em Crônicas do Cotidiano

Unificar a língua portuguesa não vale o esforço

Eu costumo comentar com amigos, de vez em quando, que nós brasileiros podemos nos considerar pessoas abençoadas pelo simples fato de sabermos falar a língua portuguesa. Sempre digo isso porquê nunca considerei nosso idioma — falado por mais de 230 milhões de pessoas em 9 países em que é o idioma oficial — um idioma fácil de se aprender.

Não é preciso que eu diga. Por mais que eu acredite que emprego bem a escrita do português, por exemplo, há certas frases e palavras que me causam dúvidas tão grandes que muitas vezes penso em não utilizá-las. Na mesma medida, todos nós sabemos o quanto compreendemos e empregamos bem o idioma, e que para qualquer número de pessoas que consideremos que falem ou escrevam bem em nossa língua, haverá um número pelo menos três vezes maior de pessoas que a falam ou escrevem mal. Isso acontece porquê as regras são inúmeras, e nem sempre nos lembramos de todas elas.

[flv:http://danielsantos.org/midia/EFCGJ_T_831618_flvbl.flv 480 368]

Tendo falado sobre estes pontos, me sinto obrigado a comentar que, desde o último dia 23 de maio, quando foi ao ar a reportagem do Jornal Nacional que eu reproduzo acima, anunciando a unificação da língua portuguesa em quatro países membros da CPLPPortugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe — que eu estou deveras incomodado com esta questão. Assim como citado na tal reportagem, numa língua tão rica como a nossa, em que as dúvidas são mais do que normais, qual será o impacto de termos que reaprender a escrever? Mais importante ainda, será que vale o esforço?

Segundo o meu entendimento da questão, os signatários desta unificação do idioma estão defendendo tal proposta basicamente para facilitar a compreensão do idioma de maneira global.

É realmente verdade que há diferenças entre algumas palavras do português, dependendo de onde ele é falado. Um amigo meu lá do trabalho, por exemplo, que teve a oportunidade de trabalhar para uma empresa portuguesa, sempre nos diverte citando uma série de diferenças entre as palavras lusitanas e as brasileiras. O pequeno almoço, o puto — que em Portugal designa uma criança pequena — e as letras e gue, que por aqui são o jota e o , respectivamente, são exemplos dessas diferenças entre as palavras do português falado em Portugal e o português brasileiro.

Para mim, no entanto, apesar de correr o risco de parecer simplista, estes exemplos são apenas regionalismos. O que eu quero dizer é que, para mim, o português brasileiro difere do português lusitano na mesma medida em que há diferentes palavras e expressões — menino e guri, calçada e passeio — dentro do próprio Brasil.

E como unificar estes regionalismos para facilitar a compreensão universal do português será impossível, o foco da medida que foi aprovada e deve entrar em vigor por aqui a partir de 2009 é nas diferenças de fonética e léxico das palavras. Com relação  s mudanças no Brasil eu acho que já passava da hora dessas:

  1. Cai o trema. Que bom, já vai tarde. O que eu já vi de gente que escreve tranquilo e linguiça ao invés de tranq¼ilo e ling¼iça garantirá que a regra seja cumprida por uma grande parcela da nossa população que, no final das contas, agradece pela oficialização do desuso de um sinal gráfico desses, que está na berlinda há tempos.
  2. Passam a fazer parte oficialmente do alfabeto as letras K, W e Y. O alfabeto passa a ter 26 letras. Essa também é uma regra, para mim, criada com a finalidade de cumprir tabela. Já temos nomes próprios com essas letras, e gente usando K, W e Y adoidado.

No entanto, me incomodam o fim do acento agudo nos ditongos abertos oi e ei — idéia e heróico viram ideia e heroico —, o fim do acento circunflexo em palavras com duplo o e evôo e vêem viram voo e veem — e até mesmo a mexida nos acentos diferenciais — aqueles que servem para mostrar que para e pára são coisas distintas — e nos hífens.

Esse meu incômodo parte principalmente do fato de que já usamos grafias diferentes há praticamente cinco séculos, e, se a questão é unificar, deveriam ser aceitas todas as formas de se escrever em português já existentes. Parece bobagem, porquê na prática ficaria tudo igual, mas basta pensar que hoje, apesar das pequenas diferenças, qualquer brasileiro consegue pegar um livro escrito em Portugal, lê-lo e entender o que se passa, e vice-versa.

Me senti mais tranq¼ilo ao ouvir ontem, enquanto ia para o trabalho de carro, que o escritor Ruy Castro, jornalista que colabora como colunista da Band News FM de São Paulo, vai ao encontro de alguns desses pontos que eu citei, e ainda por cima compartilha de outro incômodo que tenho. A seguir eu disponibilizo esta coluna dele.

[audio:http://danielsantos.org/midia/Ruy_Castro_Band_News_FM_030608_reforma_lingua_portuguesa.mp3]

Já que é inevitável, Portugal — onde apenas 1,6% das palavras devem ser alteradas — pediu vários anos para se adaptar   unificação, enquanto que, por aqui, pedimos apenas um ano e meio. Isso significa, como diz o Ruy, que alguém deve estar pensando em faturar em cima dos montes e montes de dicionários e livros que deverão ser inutilizados para que as novas regras possam começar a valer, pelo menos por escrito.

O fato é que, mesmo que alguém queria relevar essa minha última colocação porquê pode parecer muito com uma teoria da conspiração, continuo achando essa unificação uma coisa desnecessária. Talvez não para as gerações futuras, mas, por ora, para a média da população brasileira, já tão carente de cultura em geral, será um obstáculo a mais a ser superado na comunicação, representado nesta medida que necessitará de investimentos que poderiam estar sendo realizados em outras carências que bem sabemos serem bem mais importantes do que esta.

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Comentário

  1. Escuto sobre essa unificação, ou então essas alterações no idioma desde a 4ª série… então não estou muito preocupado…
    E outra quem comanda o jeito de falar e escrever é o povo, não adianta criarem leis, só mudará se o povo quiser.
    Mas as alterações que tu mencionou no fim do texto, são ótimas, que venham o mais rápido possível!!!
    Abração

  2. Daniel! Seu post é muito pertinente, e tenha certeza: esta discussão vai muito longe. Se você está preocupado com o seu conhecimento na língua portuguesa, imagine editores e redações, que precisam readaptar seu léxico de acordo com as novas convenções gramaticais. Algumas delas bem mais absurdas que a queda do trema ou hifens. Vai por mim: mesmo quem está envolvido diretamente com estas modificações sabe exatamente o que está fazendo. Mais do que desnecessária, essa história é completamente perturbadora. Abração!

  3. Realmente, esta é uma bobagem sem tamanho, incrível mesmo. O inglês dos Estados Unidos e o da Inglaterra têm lá suas diferenças, nunca ouvi ninguém reclamar disso, e mesmo assim os dois países têm ótimas relações e não sei de nenhuma discussão deles acerca de uma unificação.

    Eu fico imaginando qual é a reação do pessoal lá da terrinha.

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  • Rodrigo Carniel 20/06/2008

    "e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes" http://migre.me/63B poema perfeito (apaixonado!? não, SÉRIO!) Boa noite