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Pseudodemocracia

Fiquei adiando escrever este post durante muitos dias. Nem sabia ao certo se deveria escrevê-lo, e acabei mesmo querendo deixá-lo de lado. Mas acontece que na segunda-feira passada recebi uma ligação telefônica de uma mulher, e esta pessoa disse estar fazendo uma pesquisa para sua faculdade. Ela se identificou, me desejando boa noite (eram aproximadamente 20h30, o que eu achei um horário deveras inapropriado para a pesquisa, mas tudo bem), e foi logo perguntando:

— O senhor já é eleitor?

Eu respondi que sim. Quer dizer, a resposta que ela ouviu foi o sim, e de forma bem sonora, diga-se de passagem. A resposta que eu guardei mentalmente para mim mesmo, e que esta sim dividirei com vocês, foi “Infelizmente sim”. E tenho realmente meus motivos para pensar desta forma. O primeiro dos motivos chega a ser bastante cômico. Pela segunda vez, eu que esqueci de transferir meu título de eleitor para um local mais próximo de onde eu moro, fui convocado para ser mesário e ajudar meu país a ser mais democrático. Fui a um treinamento de mesários e recebi um manual, que diz, logo em sua página 5:

Caro mesário,

Esta é mais uma grande eleição e, novamente, contamos com sua colaboração. São milhões de pessoas envolvidas e, de todas elas, a mais importante é você, mesário, que é o responsável pelo local onde o eleitor manifesta sua vontade. Seu trabalho é fundamental para o sucesso de todo o processo democrático (…)

Colaboração? E eles lá me deram alguma alternativa a isto? Eu não pedi pra receber convocação nenhuma, e sinceramente, colaboração pra mim, ao menos neste caso, deveria ser sinônimo de voluntariado. Um país que tem um sistema eleitoral dos mais avançados do mundo, copiado inclusive — e não apenas — pelos americanos, ainda é atrasado em uma questão como esta: Definir o voto como facultativo, desobrigando as pessoas a comparecerem às urnas e fazendo com que o trabalho dos mesários seja remunerado…

Chamei este post de Pseudodemocracia. E acho mesmo que a questão é esta. Se somos tão democráticos quanto imaginamos, porquê é que, em pleno século 21, somos forçados (a palavra é exatamente esta, forçados) a comparecer ao pleito eleitoral? Porquê não podemos simplesmente deixar que nossa vontade se manifeste verdadeiramente, indo para as urnas compelidos pelo desejo de mudança, que muita gente guarda dentro de si, e não apenas com a sensação de que estamos cumprindo uma obrigação?

Voto é direito, não é mesmo? É o que dizem. Portanto direito não é obrigação. Muito do que estou escrevendo é realmente motivado pelo fato de que, em pleno domingo, dia 3 de outubro, estarei preso a uma seção eleitoral das 7 horas da manhã (sim, porquê precisarei chegar mais cedo) às 17 horas, pelo menos. Isso se não houver segundo turno (e aqui em São José dos Campos é bem capaz que ele aconteça: Não me lembro de qualquer eleição passada, desde que o segundo turno foi instituído, em que ele não tenha ocorrido por aqui).

Mas é necessário pensar a respeito. Quantas vezes já se noticiou algo sobre voto facultativo, e isso nunca foi adiante? Quero dizer, porquê é, afinal de contas, que o voto continua sendo obrigatório, ano após ano? Acho que isso se deve ao fato de que os políticos pensam no voto como uma maneira de controlar os eleitores. Assim eles continuam prestando favores aos mais necessitados como uma forma de promover o voto neles mesmos. E as coisas não se renovam.

Achei a palavra que queria. Renovação. Enquanto ela não for possível, viveremos eternamente nesta que, enganando a nós mesmos, chamamos de situação democrática. Estamos todos envolvidos por um ambiente que já passou da hora de mudar.

  1. Daniel, escrevi algo parecido com o que você escreveu neste meu texto, porém você escreve muito mehor que eu hehehehe
    Vou colocar seu texto lá em casa.
    Abraços

  2. Pois é caro amigo, se o voto fosse facultativo, as coisas seriam mais complicadas para os ladrões do colarinho branco. Eles teriam que convencer o eleitor a ir a urna e votar. É muito interessante que a pessoa vá votar, mas quando ela tem certeza, tem esperança de um governo melhor para sua cidade. Mas sempre tem aquele que só vai por obrigação, que não tá nem aí, não tem candidato, ou por outras razões. Seria melhor que esse cidadão ficasse em casa, Mas ele acaba tendo que ir votar no “menos pior”. Mas é isso , a gente vai caminhando dessa forma, enquanto o povo não se revoltar e resolver votar nulo.

  3. É fácil dizer que o voto obrigatório compromete o sistema democrático. Com a mesma facilidade, aliás, com que se esquece que se ele fosse facultativo menor seria a participação popular nas eleições. A verdade é que nosso povo não está preparado para isso, falta-lhe consciência política. Muitos, assim como você, ainda vêem o voto como um fardo, um castigo. Ao contrário do que pensam, o voto facultativo favoreceria o poder das elites, que sabem se mobilizar no momento certo e oportuno.

    A população ainda não compreende a importância de cada elemento eleito no pleito. Não sabe, por exemplo, que um prefeito eleito com minoria na Câmara tem seus projetos atravancados. Entretanto, ao menos, já se preocupa com os candidatos principais, tais como, presidente, governador e prefeito. Num futuro, talvez, isso seja possível; hoje não.

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  • Neto Cury Blog 04/10/2004

    DIREITO DE VOTO
    Já tinha escrito alguma coisa sobre a obrigatoriedade do voto neste meu texto, mas Daniel Santos escreveu melhor e ainda citou o fato de ser “COLABORADOR” como mesário, leia o texto PSEUDODEMOCRACIA de Daniel Santos. Só pra arrem…