parar e nunca cai, Cobb sabe que está sonhando. Se o pião cai depois de girar um tempo, Cobb sabe que está no mundo real.

Quando Maurice Fischer morre na Austrália, os membros da equipe acabam entrando junto com seu filho Robert no voo que leva o corpo do pai para os Estados Unidos. Ali, a equipe consegue sedar o moço, e iniciar o processo de implante da ideia em sua mente. Mas para isso, terão que criar três níveis de sonho. Neste ponto, é importante que fiquem claras duas coisas:

  1. Robert, o filho do empresário, em que querem implantar a ideia, nunca é quem está sonhando — ao invés disso, ele compartilha o sonho de alguém. No primeiro nível, um sonho de Yusuf, em uma cidade chuvosa. No segundo nível, o sonho de Arthur, em que todos estão num hotel. Finalmente, no terceiro nível, todos estão em uma fortaleza na neve, compartilhando o sonho de Eames. Há ainda um quarto nível, o limbo, em que ninguém está sonhando — porquê é um estado compartilhado. O limbo é perigoso, porquê se ficar muito tempo ali, a pessoa pode ficar presa para sempre.
  2. Ao entrar em cada nível de sonho, o sonhador permanece acordado (no primeiro nível, por exemplo, quem fica acordado é Yusuf, dirigindo uma van). Os outros dormem, compartilhando o sonho de um novo sonhador (neste caso, Arthur), os levando a um nível de sonhomais profundo. A pessoa que fica em cada nível de sonho é responsável por produzir um chute — que nada mais é do que um evento brusco, que provocará interferência em todos os níveis de sonho, avisando quem ali estiver que é hora de morrer no sonho, já que morrer faz com que você volte de um nível para o nível imediatamente superior: Voltar do primeiro nível significa acordar para o mundo real, ou, na prática, acordar pra vida.

Para resumir essa recursividade dos sonhos, basta dizer que, conforme a equipe obtém sucesso em descer a vários níveis do subconsciente, implanta com sucesso a ideia de desmantelar o império de Maurice Fischer na mente de seu filho, Robert. Assim, chute após chute, todos regressam para o mundo real — aquele, em que estão todos no avião, lembram?

O senhor Sato cumpre o prometido e usa seus contatos para fazer com que Dom Cobb passe sem maiores problemas pela alfândega norte-americana. Ele está finalmente livre para poder reencontrar seus filhos, e vai para casa vê-los. A grande questão se dá aí: Após chegar em casa e enquanto espera por eles, Dom coloca seu totem — o pião — para girar, buscando determinar se está sonhando ou não. Acontece que ele é distraído pelas crianças, que vai abraçar, e não chega a nenhuma conclusão.

Aparecem os créditos finais. O filme acaba.

Cheguei   conclusão de que A Origem é por vezes cansativo para quem assiste porquê os acontecimentos dos níveis de sonho parecem estar se misturando — embora estejam acontecendo, no melhor estilo de um episódio de 24 horas, em tempo real. Felizmente, se mesmo após esse texto você ainda não entendeu muita coisa, um vídeo no You Tube, que demonstra isso, pode ser a salvação. E se você prefere dar uma olhada em uma figura, esta aqui, abaixo (que tirei daqui) pode te ajudar também:

E é assim, meus amigos, que termino o texto: O fato de a tela escurecer com os créditos do filme começando a aparecer enquanto aquela imagem do pião girando fica em nossa memória realmente serve para abrir a questão a interpretações. A minha, sinceramente, é de que Dom Cobb conseguiu — voltou   realidade, e finalmente foi feliz, deixando para trás um passado em que se culpava pela morte da esposa — senão pelo ato, pela ideia implantada em sua mente.

Apesar da complexidade, um filme brilhante.

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Comentário

  1. Esse filme é muito maneiro. Quando assisti fiquei louco imaginando várias coisas.

    Uma das coisas que achei mais legal no filme foi a questão do tempo. Por exemplo: No mundo real 1h era equivalente a 8h no primeiro nível, dias no segundo, meses no terceiro e o quarto parecia a eternidade.

    • Você tem razão, Coeli. Tanto é que, no estado de “limbo”, a pessoa poderia ficar presa indefinidamente. Horas? Dias? Semanas? Meses? Anos? Seria horrível, pense bem.

      Abração!!

  2. A teoria que “explodiu meu cérebro” (aliás, no Nerdcast) foi a de que tudo, inclusive o que os personagens chamam de plano/mundo real, é parte de um sonho. Há vários indícios: o fato do DiCaprio viver fugindo e em missões perigosas (coisa com a qual sempre sonhamos), a justificativa pífia para ele não poder ver os filhos, e, no começo do filme, aquela parte na qual ele fica enroscado no beco (tipo de coisa muito comum quando estamos dormindo).

    De qualquer forma, é um filmaço. Na minha listinha de filmes de 2010, só ficou atrás de “The Social Network”.

    []’s!

    • Ghedin, a abertura que nos é dada ao final do filme permite tal interpretação: E a genialidade está justamente neste ponto — realmente, é um filmaço.

      Agora ainda preciso ver a história do criador do Facebook, pra saber se supera esta. Depois, com o filme assistido, comento a respeito.

      Abração!