em Crônicas do Cotidiano

A minha urna eletrônica

Certo. Os resultados do referendo já estão completamente apurados, e os brasileiros já disseram não, ou seja, não se poderá proibir o comércio de armas de fogo nem de munição no território nacional. Nesta vitória da democracia, apenas uma coisa já era certa desde antes mesmo do conhecimento do resultado final: As urnas eletrônicas, eternas aliadas da população, ajudariam os brasileiros — fossem eles meros eleitores ou mesários — a tornar as coisas muito mais rápidas e simplificadas.

Foi pelo rápido processamento de votos das urnas eletrônicas que ficamos sabendo o resultado do referendo tão rapidamente. Mas alguém já pensou que máquinas são essas que, desde 1995, ocupam as seções eleitorais e ajudam os brasileiros? A UE2000, modelo de urna em uso atualmente, foi homologada pelo governo desde 2000 e tem como principal função a coleta de votos e seu armazenamento, permitindo posteriormente sua transmissão. Sendo um computador, conta com memória de 256Mb, monitor de LCD, saída de áudio e interfaces USB, serial, PS/2, CompactFlash e Smart Card. Além destas especificações, conta ainda com teclado resistente a queda com inscrições em braile para auxílio aos deficientes visuais, bem como uma impressora térmica embutida e uma bateria interna que permite seu uso initerrupto por até 12 horas consecutivas — muito mais do que a duração de uma eleição.

Trata-se de uma obra prima criada 100% em território nacional: uma excelente ferramenta, sem sombra de dúvida. Qualquer brasileiro, seja lá qual for seu grau de instrução ou de familiaridade com computadores, pode operá-la com toda a facilidade. Mas mesmo assim, acho que algumas novidades já passaram da hora de serem implementadas. E em toda eleição que trabalho como mesário vou levantando uma ou outra idéia que acho que o governo deveria implantar para melhoria do equipamento.

Vou esclarecer que idéias são estas, compartilhando todas com vocês.

Impressora. A única impressora que o modelo UE2000 possui é a que se usa para impressão da zerésima — documento que comprova que a urna está sem nenhum voto gravado antes do início de qualquer pleito eleitoral, seja ele referendo ou eleição. A impressora entra em ação quando o computador é ligado, e também no instante em que a eleição é encerrada e relatórios de sumarização de votos e de formulários de justificativa devem ser impressos.

Acredito que a impressora também deveria ser empregada para a impressão de comprovantes de votação. Hoje estes comprovantes vêm em cadernos espiral, que um dos mesários deve folhear antes de destacá-los, de acordo com o eleitor que acaba de votar. Muitos dos comprovantes são picotados ou rasgados, o que é errado. Isso se deve ao fato do picote destes cadernos nunca estar em bom estado de uso. Se a impressora pudesse liberar um comprovante diretamente para o eleitor, este teria um documento em mãos, provavelmente com o número do seu título e nome impressos, bem como zona, seção e o registro do voto realizado. Seria como um extrato bancário, para controle. Assim, as chances de fraude diminuiriam muito, o eleitor teria algo em mãos para reclamar seus direitos caso se sentisse com esta necessidade, e o trabalho de pelo menos um mesário seria dispensável.

Som. Como contém saída de áudio, inclusive com controles de volume, a UE2000 poderia ter um fone de ouvido acoplado. Quando a urna estivesse liberada, o eleitor poderia utilizá-lo para ouvir as instruções sobre o voto que estivesse prestes a realizar. Assim, não restariam dúvidas a respeito do que precisaria ser feito e todos sairiam ganhando. A população com menos acesso às informações, muito mais ainda.

Digo isso porquê não houve uma só eleição em que, liberada a urna para um eleitor, eu não tivesse ouvido a quantidade de digitações que a pessoa pode vir a fazer. Tomemos por exemplo o próprio referendo. Mesmo com um espaço único delimitando um único digito, ouvíamos as pessoas digitando um número, depois outro, e outro ainda. Três dígitos para um espaço de apenas um. Ao final de um tempo, pressionavam a tecla verde, para confirmar. Alguns diziam ter errado o voto, outros, nada comentavam. Com instruções em áudio disponíveis, tudo isso seria muito menos problemático.

Fila. Se cada título de eleitor tivesse uma tarja magnética, tal qual ocorre nos CPF’s mais modernos e em alguns outros tipos de documento, poderia-se implantar uma leitora no terminal que fica com os mesários. O mesário pegaria o título de um eleitor, passaria o mesmo pela leitora e esta armazenaria seu número. Cada eleitor que chegasse teria o título submetido à leitora, formando uma fila.

Conforme a urna fosse sendo liberada, o eleitor seguinte passaria a ter a vez de votar. Assim, independente do número de eleitores na fila, todos estariam devidamente cadastrados e só precisariam aguardar sua própria vez de votar. Hoje, como o processo de digitação é manual e só permite que um título seja liberado por vez, acabamos com um processo que demora mais do que o necessário. Como cheguei a comentar com um amigo, uma leitora de tarjas magnéticas na UE2000 faria com que a chamada de cada eleitor não fosse realmente diferente de esperar por uma refeição de restaurante, sentado em um banco de shopping, ou aguardar o atendimento em fila de banco.

Biometria. Este é o meu assunto favorito. Sempre comento algo sobre biometria, a ciência que permite usar uma parte do corpo, como a retina ou os polegares, para identificação do usuário de um sistema de computadores. Tal como o Detran já faz atualmente para controlar a freq¼ência de alunos em seus cursos obrigatórios, um leitor de impressões digitais faria com que o simples pressionar de um dedo do eleitor no equipamento o identificasse rapidamente.

Isso impediria o voto duplo, ou a troca de identidade, motivos de fraude atuais. Também impediria que eleitores de qualquer idade esperassem muito tempo em filas. Afinal de contas, o uso de impressão digital faria com que fosse desnecessária uma assinatura, um dos processos que também faz com que o voto seja mais demorado.

Olhando para as idéias que acho pertinentes, acredito que um dos principais impeditivos seja justamente o custo de implantação de alguns equipamentos. O governo seria obrigado a realizar licitações para a compra de alguns deles, mas acho que, ainda assim, o investimento valeria muito à pena. O que talvez seja ainda mais problemático é algo mais profundo: Os sistemas brasileiros, sejam eles de qualquer órgão público, não são interligados. Sendo assim, fica mais difícil que um banco de dados de impressões digitais possa ser viabilizado, por exemplo.

Se a coisa fosse toda on-line, tudo seria simplificado. E além do mais, abriria espaço para ainda mais uma idéia. O eleitor deixaria de precisar justificar o voto. Em qualquer ponto do país onde estivesse, indo à qualquer zona eleitoral, bastaria se identificar pela biometria e, dali mesmo, dar seu voto. Sistemas interligados, então, transfeririam o voto para um computador central, no TRE mais próximo, que então juntaria tudo em seu superior, o TSE.

Mundo perfeito demais? Quem sabe um dia…

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Comentário

  1. As idéias são muito interessantes, mas rebato algumas delas. A que eu acredito ser a mais inviável é a do som nas urnas, dando explicações para os eleitores. O procedimento de votação na urna é extremamente simples. Isso é fato. Colocar ali um distraidor faria com que o tempo de votação aumentasse. Imaginemos que a gravação demorasse dois minutos, por exemplo. Se a pessoa se dispor a ouvir, e acredito que, movidos pela curiosidade, muitos o fariam, um voto simples, que não dura, em média, mais que dez segundos (no caso do referendo), duraria dois minutos e dez segundos.

    Outro ponto que vejo com certo receio é o sistema online do TSE. Embora não seja divulgado ao público em geral, atualmente muitos bancos sofrem rombos enormes em virtude de fraudes virtuais. O que garante que o TSE também não sofreria este tipo de problema? Concordo que a idéia é boa, e seria um avanço surreal no processo eleitoral brasileiro, mas se colocar tudo na balança, praticidade de um lado, e segurança do outro, acredito eu que falta muuuuuito para atingirmos um patamar mínimo de segurança de dados que garanta total confiança nas vias virtuais.

    Abraços!

  2. Oi Daniel,

    Confesso a vc que achei muito bom as urnas eletrônicas, mas na minha seção após o voto de 218 eleitores deu pane no sistema e tivemos que trocar a urna, também com o mesmo problema, A eleição prosseguiu com cédulas, que gerou muuuito mais trabalho para nós mesários.

    A respeito de suas idéias, ta,bém concordo com o título de eleitor como cartão magnético, acho que agilizaria muitos processos.

    Mas acredito que a urna eletrônica foi um grande passo, agora precisamos melhorá-la.

    Valeu pelo post.

  3. Eu concordo com o Rodrigo Ghedin, acho que instruções audíveis no momento da votação atrasaria demais e formaria filas imensas com a insatisfação dos eleitores.

    Já fui presidente de seção eleitoral, na época das cédulas, e sei bem como são alguns eleitores, que deixam para escolher em quem votar já na cabine de votação e que às vezes, nem levam o nº do candidato, procurando-o naquela lista que fica anexada à cabine.

    Mas todas as outras são muito válidas, principalmente a da emissão do comprovante de votação e da biometria (sendo essa, na minha opinião, a mais complicada de implantar, porque dependeria de uma convocação geral para recadastramento e colheita das digitais).

    Mas, se eu fosse você, escreveria para o TSE dando suas sugestões.

    Abraços.

  4. Olá.. estava procurando dicas de como manusear o wordpress no google, quando vi que você postou em um forum falando a respeito da instalação do programa. Olha só, se você puder ajudar, agradeceria. É que eu instalei esses dias, coloquei para minha linguagem e tudo mais, mas sinceramente, não estou achando as barras de ferramentas e outras coisinhas amais, tipo, para mudar meu layout que eu mesma fiz e etc. Eu até baixei um theme que eu gostei (blix), mas mesmo assim não consegui. Tipo, se vc puder me dar umas dicas do que fazer, via email, eu agradeceria. Me ajude, pro favor, é que entendo pouco o ingles, e até onde entendo, eu só consigo fazer o login no wordpress e vejo as noticias e comentarios de foruns. Mas ferramentas e outras coisas para dar inicio a árdua tarefa de fazer meu novo site, não consigo
    Ah, mais uma pergunta: tenho que fazer um dominio só meu quando utilizo o wordpress ou pode ser gratuito? E os arquivos de posts e imagens, ficam armazenados no wordpress mesmo? É como se este fosse um site de hospedagem?
    Obrigada pela atenção
    O email segue acima, por favor, me responda.
    Sammy

  5. Sim, as urnas eletrônicas são um primor nacional, e acho uma coisa inevitável no futuro para todos os países… No entanto, desde as primeiras utilizações dessa parafernalha que fico com a pulga atrás da orelha. pois somente após a liberação de seu título de eleitor é que seria possível votar, portanto, o governo está com a faca e o queijo na mão. Ele SABE sua opnião particular.

  6. O comentário número 10 é um dos mais bizarros que já li. Diga-me, por que motivo existe uma máquina eletrônica para votar, mas a validação do eleitor é feita em um livro (tecnologia bem antiga) nas mãos de uma pessoa diferente da que cuida da máquina? Exatamente para não haver coleta de informação cruzada capaz de identificar o autor do voto.
    Num sistema automatizado de votação, com um aparelho único integrado, cria-se exatamente essa crise de confiança: o que prova que a máquina não está inter-relacionando os votos com os autores?
    Mas, antes desta conversa toda render resultados práticos, deveríamos pressionar pela urgente reforma política e pela educação do povo para que pare de fazer escolhas estúpidas.

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  • Diversidades » Blog Archive » Urna Eletrônica Turbinada 28/11/2005

    […] Leiam esse artigo do Daniel Santos sobre suas idéias para uma urna eletrônica perfeita. Concordo com quase tudo, menos com o sistema de som na cabine de votação. […]

  • t::gadget 28/11/2005

    Urna eletrônica no Brasil

    Daniel Santos, do blog Back-up brain, faz uma análise das urnas eletrônicas brasileiras, um verdadeiro gadget made in Brazil.
    Foi pelo rápido processamento de votos das urnas eletrônicas que ficamos sabendo o resultado do referendo tão rapidamen…